Alimentação Vegetariana: o Que Observar em B12, Ferro, Cálcio e Proteína
Pelo Guia Alimentar do Ministério da Saúde, carne não é imprescindível, mas cada restrição pede mais atenção às combinações. Veja o que dizem as fontes oficiais sobre vitamina B12, ferro, cálcio e proteína, por que arroz com feijão ajuda e quando procurar nutricionista.
Publicado em ·7 min de leitura

O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, diz que comer carne ou outros alimentos de origem animal não é absolutamente imprescindível para uma alimentação saudável. Mas avisa que qualquer restrição obriga a escolher com mais atenção a combinação dos outros alimentos e que, quanto mais restrições, maior a necessidade de atenção e, eventualmente, de acompanhamento por um nutricionista. Os pontos que pedem cuidado são conhecidos: vitamina B12, que não existe nos alimentos de origem vegetal, ferro, cálcio e a proteína, que o arroz com feijão ajuda a garantir.
O que o Guia Alimentar diz sobre ser vegetariano?#
Pouco, e de propósito. O Guia define como vegetarianas as pessoas que deixam de comer alimentos de origem animal, seja só a carne, seja também ovos e leite, seja tudo o que vem de animais. E diz expressamente que orientações específicas para vegetarianos não são tratadas nele, assim como as de outras restrições, como a de leite ou de trigo.
O que vale para todos, segundo o próprio Guia, são as regras gerais: basear a alimentação em alimentos in natura ou minimamente processados e evitar os ultraprocessados. Elas estão no resumo do Guia Alimentar.
O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, de 2019, é o documento do Ministério da Saúde que mais detalha o assunto, ao tratar das famílias vegetarianas. Ele usa esta classificação:
| Tipo | O que inclui |
|---|---|
| Ovolactovegetariano | Ovos, leite e laticínios |
| Lactovegetariano | Leite e laticínios |
| Ovovegetariano | Ovos |
| Vegetariano estrito | Nenhum produto de origem animal na alimentação |
| Vegano | Nenhum produto de origem animal na alimentação nem qualquer produto que gere exploração ou sofrimento animal |
Quanto mais o tipo se aproxima do vegetarianismo estrito, mais atenção a alimentação exige. A revisão de 2021 do Escritório Regional da Organização Mundial da Saúde para a Europa vai na mesma linha: recomenda uma alimentação predominantemente baseada em vegetais, mas observa que dietas vegetais estritas, como a vegana, levantam preocupações com deficiências de micronutrientes, como ferro e vitamina B12.
Arroz com feijão dá conta da proteína?#
Ajuda bastante. O Guia afirma que arroz, milho, trigo e os demais cereais, combinados ao feijão ou a outra leguminosa, formam fonte de proteína de excelente qualidade. Os feijões, diz o Guia, são fontes de proteína, fibras, vitaminas do complexo B e minerais como ferro, zinco e cálcio.
O Guia mostra que essa lógica está em várias culinárias tradicionais, que combinam alimentos vegetais com nutrientes que se complementam:
- cereal com leguminosa, como no arroz com feijão;
- tubérculo com leguminosa, como no tutu de feijão;
- cereal com legumes e verduras, como no arroz com jambu do Pará;
- cereal ou tubérculo com fruta, como no arroz com pequi de Goiás e na farinha de mandioca com açaí.
Lentilha, ervilha e grão-de-bico entram no lugar do feijão quando se quer variar. Castanhas, nozes, amêndoas e amendoim, segundo o Guia, são ricos em minerais, vitaminas, fibras e gorduras saudáveis. Para quem come ovos, o Guia lembra que eles são ricos em proteínas de alta qualidade e considerados bons substitutos das carnes vermelhas.
A revisão da OMS Europa conclui que dietas veganas geralmente atingem as recomendações de proteína, embora com teores menores que as vegetarianas menos restritivas.

Quais nutrientes pedem mais atenção?#
| Nutriente | O que dizem as fontes oficiais | Onde encontrar sem carne |
|---|---|---|
| Vitamina B12 | Não está presente nos alimentos de origem vegetal (Ministério da Saúde). Veganos precisam de fonte confiável, como alimentos fortificados ou suplementos (Academy of Nutrition and Dietetics) | Alimentos fortificados ou suplemento, conforme indicação do profissional de saúde |
| Ferro | A absorção do ferro dos vegetais pode ser menor, mas uma alimentação vegana variada e bem planejada consegue atingir o recomendado (OMS Europa) | Feijões, outras leguminosas e verduras verde-escuras, com uma fruta rica em vitamina C na refeição |
| Cálcio | Está entre os nutrientes com ingestão relativamente baixa em dietas veganas, segundo revisão citada pela OMS Europa | Leite, iogurte e queijo para quem consome; couve, brócolis, tofu e amêndoa, citados pelo Ministério da Saúde |
| Proteína | Dietas veganas geralmente atingem as recomendações (OMS Europa) | Cereal com leguminosa, ovos e laticínios para quem consome, castanhas |
Vitamina B12#
É o ponto mais delicado. O Guia Alimentar aponta as carnes vermelhas como fontes de B12, e o Guia para menores de 2 anos é direto: a vitamina não está presente nos alimentos de origem vegetal, o que exige atenção especial sobretudo de vegetarianos estritos e veganos. A revisão da OMS Europa registrou ingestão de B12 significativamente menor entre veganos e lembra que a vitamina é importante para várias funções do corpo, entre elas a saúde do sistema nervoso.
Se há necessidade de suplemento, e em que dose, a indicação é do profissional de saúde. Suplemento alimentar tem regras próprias da Anvisa, explicadas no texto sobre o que a Anvisa permite nos suplementos.
Ferro#
O Guia para menores de 2 anos lista como fontes vegetais de ferro o feijão e as verduras verde-escuras, como espinafre, caruru, chicória, jambu e bertalha. Ele explica que o ferro de origem animal é absorvido com facilidade, enquanto o de origem vegetal é mais bem aproveitado quando a mesma refeição tem alimentos ricos em vitamina C, como laranja, abacaxi, acerola, goiaba, manga, caju, limão ou mamão. Para as famílias vegetarianas, a recomendação é uma fruta rica em vitamina C logo após a refeição.
Cálcio#
Quem consome leite e derivados tem neles boa fonte: o Guia Alimentar diz que leite e iogurtes naturais são ricos em proteínas e, principalmente, em cálcio. Para quem não consome, o Guia para menores de 2 anos cita couve, brócolis, bertalha, alho-poró, tofu e amêndoa entre as fontes vegetais. Quanto se precisa por dia e o que atrapalha o aproveitamento estão no texto sobre alimentos ricos em cálcio.
Produto vegetariano industrializado é saudável?#
Não necessariamente. A revisão da OMS Europa alerta que nem toda dieta à base de vegetais é saudável: cereais refinados, bebidas açucaradas, salgadinhos e doces também são "de origem vegetal". Ela cita como ultraprocessados as imitações de carne vendidas como salsicha, nuggets e hambúrguer, as bebidas vegetais tipo "leite" de amêndoa e de aveia e os "queijos" e "iogurtes" vegetais, e diz que ainda faltam dados sobre a composição e os efeitos desses produtos.
Isso combina com a regra do Guia Alimentar que vale também para vegetarianos: evitar ultraprocessados. Como reconhecê-los está no texto sobre alimentos in natura, processados e ultraprocessados. E o prato vegetariano do dia a dia pode seguir o mesmo modelo de prato saudável do Guia, com leguminosa, ovo ou laticínio no lugar da carne.
E as crianças e os adolescentes?#
São caso de acompanhamento. O Guia para menores de 2 anos diz que a criança vegetariana, como qualquer outra, deve mamar no peito por 2 anos ou mais, só leite materno até os 6 meses, e ser acompanhada por profissionais de saúde que monitorem o crescimento e orientem sobre alimentação e suplementação. Ele também avisa que bebidas vegetais ultraprocessadas não substituem o leite materno.
A Sociedade Brasileira de Pediatria, em guia de 2017, afirma que dietas vegetarianas podem oferecer riscos para crianças e adolescentes e devem ser monitoradas pelo pediatra, com apoio de nutricionista. O documento chama atenção para a adolescência: quem passa a ser vegetariano depois de comer de tudo pode, em alguns casos, estar escondendo um transtorno alimentar ou obsessão com o peso.
Quando procurar atendimento#
A Academy of Nutrition and Dietetics considera que dietas vegetarianas e veganas bem planejadas são saudáveis e adequadas em todas as fases da vida. O planejamento é a parte que pode precisar de ajuda. Procure a unidade básica de saúde ou um nutricionista se:
- você pretende cortar todos os alimentos de origem animal;
- está grávida ou amamentando, ou vai alimentar uma criança ou um adolescente vegetariano;
- tem alguma doença em que a alimentação faz parte do tratamento: o Guia Alimentar diz que, nesses casos, é imprescindível que nutricionistas adaptem as recomendações;
- quer saber se precisa de suplemento de vitamina B12 ou de outro nutriente: a indicação e a dose são do profissional;
- percebe que a restrição alimentar vem acompanhada de preocupação excessiva com o peso.
Este texto é informativo e não substitui a consulta.
Perguntas frequentes
Todo vegetariano precisa tomar vitamina B12?
Quem decide é o profissional de saúde, que avalia o caso e define se há indicação e qual a dose. O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, lembra que a vitamina B12 não está presente nos alimentos de origem vegetal e pede atenção especial a ela, sobretudo em vegetarianos estritos e veganos. A Academy of Nutrition and Dietetics afirma que veganos precisam de fonte confiável de B12, como alimentos fortificados ou suplementos.
Arroz com feijão substitui a proteína da carne?
O Guia Alimentar para a População Brasileira diz que os cereais, combinados ao feijão ou a outra leguminosa, formam fonte de proteína de excelente qualidade, e que os feijões também fornecem fibras, vitaminas do complexo B, ferro, zinco e cálcio. A revisão de 2021 do Escritório Regional da OMS para a Europa afirma que dietas veganas geralmente atingem as recomendações de proteína.
Como aproveitar melhor o ferro do feijão sem comer carne?
O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, diz que a maioria das frutas contém vitamina C, que facilita o aproveitamento do ferro do feijão e das verduras, e recomenda, nas famílias vegetarianas, uma fruta rica em vitamina C após a refeição. A revisão de 2021 da OMS Europa lembra que a absorção do ferro dos vegetais pode ser menor, mas que uma alimentação variada e bem planejada consegue atingir o recomendado.
Criança pode ser vegetariana?
Pode, desde que acompanhada. O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos pede atenção redobrada à escolha e à combinação dos alimentos, sobretudo para ferro e cálcio, e acompanhamento por profissionais de saúde que monitorem o crescimento e orientem sobre suplementação. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que a dieta seja monitorada pelo pediatra, com apoio de nutricionista.
Fontes consultadas
- 1.Guia Alimentar para a População Brasileira, 2ª edição (2014): capítulos 2 e 3 (alimentos de origem vegetal e animal, feijões, cereais, ovos e vegetarianos) — Ministério da Saúde
- 2.Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos (2019): fontes de ferro e vitamina C e alimentação de crianças vegetarianas — Ministério da Saúde
- 3.Plant-based diets and their impact on health, sustainability and the environment: a review of the evidence (2021) — Organização Mundial da Saúde, Escritório Regional para a Europa
- 4.Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Vegetarian Diets (J Acad Nutr Diet, 2016) — PubMed
- 5.Guia Prático de Atualização nº 4: Vegetarianismo na infância e adolescência (2017) — Sociedade Brasileira de Pediatria


