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Suplemento de Ômega 3: Quando Faz Sentido e o Que a Anvisa Autoriza

Para quem é saudável, a cápsula de ômega 3 faz pouca ou nenhuma diferença na mortalidade e nos eventos cardiovasculares, segundo a maior revisão Cochrane sobre o tema. Ela reduz os triglicerídeos, e a Anvisa autoriza só três alegações no rótulo. Veja de onde vem o ômega 3 na comida, o que diz a norma e quem deve conversar com o médico antes.

Escrito por

Redação Blog com Saúde

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Publicado em ·8 min de leitura

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Cápsulas gelatinosas transparentes de cor amarelo-clara espalhadas sobre uma superfície branca
Cápsulas gelatinosas transparentes de cor amarelo-clara espalhadas sobre uma superfície branca

Para quem é saudável, a cápsula de ômega 3 muda pouco o risco de infarto, AVC ou morte. A revisão Cochrane de 2020, a maior sobre o tema, reuniu 86 ensaios com 162.796 pessoas e concluiu que aumentar o EPA e o DHA, os ômega 3 do peixe, faz pouca ou nenhuma diferença na mortalidade e nos eventos cardiovasculares. O efeito mais claro é outro: os triglicerídeos caem cerca de 15%. No rótulo, a Anvisa só autoriza três frases sobre ômega 3, e nenhuma delas fala em prevenir doença.

Este texto mostra o que diz a norma e o que dizem os estudos. Ele não indica suplemento nem quantidade para ninguém: os números da Anvisa abaixo são limites para o fabricante.

O que é ômega 3: EPA, DHA e ALA?#

Ômega 3 é uma família de gorduras poli-insaturadas. Os três tipos que importam aqui, segundo a revisão Cochrane:

TipoOnde estáObservação
EPA (ácido eicosapentaenoico)Peixes, sobretudo os gordurososÔmega 3 de cadeia longa
DHA (ácido docosa-hexaenoico)Peixes, sobretudo os gordurososÔmega 3 de cadeia longa
ALA (ácido alfa-linolênico)Vegetais: sementes de linhaça e chia, óleo de canola, nozes, beldroegaO corpo converte parte dele em EPA e DHA, e há debate sobre a eficiência dessa conversão

Na comida, o caminho mais conhecido é o peixe. O Guia Alimentar para a População Brasileira descreve os peixes como ricos em proteína e com alta proporção de gorduras saudáveis, e lembra que, no Brasil, o consumo é baixo, em parte porque a oferta é pequena e o preço é alto em boa parte do país. Para encaixar o peixe nas refeições, veja como montar um prato saudável.

Quatro sardinhas assadas na brasa sobre uma travessa branca, ao lado de batatas cozidas e de uma tigela de salada de alface, cenoura e pimentão
Peixes como a sardinha fornecem EPA e DHA junto com proteína e minerais. Nos ensaios da revisão Cochrane, a maior parte do ômega 3 veio de cápsulas, e há pouca evidência sobre o efeito de comer peixe. · Foto: Unsplash

O que a Anvisa autoriza no suplemento de ômega 3?#

As regras estão na Instrução Normativa (IN) 28/2018, alterada várias vezes desde então. As gerais da categoria estão no texto sobre o que a Anvisa permite em suplementos alimentares. Para o ômega 3, o quadro é este:

PontoO que a norma diz
Ingredientes autorizados como fonte de EPA e DHAÓleo de peixe, óleo de fígado de bacalhau, óleo de krill, DHA de óleo de atum e DHA ou EPA obtidos de algas, entre outros (perguntas 63 e 64 do documento de perguntas e respostas da Anvisa)
PurezaO óleo precisa seguir especificações oficiais de identidade e pureza, inclusive quanto às espécies de peixe permitidas
Limite máximo para adultos2.000 mg de EPA e DHA somados na recomendação diária do rótulo, também para gestantes e lactantes (Anexo IV)
Crianças e adolescentesDesde 2024 (IN 318), há limites próprios a partir de 4 anos: no máximo 200 mg dos 4 aos 8 anos e 250 mg dos 9 aos 18. Abaixo de 4 anos, não é autorizado
Gestantes e lactantesO produto precisa ter pelo menos 45 mg de EPA e DHA, dos quais 30 mg de DHA (Anexo III)
Advertência do krillDesde setembro de 2026 (IN 470), o suplemento com óleo de krill deve avisar que não deve ser consumido por crianças abaixo de 4 anos

E as alegações, ou seja, o que o rótulo pode prometer. São só três, cada uma com uma exigência de quantidade:

Frase autorizadaExigência
"Fonte de ômega 3"Atingir o mínimo do Anexo III, que para adultos é de 37,5 mg de EPA e DHA
"O EPA e o DHA contribuem para o normal funcionamento do coração"Pelo menos 250 mg de EPA e DHA somados na recomendação diária, na redação dada pela IN 450/2026
"Os ácidos graxos ômega 3 EPA e DHA auxiliam na redução dos triglicerídeos"Pelo menos 1.500 mg de EPA e DHA somados na recomendação diária. Não vale para produto indicado a quem tem de 4 a 18 anos nem para produto que misture ômega 3 com fitoesteróis

Repare na distância entre a primeira e a última linha: um rótulo pode dizer "fonte de ômega 3" com uma quantidade muito menor do que a exigida para falar em triglicerídeos. E "normal funcionamento do coração" não é o mesmo que proteger contra infarto: suplemento alimentar não pode prometer prevenir, tratar ou curar doença. Para conferir a quantidade de EPA e DHA, a recomendação de uso e o número de notificação, veja como ler o rótulo de um suplemento alimentar.

O que a evidência mostra para o coração?#

A revisão Cochrane de 2020 analisou ensaios de pelo menos um ano, a maioria com cápsulas, em adultos com e sem doença do coração. O quadro resume os achados para EPA e DHA:

DesfechoResultadoCerteza da evidência
Morte por qualquer causaPouca ou nenhuma diferençaAlta
Eventos cardiovasculares (infarto, AVC e outros)Pouca ou nenhuma diferençaAlta
Morte cardiovascular, AVCProvavelmente pouca ou nenhuma diferençaModerada
ArritmiasPouca ou nenhuma diferençaBaixa
Eventos coronarianosPode haver redução pequena: 167 pessoas precisariam aumentar o consumo para evitar um casoBaixa
Morte por doença coronarianaPode haver redução pequena: 334 pessoas para evitar uma morteBaixa
TriglicerídeosQueda de cerca de 15%, maior com quantidades maioresAlta

Sobre peso, colesterol e pressão arterial, a revisão encontrou pouco ou nenhum efeito. Para o ALA, de origem vegetal, os autores concluíram que provavelmente faz pouca ou nenhuma diferença na mortalidade e que pode reduzir um pouco os eventos cardiovasculares e as arritmias. A revisão também cita a orientação do NICE, órgão de saúde britânico, que estimula comer peixe e diz que compostos de ômega 3 não devem ser oferecidos para prevenir doença cardiovascular.

Triglicerídeos altos são um assunto de consulta, não de prateleira: o texto sobre colesterol alto e triglicérides explica o exame e o que muda os valores.

E para outros desfechos?#

  • Gravidez. Uma revisão Cochrane de 2018, com 70 ensaios e 19.927 mulheres, encontrou menos partos antes de 37 semanas com ômega 3 de cadeia longa: 11,9% contra 13,4% sem o suplemento, com certeza alta. Os prematuros extremos, antes de 34 semanas, caíram de 4,6% para 2,7%. Os autores apontam que o suplemento provavelmente aumenta as gestações que passam de 42 semanas. Quem decide é a equipe do pré-natal; o texto sobre alimentação na gravidez traz a orientação do Ministério da Saúde sobre o peixe.
  • Depressão. Na revisão Cochrane de 2021, com 35 estudos em adultos com depressão maior, o efeito do ômega 3 sobre os sintomas foi pequeno, provavelmente sem importância clínica, e a certeza da evidência foi muito baixa. Ele não substitui o tratamento; veja sinais de depressão e onde buscar ajuda no SUS.

Quem deve conversar com o médico antes?#

A própria Anvisa orienta que pessoas doentes ou com condições específicas procurem um profissional de saúde habilitado antes de usar suplementos. No caso do ômega 3, há três motivos concretos:

  • Quem usa remédio para afinar o sangue (anticoagulante ou antiagregante plaquetário). A revisão Cochrane lembra que o ômega 3 pode prolongar o tempo de sangramento e classificou o efeito sobre sangramentos como incerto. Uma metanálise de 2024 com 11 ensaios e 120.643 pacientes não encontrou aumento geral de sangramento, mas achou risco relativo 50% maior, com aumento absoluto pequeno, em quem recebeu EPA purificado em dose alta.
  • Quem tem doença do coração ou alto risco cardiovascular. Uma metanálise de 2026 com 35 ensaios e 114.592 pessoas encontrou mais fibrilação atrial, um tipo de arritmia, apenas no grupo de alto risco cardiovascular que recebeu mais de 1.500 mg diários de EPA e DHA: a chance subiu 43%, com aumento absoluto de 0,8 ponto percentual. Em quantidades menores, não houve aumento. Parte dos autores tem vínculo com empresas do setor.
  • Gestantes, lactantes, crianças e quem tem doença crônica ou triglicerídeos altos. Os limites da norma foram feitos para pessoas saudáveis, e triglicerídeo alto pede avaliação médica.

Quando procurar atendimento#

Converse com o médico ou a equipe da unidade básica de saúde antes de começar se você:

  • usa anticoagulante, antiagregante ou outro remédio de uso contínuo;
  • tem doença do coração, já teve arritmia ou tem alto risco cardiovascular;
  • recebeu resultado de triglicerídeos ou colesterol alterado;
  • está grávida, amamentando ou quer dar o suplemento a uma criança.

Procure atendimento de urgência ou ligue para o Samu (192) em caso de sangramento que não para, fezes escuras ou com sangue, palpitações com falta de ar ou desmaio, ou sinais de AVC, como fraqueza de um lado do corpo e fala enrolada.

Este texto é informativo e não substitui a consulta. A decisão de usar suplemento, o tipo e a quantidade cabem ao profissional de saúde que acompanha você.

Perguntas frequentes

Tomar ômega 3 previne infarto?

Para a maioria das pessoas, muito pouco. A revisão Cochrane de 2020, com 86 ensaios e mais de 162 mil participantes, concluiu que aumentar o EPA e o DHA faz pouca ou nenhuma diferença na mortalidade geral e nos eventos cardiovasculares, com certeza alta. Pode haver uma redução pequena dos eventos coronarianos: seria preciso que 167 pessoas aumentassem o consumo para evitar um caso, com certeza baixa.

Qual a diferença entre óleo de peixe, óleo de krill e ômega 3 de algas?

São fontes diferentes de EPA e DHA autorizadas pela Anvisa na Instrução Normativa 28/2018. O documento de perguntas e respostas da agência lista óleo de peixe, óleo de fígado de bacalhau, óleo de krill, DHA de óleo de atum e DHA ou EPA obtidos de algas. Desde setembro de 2026, o suplemento com óleo de krill precisa avisar que não deve ser consumido por crianças abaixo de 4 anos.

Vegetariano precisa tomar ômega 3?

Não necessariamente. Os vegetais têm ômega 3 na forma de ácido alfa-linolênico (ALA), presente em linhaça, chia, óleo de canola e nozes. O corpo converte parte do ALA em EPA e DHA, mas a revisão Cochrane de 2020 registra que há debate sobre a eficiência dessa conversão. Quem não come peixe e quer suplementar encontra DHA de algas entre os ingredientes autorizados pela Anvisa; a decisão é do profissional que acompanha a pessoa.

Grávida deve tomar ômega 3?

A decisão é da equipe do pré-natal. Uma revisão Cochrane de 2018, com 70 ensaios e quase 20 mil mulheres, encontrou menos partos prematuros com suplementos de ômega 3 de cadeia longa, com certeza alta, e possivelmente mais gestações que passam de 42 semanas. A Anvisa permite suplementos de EPA e DHA para gestantes, com exigência mínima de DHA no produto.

Quem usa anticoagulante pode tomar ômega 3?

Só depois de conversar com o médico. A revisão Cochrane de 2020 lembra que o ômega 3 pode prolongar o tempo de sangramento e classificou como incerto o efeito sobre sangramentos. Uma metanálise de 2024 com 11 ensaios não achou aumento geral de sangramento, mas encontrou risco maior com EPA purificado em dose alta. Quem usa remédio para afinar o sangue não deve começar suplemento por conta própria.

Fontes consultadas

  1. 1.Instrução Normativa nº 28, de 26 de julho de 2018: listas de constituintes, limites de uso, alegações e rotulagem complementar dos suplementos alimentares (Anexos I, III, IV, V e VI) — Anvisa, via Saúde Legis (Ministério da Saúde)
  2. 2.Instrução Normativa nº 450, de 10 de junho de 2026: altera a IN 28/2018 e as condições da alegação de EPA e DHA (Anexo IV) — Anvisa, Diário Oficial da União, 12/6/2026
  3. 3.Perguntas e Respostas sobre Suplementos Alimentares, 9ª edição (perguntas 63 e 64) — Anvisa, Gerência-Geral de Alimentos, 16/1/2025
  4. 4.Omega-3 fatty acids for the primary and secondary prevention of cardiovascular disease (Abdelhamid AS e col.) — Cochrane Database of Systematic Reviews, 2020, via PubMed Central
  5. 5.Effects of Omega-3 Fatty Acid Treatment on Risk for Atrial Fibrillation: An Updated Meta-Analysis of 35 Trials including 114 592 Individuals (Abuknesha NR e col.) — Circulation: Arrhythmia and Electrophysiology, 2026, via PubMed
  6. 6.Bleeding Risk in Patients Receiving Omega-3 Polyunsaturated Fatty Acids: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Clinical Trials (Javaid M e col.) — Journal of the American Heart Association, 2024, via PubMed
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