Solidão Faz Mal à Saúde? O Que a OMS Diz Sobre Solidão e Isolamento
A solidão atinge cerca de 1 em cada 6 pessoas no mundo e está ligada a cerca de 871 mil mortes por ano, segundo o relatório de 2025 da Comissão da OMS sobre Conexão Social. Veja a diferença entre solidão e isolamento, quem é mais afetado, o que a ciência ainda não provou e onde buscar ajuda no SUS.
Publicado em ·10 min de leitura

Faz mal, e não só ao humor. O relatório da Comissão da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre Conexão Social, publicado em junho de 2025, estima que cerca de 16% das pessoas no mundo, quase 1 em cada 6, se sentem sós, e que a solidão está ligada a cerca de 871 mil mortes por ano, algo como 100 por hora. Solidão e isolamento social aparecem associados a mais risco de AVC, doenças do coração, diabetes tipo 2, depressão, ansiedade, declínio cognitivo e morte precoce. O mesmo relatório é franco sobre um limite: para várias dessas doenças, a ligação é forte, mas ainda não está provado que a solidão seja a causa.
Solidão e isolamento social são a mesma coisa?#
Não. A OMS trata as duas como formas de desconexão social, mas com definições diferentes:
| Solidão | Isolamento social | |
|---|---|---|
| O que é | Sentimento doloroso que surge da distância entre as relações que a pessoa tem e as que gostaria de ter | Estado objetivo de ter poucos papéis, relações e contatos com outras pessoas |
| Como se identifica | Perguntando como a pessoa se sente | Contando contatos, relações e participação em atividades |
| Pode existir sem a outra? | Sim: dá para se sentir só cercado de gente | Sim: dá para ter poucos contatos e não se sentir só |
O relatório separa ainda a solidão de estar só, que é apenas a ausência de outras pessoas, e da solitude, o estado de ficar só por vontade própria para descansar, refletir, criar, meditar ou se dedicar a uma prática espiritual. Um artigo com dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), publicado em 2023 nos Cadernos de Saúde Pública, lembra o mesmo ponto: a solidão pode ser vivida independentemente da quantidade de pessoas e de conversas ao redor.
Morar sozinho é uma terceira coisa. Segundo a OMS, morar só, estar isolado e sentir solidão têm, cada um, efeito próprio sobre o risco de morte, e uma estratégia que funciona para um nem sempre funciona para o outro.
Uma observação para quem lê no Brasil: a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) lembra que, entre 2020 e 2022, "isolamento social" virou o nome do distanciamento físico adotado contra a covid-19. No relatório da OMS, o termo quer dizer outra coisa: a falta objetiva de conexões sociais suficientes.
Quantas pessoas se sentem sós?#
Os números abaixo são da primeira estimativa global da OMS, com dados de 2014 a 2023:
| Grupo | Sentem solidão |
|---|---|
| População mundial | 16% (quase 1 em cada 6) |
| Adolescentes de 13 a 17 anos | 20,9% |
| Jovens de 18 a 29 anos | 17,4% |
| Adultos de 30 a 59 anos | 15,1% |
| Pessoas com 60 anos ou mais | 11,8% |
| Países de baixa renda | 24,3% |
| Países de alta renda | 10,6% |
| Região das Américas | 13,6% |
Ao contrário do estereótipo, a solidão é mais comum entre adolescentes e jovens e diminui com a idade. Mulheres e homens têm taxas parecidas, de 16,1% e 15,4%. A maior diferença aparece na adolescência: 24,3% entre as meninas e 17,2% entre os meninos.
Com o isolamento social, a conta se inverte. Os dados são mais escassos e quase todos sobre pessoas idosas, mas as melhores estimativas indicam que de 25% a 33,6% dos idosos do mundo estão socialmente isolados. Numa das revisões usadas pela OMS, a Região das Américas teve 30% de idosos isolados, com base em 13 estudos. Entre adolescentes de 79 países, cerca de 27% relataram isolamento.
E no Brasil? O ELSI-Brasil entrevistou uma amostra representativa de brasileiros com 50 anos ou mais em 2015 e 2016. Entre 7.957 participantes, 16,8% disseram se sentir sós sempre, 31,7% algumas vezes e 51,5% nunca. Os autores avisam que a pergunta única usada na pesquisa pode ter subestimado a solidão, principalmente entre os homens.

Quem corre mais risco?#
O relatório da OMS aponta, com boa evidência, os fatores que aumentam a chance de solidão e isolamento:
- problemas de saúde física e mental, sobretudo a depressão;
- não ter parceiro ou parceira e morar sozinho;
- traços de personalidade, como a timidez e a baixa autoestima;
- baixa escolaridade e baixa renda;
- ambiente que dificulta o encontro, como a falta de transporte público;
- marginalização: pessoas com deficiência, pessoas LGBTIQ+, migrantes e refugiados, minorias étnicas e povos indígenas relatam mais desconexão social.
Na velhice, entram ainda as limitações nas atividades do dia a dia, a perda de capacidades cognitivas e o idadismo, o preconceito contra pessoas idosas. A Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa, do Ministério da Saúde, cita marcos que podem intensificar o isolamento: a aposentadoria, a saída dos filhos de casa e a perda de amigos e familiares. Sobre as telas, o relatório diz que o efeito ainda não está claro e pede cautela, principalmente para proteger a saúde mental dos jovens.
O ELSI-Brasil encontrou um retrato parecido entre brasileiros mais velhos. Sempre se sentir só foi mais frequente entre quem tinha depressão (4,49 vezes), quem morava sozinho (2,44 vezes), quem tinha baixa escolaridade (1,93 vez), entre as mulheres (1,53 vez), entre quem avaliava a própria saúde como ruim (1,48 vez) e entre quem dormia mal (1,21 vez). O estudo é transversal: mostra que essas coisas andam juntas, mas não qual vem primeiro. O texto sobre qualidade do sono reúne o que tem evidência para dormir melhor.
O que a solidão e o isolamento fazem com a saúde?#
Os números abaixo vêm das meta-análises reunidas no capítulo 4 do relatório da OMS. A maior parte dos estudos foi feita em países de alta renda, com adultos mais velhos.
- Morte precoce: a solidão aumentou o risco de morte por qualquer causa de 9% a 22%, e o isolamento social, de 32% a 33%. Uma das meta-análises mais abrangentes encontrou 14% para a solidão, e é esse o número que a OMS usa para estimar as 871 mil mortes por ano. Na Região das Américas, a estimativa é de cerca de 87 mil mortes por ano. Num estudo com idosos de vários países, o aumento de risco ligado à solidão nos países da América Latina foi de 13%.
- Coração e AVC: solidão ou isolamento se associaram a 29% mais risco de doença coronariana, e o isolamento, a 32% mais risco de AVC. Uma revisão mais recente encontrou 16% mais risco de doença cardiovascular.
- Diabetes tipo 2: num estudo com mais de 465 mil adultos na Dinamarca, sentir solidão de vez em quando se associou a 14% mais risco em 6 anos, e senti-la com frequência, a 24%.
- Depressão e pensamentos suicidas: adultos que se sentem sós com frequência tiveram mais que o dobro do risco de desenvolver depressão. Entre idosos, a solidão pode mais que dobrar o risco de pensamentos suicidas.
- Memória: a solidão se associou a 14% mais chance de comprometimento cognitivo leve e, conforme a meta-análise, a um risco de demência de 23% a 58% maior.
Como a solidão chega ao corpo? O relatório descreve três caminhos ligados entre si. No biológico, o estresse crônico mexe com os hormônios do estresse, a pressão arterial, a imunidade e a inflamação. No psicológico, aumenta o risco de depressão e ansiedade e falta apoio para os problemas do dia a dia. No comportamental, cresce a chance de fumar, beber em excesso, se mexer pouco, comer mal, dormir mal e abandonar tratamentos. Para quem quer largar o cigarro, o texto sobre como parar de fumar mostra o que o SUS oferece.
O que mais pesa é a solidão que se arrasta. Pessoas com solidão crônica, que dura anos, têm associação mais clara com morte precoce, doença cardiovascular, depressão e demência. Para a solidão passageira, os estudos se dividem.
Então a solidão causa essas doenças?#
Para a morte precoce, a OMS considera provável que sim. Como não dá para fazer um experimento que isole pessoas por anos, assim como não deu para o cigarro, os pesquisadores usam um conjunto de critérios, os de Bradford Hill. Aplicados às relações sociais e à saúde, todos foram cumpridos.
Para doenças específicas, o quadro é mais modesto, e o relatório publica isso. Um estudo britânico que usou dados genéticos para separar causa de coincidência testou a ligação entre solidão e 26 doenças. Só 6 mostraram indício de causa: hipotireoidismo, asma, depressão, uso prejudicial de substâncias, apneia do sono e perda auditiva. Para as outras 20, entre elas doença cardiovascular e diabetes tipo 2, a evidência de causa foi pequena.
Outro limite: a relação vai nos dois sentidos. Doença crônica, dificuldade para se locomover, depressão e o estigma de algumas doenças também afastam a pessoa dos outros, o que alimenta a solidão, que por sua vez pode piorar a saúde.
O que ajuda, segundo a OMS?#
A OMS diz que cada pessoa pode fazer diferença com gestos simples, como procurar um amigo que precisa, cumprimentar um vizinho, entrar num grupo do bairro ou fazer trabalho voluntário. Se o problema for mais sério, a orientação é procurar o apoio e os serviços disponíveis.
O que mostram os estudos de intervenção, segundo os capítulos 7 e 8 do relatório:
- Intervenções psicológicas, como a terapia cognitivo-comportamental, são as mais promissoras contra a solidão, com efeito de moderado a grande.
- Apoio social, como visitas regulares e grupos de apoio entre pares, teve efeito de pequeno a moderado em vários estudos, e nenhum efeito em outros.
- Grupos e atividades na comunidade reduzem o isolamento de forma moderada, mas o efeito sobre a solidão é pequeno ou ausente. Para algumas pessoas, o grupo só alivia a solidão quando as barreiras psicológicas para criar laços também são tratadas.
Ou seja: sair de casa ajuda, mas nem sempre basta. A Caderneta da Pessoa Idosa sugere grupos nas UBS, Centros de Convivência, atividades voluntárias, cursos e atividade física como formas de fortalecer vínculos. O texto sobre amizades, convívio e saúde detalha o que fazer no dia a dia e onde encontrar esses grupos de graça.
Quando procurar ajuda#
A Caderneta da Pessoa Idosa orienta conversar sobre a solidão com um profissional de saúde ou com alguém de confiança. Procure a Unidade Básica de Saúde (UBS) se a solidão vier com:
- tristeza que não passa;
- perda de interesse pelo que antes dava prazer;
- esquecimento frequente, que atrapalha as tarefas do dia a dia.
Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) acolhem pessoas em sofrimento psíquico intenso e funcionam em regime de porta aberta: segundo o Ministério da Saúde, não é preciso marcar consulta para o primeiro acolhimento. Se o afastamento dos amigos veio junto com esgotamento ligado ao trabalho, o texto sobre síndrome de burnout mostra que o Ministério inclui o isolamento entre os sintomas.
O Ministério da Saúde lista o isolamento entre os sinais de alerta para o suicídio: deixar de atender telefonemas, ficar em casa ou trancado no quarto, cancelar as atividades de que gostava. Se você ou alguém próximo tem pensamentos de morte, ligue para o CVV, no 188: a ligação é gratuita de qualquer telefone, e o atendimento é sigiloso, 24 horas, todos os dias, também por chat e e-mail no site do CVV. Em perigo imediato, procure o SAMU 192, uma UPA ou um pronto-socorro, e não deixe a pessoa sozinha.
Este texto é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre solidão e isolamento social?
Para a OMS, a solidão é um sentimento: o estado emocional negativo que surge quando há distância entre as relações que a pessoa tem e as que ela gostaria de ter. O isolamento social é um fato que se pode contar: ter poucos papéis, relações e contatos com outras pessoas. Uma pessoa pode se sentir só cercada de gente, e outra pode ter poucos contatos sem se sentir sozinha. O relatório da Comissão da OMS sobre Conexão Social também separa a solidão de estar só e da solitude, que é ficar só por escolha, para descansar ou refletir.
Solidão faz tão mal quanto fumar 15 cigarros por dia?
Essa comparação circula muito, mas não está no relatório de 2025 da Comissão da OMS sobre Conexão Social. O que o relatório traz são estimativas de risco: em meta-análises com adultos, na maioria mais velhos, a solidão aumentou o risco de morte por qualquer causa de 9% a 22%, e o isolamento social, de 32% a 33%. A OMS usa o aumento de 14% para estimar cerca de 871 mil mortes por ano ligadas à solidão.
Quem mora sozinho sente mais solidão?
Em média, sim, mas não é regra. No ELSI-Brasil, com brasileiros de 50 anos ou mais, sempre sentir solidão foi 2,44 vezes mais frequente entre quem morava só. A OMS lembra que morar sozinho, estar isolado e sentir solidão são coisas diferentes, cada uma com efeito próprio sobre a saúde. Por isso, o que resolve uma delas, como uma visita frequente, nem sempre resolve a outra.
Jovens sentem mais solidão do que idosos?
Sim, segundo a primeira estimativa global da OMS, com dados de 2014 a 2023. A solidão foi relatada por 20,9% dos adolescentes de 13 a 17 anos e por 17,4% dos jovens de 18 a 29 anos, contra 11,8% das pessoas com 60 anos ou mais. Já o isolamento social pesa mais na velhice: as melhores estimativas indicam que de 25% a 33,6% dos idosos do mundo estão socialmente isolados.
Onde procurar ajuda para solidão no SUS?
A Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa, do Ministério da Saúde, orienta conversar sobre a solidão com um profissional de saúde e procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) em caso de tristeza prolongada ou perda de interesse pelo que antes dava prazer. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) funcionam em regime de porta aberta, sem consulta marcada para o primeiro acolhimento. O CVV atende pelo 188, de graça, 24 horas, com sigilo.
Fontes consultadas
- 1.From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies. Report of the WHO Commission on Social Connection (2025) — Organização Mundial da Saúde (OMS)
- 2.Conexão social é associada à melhoria da saúde e redução do risco de morte prematura (30 de junho de 2025) — Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS)
- 3.Prevalência de solidão e associações com indicadores sociodemográficos e de saúde em adultos e idosos brasileiros: ELSI-Brasil (Sandy Júnior, Borim e Neri, 2023) — Cadernos de Saúde Pública, via SciELO
- 4.Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa (1ª edição, 2026): promoção da saúde mental e solidão — Ministério da Saúde
- 5.Suicídio: prevenção, sinais de alerta e onde buscar ajuda (CVV 188, SAMU 192, CAPS e UBS) — Ministério da Saúde
- 6.Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): como chegar ao atendimento — Ministério da Saúde


