Multivitamínico: Quem Precisa Tomar, o Que os Estudos Mostram e os Riscos do Excesso
Para adultos saudáveis, o multivitamínico não mostrou prevenir doença do coração, câncer nem morte precoce: a força-tarefa de prevenção dos Estados Unidos considera a evidência insuficiente, e um estudo com 390 mil adultos acompanhados por até 27 anos não encontrou ganho de sobrevida. Quem pode precisar são grupos específicos, e alguns recebem ferro, ácido fólico ou vitamina A de graça no SUS. Veja os riscos do excesso e como ler o rótulo.
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Se você é adulto, saudável e come de forma variada, os grandes estudos não mostram que um multivitamínico previna infarto, câncer ou morte precoce. Em 2022, a Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos (USPSTF), com base numa revisão de 84 estudos e 739.803 participantes, concluiu que a evidência é insuficiente para dizer se o multivitamínico traz benefício e recomendou não usar betacaroteno nem vitamina E para prevenir doença do coração ou câncer. Quem pode precisar de suplemento são grupos específicos, como gestantes, crianças pequenas e pessoas com deficiência diagnosticada, e o SUS já tem programa próprio para alguns deles.
É um hábito comum. Na Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018, do IBGE, 11,1% das pessoas com 10 anos ou mais disseram ter usado suplemento de vitaminas (multivitamínico, complexo B ou vitamina C) no mês anterior. Entre as mulheres idosas, foram 19,5%.
Este texto não indica suplemento nem quantidade para ninguém. Se você precisa de um, qual e por quanto tempo é decisão do profissional de saúde.
Quem pode precisar de multivitamínico?#
Para a Anvisa, suplemento é um produto para pessoas saudáveis, usado como complemento em situações como dietas restritivas, alterações metabólicas ou atividade física intensa. "Pessoas doentes ou com condições específicas, por exemplo deficiência de nutrientes, devem procurar um profissional de saúde habilitado para receber orientações de consumo", diz a agência. Os antigos suplementos vitamínicos e minerais entraram, em 2018, na categoria dos suplementos alimentares, cujas regras estão no texto sobre o que a Anvisa permite em suplementos.
A própria USPSTF deixa de fora da recomendação as crianças, as gestantes e quem pode engravidar, as pessoas com doença crônica, as internadas e as que têm deficiência nutricional conhecida. Nesses casos, o suplemento pode fazer parte do cuidado, com indicação de quem acompanha a pessoa.
Para alguns desses grupos, o Ministério da Saúde tem programas próprios, com suplementos entregues de graça nas unidades básicas de saúde (UBS). Segundo o Caderno dos Programas Nacionais de Suplementação de Micronutrientes, de 2022:
| Quem | O que o SUS oferece |
|---|---|
| Gestantes | Ferro e ácido fólico, pelo Programa Nacional de Suplementação de Ferro (PNSF), no pré-natal |
| Mulheres no pós-parto ou depois de um aborto | Ferro, pelo PNSF |
| Crianças de 6 a 24 meses | Ferro, pelo PNSF, ou, para as acompanhadas na atenção primária que recebem benefício de transferência de renda, sachês de vitaminas e minerais em pó para misturar na comida (estratégia NutriSUS) |
| Crianças de 6 a 59 meses no Norte, no Nordeste, no Centro-Oeste e as atendidas pela saúde indígena; de 6 a 24 meses no Sul e no Sudeste | Vitamina A, pelo Programa Nacional de Suplementação de Vitamina A |
Os suplementos de ferro e ácido fólico devem estar disponíveis nas farmácias das UBS de todos os municípios, segundo o Ministério. Quantidade e duração são definidas pela equipe de saúde. O texto sobre anemia em crianças explica por que o ferro é oferecido a todas as crianças dessa idade.
Há ainda a fortificação obrigatória, lembrada no mesmo Caderno: por norma da Anvisa, as farinhas de trigo e de milho são enriquecidas com ferro e ácido fólico, e o sal, com iodo. Esses nutrientes já chegam à mesa de quem come pão, macarrão e comida com sal.
Quem corta alimentos de origem animal precisa de mais atenção. O Guia Alimentar para a População Brasileira lembra que a carne vermelha tem teor elevado de ferro, zinco e vitamina B12 e que, "quanto mais restrições, maior a necessidade de atenção e, eventualmente, do acompanhamento por um nutricionista". O caso da B12 está no texto sobre alimentação vegetariana.
O multivitamínico previne doenças em quem é saudável?#
Os maiores estudos dizem que não, ou quase nada:
- USPSTF, 2022. Para adultos que vivem na comunidade, fora da gravidez, a evidência sobre multivitamínico é insuficiente para avaliar benefícios e riscos na prevenção de doença do coração e de câncer. Para o betacaroteno, a força-tarefa concluiu, com certeza moderada, que os danos superam os benefícios. Para a vitamina E, também com certeza moderada, que não há benefício líquido. Por isso, recomenda não usar nenhum dos dois com esse fim.
- A revisão que embasou a recomendação. Nos 84 estudos, as vitaminas e os minerais trouxeram pouco ou nenhum benefício contra câncer, doença do coração e morte. A exceção foi uma pequena redução de casos de câncer com o multivitamínico: a diferença absoluta ficou entre 0,2 e 1,2 ponto percentual nos ensaios com tamanho adequado, e os autores apontam "limitações importantes" nesse resultado. Na análise conjunta, o multivitamínico não teve relação com a mortalidade, e um dos principais ensaios incluiu só médicos homens. A vitamina D também não reduziu mortes, doença do coração nem câncer.
- Três grandes estudos americanos, 2024. Pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos acompanharam 390.124 adultos sem câncer ou outra doença crônica por até 27 anos. Quem usava multivitamínico não viveu mais. Na primeira metade do acompanhamento, o risco de morte foi 4% maior entre os usuários. Por ser observacional, o estudo mostra associação, e não causa e efeito.
Por que a comida protege e o comprimido não repete o efeito? O Guia Alimentar responde que a proteção que frutas, legumes e verduras dão contra doenças do coração e alguns tipos de câncer "não se repete com intervenções baseadas no fornecimento de medicamentos ou suplementos que contêm os nutrientes individuais presentes naqueles alimentos". Segundo o Guia, o benefício vem "do alimento em si e das combinações de nutrientes e outros compostos químicos que fazem parte da matriz do alimento, mais do que de nutrientes isolados".

Quais são os riscos do excesso?#
Vitamina não é inofensiva em qualquer quantidade. A Anvisa fixa, para cada vitamina e mineral, um máximo por dia na recomendação do rótulo, diferente para cada faixa de idade, e chama esses números de limites de segurança. Para alguns nutrientes, a distância entre o mínimo que faz diferença e o máximo considerado seguro é pequena, explica a agência. E mesmo os produtos regulares "podem representar um risco se forem consumidos em quantidades acima do limite de segurança ou por grupos populacionais para os quais não sejam indicados".
Os riscos mais documentados envolvem três vitaminas lipossolúveis, as que se dissolvem em gordura, e o betacaroteno:
| Nutriente | O que dizem as fontes |
|---|---|
| Vitamina A | Em doses altas, pode ser tóxica para o fígado e causar malformações no feto (USPSTF). Há evidência limitada de mais fratura de quadril (revisão da USPSTF), e doses maiores podem aumentar a mortalidade (Cochrane, 2012) |
| Vitamina D | Em doses altas, pode elevar o cálcio no sangue e causar cálculo renal (USPSTF). Em 2020, a Anvisa alertou para um lote de suplemento com mais de 600 vezes o limite permitido, com risco de náuseas, vômitos, fraqueza e complicações nos rins |
| Vitamina E | Sem benefício para prevenir doença do coração ou câncer, e evidência limitada de mais AVC hemorrágico (USPSTF). Parece aumentar a mortalidade (Cochrane, 2012) |
| Betacaroteno | Aumentou o risco de câncer de pulmão em quem fuma ou foi exposto ao amianto no trabalho, e a mortalidade cardiovascular (USPSTF). Parece aumentar a mortalidade (Cochrane, 2012) |
A revisão Cochrane de 2012 reuniu 78 ensaios com 296.707 participantes e concluiu que não há evidência que sustente suplementos antioxidantes para prevenir doenças. Os autores defendem que esses produtos sejam avaliados como medicamentos antes de chegar ao mercado.
Três situações aumentam o risco:
- Somar produtos. Um multivitamínico, uma vitamina avulsa e uma fórmula "para cabelo e unha" podem repetir os mesmos nutrientes. O próprio Ministério da Saúde orienta que a criança que recebe o sachê do NutriSUS não tome outro suplemento com ferro, e ela não precisa receber a vitamina A do programa. As regras de fortificação também foram revistas por causa do excesso, segundo o Caderno do Ministério: a das farinhas, para evitar ingestão exagerada de ferro e ácido fólico em alguns grupos, e a do sal, diante de sinais de consumo excessivo de iodo no país.
- Bebês. Suplementos de vitamina C, niacina, ácido fólico, colina, vitamina B6, vitamina E, cobre, iodo, magnésio, manganês, molibdênio e fósforo não são autorizados para menores de 12 meses. Segundo a Anvisa, nessa idade as únicas fontes desses nutrientes devem ser os alimentos e o leite materno ou, quando for o caso, a fórmula infantil, "a fim de evitar toxicidade".
- Crianças por perto. Todo suplemento traz no rótulo a advertência "Mantenha fora do alcance de crianças", exigida pela RDC 243/2018. Guarde como remédio, e veja como evitar intoxicação em casa.
Como ler o rótulo de um multivitamínico?#
Suplemento ou remédio? Desde 2018, a quantidade de vitamina deixou de separar uma coisa da outra. Segundo a Anvisa, só é medicamento o produto de vitaminas e minerais com indicação terapêutica, como tratar uma doença. O suplemento só pode descrever o papel do nutriente no corpo. Um exemplo da própria agência: "A vitamina D auxilia na absorção de cálcio e fósforo" pode estar num suplemento; "A vitamina D auxilia no tratamento da osteoporose", só num medicamento.
Imunidade e energia. A Instrução Normativa 28/2018 autoriza frases como "A vitamina C auxilia no funcionamento do sistema imune" e "A tiamina auxilia no metabolismo energético", desde que o produto tenha a quantidade mínima do nutriente. Mas a Anvisa proíbe prometer aumento da imunidade ou solução para o cansaço. Uma frase descreve o papel da vitamina; a outra promete um resultado que o produto não pode garantir. O que tem evidência para a imunidade está no texto sobre como fortalecer a imunidade.
Betacaroteno. O limite máximo de vitamina A nos suplementos vale só para a vitamina A pré-formada. Segundo a Anvisa, um produto que use apenas betacaroteno como fonte de vitamina A não precisa respeitar esse limite. Para quem fuma, o alerta da USPSTF sobre câncer de pulmão pesa ainda mais. O texto sobre como parar de fumar mostra o tratamento gratuito no SUS.
Grupo, quantidade e avisos. Confira para quem o produto é indicado, a quantidade por dia e as advertências "Este produto não é um medicamento" e "Não exceder a recomendação diária de consumo indicada na embalagem". O passo a passo está no guia de como ler o rótulo de um suplemento. A mesma lógica vale para outros produtos da prateleira, como mostra o texto sobre suplemento de colágeno.
Quando procurar atendimento#
Converse com o médico, o nutricionista ou a equipe da unidade básica de saúde antes de começar se você:
- está grávida, planeja engravidar ou amamenta;
- pensa em dar vitamina a um bebê ou a uma criança;
- tem doença crônica, faz algum tratamento ou usa remédio todos os dias;
- fuma ou já fumou e pensa em usar produto com betacaroteno;
- já usa outro suplemento ou segue uma alimentação muito restrita;
- sente cansaço que não passa, o que pede avaliação, e não um multivitamínico por conta própria.
Se surgirem náuseas, vômitos e fraqueza depois de começar um suplemento com vitamina D, pare de usar e procure atendimento levando a embalagem. Se uma criança engolir um suplemento, ligue para o Disque-Intoxicação da Anvisa, 0800 722 6001, gratuito e 24 horas, ou para o Samu (192).
Este texto é informativo e não substitui a consulta. A decisão de usar suplemento, o tipo e a quantidade cabem ao profissional de saúde que acompanha você.
Perguntas frequentes
Multivitamínico previne doenças?
Em adultos saudáveis, não há evidência de que previna. A Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos (USPSTF) concluiu em 2022 que a evidência é insuficiente para avaliar benefícios e riscos do multivitamínico na prevenção de doença do coração e de câncer, e recomendou não usar betacaroteno nem vitamina E com esse fim. Um estudo de 2024 com 390 mil adultos americanos acompanhados por até 27 anos não encontrou menor risco de morte entre quem usava multivitamínico.
Multivitamínico dá energia ou aumenta a imunidade?
O rótulo não pode prometer isso. A Anvisa lista o aumento da imunidade e a solução para o cansaço entre as alegações proibidas para suplementos. O que a Instrução Normativa 28/2018 permite são frases sobre o papel de cada nutriente, como "A vitamina C auxilia no funcionamento do sistema imune" ou "A tiamina auxilia no metabolismo energético", desde que o produto tenha a quantidade mínima exigida. Cansaço que não passa pede avaliação de um profissional de saúde.
Grávida precisa tomar polivitamínico?
A gestante recebe ferro e ácido fólico de graça no SUS, pelo Programa Nacional de Suplementação de Ferro, do Ministério da Saúde, nas unidades básicas de saúde durante o pré-natal. Qualquer outro suplemento deve ser combinado com a equipe do pré-natal. A recomendação da USPSTF sobre multivitamínicos não vale para gestantes, e a força-tarefa lembra que a vitamina A em doses altas pode causar malformações no bebê.
Tomar vitamina demais faz mal?
Pode fazer. A Anvisa fixa um máximo por dia para cada vitamina e mineral nos suplementos e chama esses números de limites de segurança. Segundo a USPSTF, a vitamina A em doses altas pode ser tóxica para o fígado e causar malformações no feto, e a vitamina D em doses altas pode elevar o cálcio no sangue e causar cálculo renal. Em 2020, a Anvisa alertou para um lote de suplemento de vitamina D com mais de 600 vezes o limite permitido, com risco de náuseas, vômitos, fraqueza e complicações nos rins.
Idoso precisa tomar multivitamínico?
As fontes oficiais consultadas não trazem indicação geral de multivitamínico pela idade. Na Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018, do IBGE, 17,4% dos idosos disseram ter usado suplemento de vitaminas no mês anterior, mas a USPSTF não encontrou evidência suficiente de que o multivitamínico previna doença do coração ou câncer em adultos que vivem na comunidade. Perda de peso sem querer, alimentação muito restrita ou doença crônica pedem avaliação do médico ou do nutricionista.
Fontes consultadas
- 1.Vitamin, Mineral, and Multivitamin Supplementation to Prevent Cardiovascular Disease and Cancer: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement — JAMA, 2022, via PubMed
- 2.Vitamin and Mineral Supplements for the Primary Prevention of Cardiovascular Disease and Cancer: Updated Evidence Report and Systematic Review for the US Preventive Services Task Force (O'Connor EA e col.) — JAMA, 2022, via PubMed
- 3.Antioxidant supplements for prevention of mortality in healthy participants and patients with various diseases (Bjelakovic G e col.) — Cochrane Database of Systematic Reviews, 2012, via PubMed
- 4.Caderno dos Programas Nacionais de Suplementação de Micronutrientes (2022): NutriSUS, suplementação de ferro e de vitamina A — Ministério da Saúde
- 5.Perguntas e Respostas sobre Suplementos Alimentares, 9ª edição (perguntas 8, 72, 76, 77 e 98) — Anvisa, Gerência-Geral de Alimentos, 16/1/2025
- 6.Guia Alimentar para a População Brasileira, 2ª edição (2014) — Ministério da Saúde


