Amizade Faz Bem à Saúde? Por Que o Convívio Protege e Como Cultivar
Pessoas com laços sociais mais fortes tiveram 50% mais chance de sobreviver ao longo de 7,5 anos, em média, segundo os estudos reunidos pela Comissão da OMS sobre Conexão Social. Veja por que a qualidade das relações pesa, o que funciona para criar convívio, o que se sabe do voluntariado e onde a pessoa idosa encontra grupos de graça.
Publicado em ·9 min de leitura

Faz bem, e o efeito aparece até nas estatísticas de sobrevivência. Nos estudos reunidos pela Comissão da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre Conexão Social, em relatório de 2025, pessoas com laços sociais mais fortes tiveram 50% mais chance de sobreviver ao longo de um acompanhamento de 7,5 anos, em média. O apoio de outras pessoas se associa a menos depressão, menos risco de suicídio e menos declínio cognitivo. O lado oposto, os riscos da solidão e do isolamento, está no texto sobre solidão e saúde. Aqui, o foco é o que protege e o que dá para fazer.
Por que o convívio protege a saúde?#
O relatório da OMS descreve três caminhos pelos quais as relações chegam ao corpo:
- Menos estresse acumulado. Quem tem com quem contar recebe apoio emocional e prático para os problemas do dia a dia. O apoio social e a integração social se associam a níveis mais baixos de inflamação, que participa do surgimento de muitas doenças crônicas.
- Sentido e propósito. As relações dão significado e motivação, e isso se associa ao bem-estar emocional.
- Hábitos. Pessoas mais conectadas recebem mais conselhos e apoio sobre saúde. Mas o efeito vale nos dois sentidos: os comportamentos se espalham pela rede, tanto a alimentação saudável e a atividade física quanto o consumo arriscado de álcool.
O que os estudos encontraram, segundo o capítulo 4 do relatório:
| Laço social | O que os estudos mostraram |
|---|---|
| Conexões sociais mais fortes | 50% mais chance de sobreviver em 7,5 anos, em média |
| Rede social maior, em idosos | 4% menos risco de morte |
| Apoio social | Proteção contra depressão e suicídio; melhor evolução de doença do coração e AVC; melhor qualidade de vida em doenças crônicas |
| Engajamento social forte | 19% menos risco de demência |
| Contato social frequente | 14% menos risco de demência |
São associações, e o relatório faz uma ressalva importante: as diretrizes da OMS para reduzir o risco de declínio cognitivo e demência ainda consideram insuficiente a evidência de que promover atividades sociais, como intervenção, melhore a saúde de forma mais ampla. A revisão dessas diretrizes está em andamento.
O que conta mais: quantidade ou qualidade?#
As duas coisas, e mais uma. A OMS descreve a conexão social em três dimensões:
| Dimensão | O que mede | Exemplo |
|---|---|---|
| Estrutura | Quantas relações e papéis a pessoa tem, e com que frequência se encontra, ao vivo ou on-line | Família, colegas, vizinhos, grupo da igreja ou do esporte |
| Função | O apoio que recebe e sabe que pode receber: prático, financeiro, de informação, emocional, de pertencimento | Ter quem leve a uma consulta ou empreste dinheiro numa emergência |
| Qualidade | Se as relações são positivas, como amorosas e satisfatórias, ou negativas, como tensas, conflituosas, julgadoras ou violentas | Uma amizade em que dá para falar a verdade sem medo |
Segundo o relatório, uma rede grande não garante apoio nem relações boas. Ter muitos contatos abre mais oportunidades, mas a solidão pode vir de poucas relações, de pouco apoio ou de relações ruins. O mesmo vale para o casal: estar num relacionamento, por si só, não basta. Sentir-se preso na relação, inclusive por dependência financeira, neutraliza o efeito protetor de ter um parceiro. Se a relação é marcada por controle, isolamento e humilhação, o texto sobre relacionamento abusivo mostra os sinais e onde pedir ajuda.
O que dá para fazer no dia a dia?#
A OMS diz que cada pessoa pode fazer diferença com ações simples, "como entrar em contato com um amigo necessitado, deixar o celular de lado para estar totalmente presente na conversa, cumprimentar um vizinho, participar de um grupo local ou se voluntariar", na tradução da OPAS. Na prática, o relatório e o Ministério da Saúde sugerem:
- Comece pela vizinhança. No desafio KIND, testado na Austrália, no Reino Unido e nos Estados Unidos, os participantes passaram 4 semanas fazendo pequenos gestos: ver como o vizinho estava, ajudar em alguma tarefa, participar de um mutirão de limpeza. Comparados a quem esperava a vez, ficaram menos solitários no Reino Unido e nos Estados Unidos, e menos isolados nos Estados Unidos.
- Entre num grupo com uma atividade em comum. Coral, oficina, horta, dança ou caminhada dão motivo para voltar toda semana. Sobre os programas de atividade física em grupo, o relatório observa que o benefício pode depender da qualidade das relações que se formam ali e do apoio entre os participantes, e não só da atividade.
- Mexa-se acompanhado. A Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa diz que a atividade física "ajuda a fortalecer redes de apoio, promover novas amizades e prevenir o isolamento social", e sugere convidar amigos ou familiares para se exercitar junto. O Guia de Atividade Física do Ministério cita a melhora das habilidades de socialização pela participação em atividades em grupo. O texto sobre quanto exercício fazer por semana traz as metas da OMS.
- Aprenda algo novo. A Caderneta inclui cursos e novas habilidades entre as formas de fortalecer vínculos. Numa revisão sobre jovens citada pela OMS, os programas de aprender uma habilidade nova tiveram o maior efeito contra a solidão nos estudos controlados, embora a diferença entre os tipos de programa não tenha sido significativa.
- Use a tecnologia a favor, sem trocar o encontro. Videochamadas e grupos on-line ajudam quem tem dificuldade para sair de casa. O relatório lembra que o contato digital pode reduzir o encontro presencial, que oferece relações mais benéficas.
Voluntariado faz bem?#
A OMS inclui o voluntariado entre as ações cotidianas contra a solidão, e a Caderneta da Pessoa Idosa sugere "se integrar em grupos de atividades voluntárias". O que o relatório traz de evidência é indireto:
- uma revisão sobre eventos comunitários, como festas, feiras e almoços coletivos, concluiu que eles podem ampliar as redes sociais e a coesão da comunidade, tanto para quem participa quanto para quem trabalha como voluntário;
- na Cidade do Cabo, na África do Sul, idosos voluntários treinados passaram a visitar vizinhos idosos com mais limitações. Depois de 5 meses, os 212 idosos visitados, todos com 60 anos ou mais, relataram menos solidão e mais participação social.
O relatório não traz uma estimativa do efeito do voluntariado sobre a saúde de quem se voluntaria. Ele aparece como um caminho para criar convívio, não como tratamento.
E a pessoa idosa que mora sozinha ou quase não sai?#
Morar sozinho está entre os fatores de risco mais fortes para o isolamento e a solidão, segundo a OMS. Na velhice, pesam também as limitações para as atividades do dia a dia, o idadismo e perdas práticas, como deixar de dirigir e passar a depender de outras pessoas para sair. No Brasil, há serviços gratuitos que ajudam a romper esse ciclo:
- Unidade Básica de Saúde (UBS). Muitas têm grupos e programas de atividade física, segundo o Guia de Atividade Física. A Caderneta orienta contar à equipe de saúde como são suas relações sociais e familiares e sua rotina, porque o contexto de vida muda o cuidado.
- Centros de Convivência e Cultura (CECO). São espaços do SUS abertos a qualquer pessoa, sem encaminhamento, com oficinas de música, artes visuais, teatro e literatura, corais e blocos de carnaval, artesanato, culinária e passeios. Não fazem consulta. O Ministério da Saúde informa que há mais de 100 no país, com a meta de dobrar esse número até 2027; para saber se há um perto de você, pergunte na secretaria de saúde ou na unidade de saúde.
- Centros de Referência da Assistência Social (CRAS). Estão em quase todos os municípios e oferecem grupos de convivência, com atividades sociais e recreativas, segundo a Caderneta.
- Programas municipais. O Guia de Atividade Física indica as secretarias de esporte, lazer, da pessoa idosa e de assistência social, e o Programa Academia da Saúde.
A Caderneta tem uma página para anotar as atividades coletivas e de convivência da pessoa idosa, com local, dia e horário. Para quem não sai de casa, a tecnologia pode ajudar, mas o relatório da OMS lembra que muitos idosos precisam de treino e de acesso ao aparelho e à internet antes. Visitas regulares e grupos de apoio tiveram efeito de pequeno a moderado contra a solidão em parte dos estudos com populações mais velhas.

Por que só sair mais de casa nem sempre resolve?#
Os grupos e atividades na comunidade reduzem o isolamento de forma moderada, mas o efeito sobre a solidão é pequeno ou ausente, segundo o relatório da OMS. Para algumas pessoas, o grupo só alivia a solidão quando as barreiras psicológicas para criar laços também são trabalhadas, como os pensamentos negativos sobre o próprio valor e sobre como os outros nos veem.
Por isso, as intervenções psicológicas, como a terapia cognitivo-comportamental, aparecem como as mais promissoras contra a solidão, com efeito de moderado a grande. Em pessoas idosas, a combinação de mais de uma estratégia, como treino de atividades de lazer com terapia, ou visitas em casa com orientação, teve efeito moderado sobre a solidão. Se você já participa de atividades e a sensação de vazio continua, vale conversar com a equipe da UBS.
Quando procurar atendimento#
A Caderneta da Pessoa Idosa orienta procurar a UBS em caso de tristeza prolongada, falta de interesse pelo que antes dava prazer ou esquecimento que atrapalha as tarefas do dia a dia. Os sinais e o tratamento estão no texto sobre depressão. Se o cansaço do trabalho está tirando o tempo e a vontade de ver os amigos, veja também o texto sobre síndrome de burnout.
O Ministério da Saúde lista os CAPS e as UBS entre os lugares onde buscar ajuda em caso de sofrimento intenso. Se houver pensamentos de morte, ligue para o CVV, no 188: a ligação é gratuita de qualquer telefone, e o atendimento é sigiloso, 24 horas, todos os dias. Em perigo imediato, procure o SAMU 192, uma UPA ou um pronto-socorro.
Este texto é informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Perguntas frequentes
Quantos amigos uma pessoa precisa ter para ter saúde?
Não existe um número. O relatório da Comissão da OMS sobre Conexão Social descreve três dimensões: a estrutura (quantas relações a pessoa tem e com que frequência se encontra), a função (o apoio que recebe e sabe que pode receber) e a qualidade (se as relações são boas ou tensas e conflituosas). Segundo o relatório, uma rede grande não garante apoio nem relações positivas, e estar num relacionamento, por si só, não basta para proteger da solidão.
Amizade pela internet conta como conexão social?
Conta. A OMS inclui as interações on-line na definição de conexão social, e o relatório de 2025 diz que a tecnologia pode ser especialmente útil para quem tem a mobilidade limitada, como muitas pessoas idosas ou com deficiência. O mesmo relatório pondera que o contato digital pode reduzir o encontro presencial, que oferece relações mais benéficas, e que a eficácia das intervenções digitais contra a solidão ainda é incerta.
Voluntariado faz bem à saúde?
A OMS inclui o voluntariado entre as ações cotidianas que ajudam a reduzir a solidão, e a Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa, do Ministério da Saúde, sugere grupos de atividades voluntárias para fortalecer vínculos. O relatório da OMS cita uma revisão em que eventos comunitários, frequentados ou feitos com trabalho voluntário, ampliaram redes sociais. Ele não traz, porém, uma estimativa do efeito do voluntariado sobre a saúde de quem se voluntaria.
Onde a pessoa idosa encontra atividades em grupo de graça?
Segundo o Ministério da Saúde, nas Unidades Básicas de Saúde, que muitas vezes têm grupos e programas de atividade física, e nos Centros de Convivência e Cultura (CECO), abertos a qualquer pessoa, sem encaminhamento. A Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa cita também os grupos de convivência dos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS). O Guia de Atividade Física lembra os programas das secretarias municipais e o Programa Academia da Saúde.
Ter um animal de estimação substitui o convívio com pessoas?
As evidências não permitem dizer isso. O relatório da Comissão da OMS sobre Conexão Social conta que a companhia de animais foi estudada em muitas revisões, a maioria com pessoas idosas, sem resultado claro: algumas encontraram menos solidão, outras não acharam evidência convincente. Em grupos, como em instituições de longa permanência, os animais podem estimular a conversa entre as pessoas.
Fontes consultadas
- 1.From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies. Report of the WHO Commission on Social Connection (2025) — Organização Mundial da Saúde (OMS)
- 2.Conexão social é associada à melhoria da saúde e redução do risco de morte prematura (30 de junho de 2025) — Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS)
- 3.Caderneta Brasileira da Pessoa Idosa (1ª edição, 2026): atividade física, SUAS e solidão — Ministério da Saúde
- 4.Centros de Convivência e Cultura (CECO) — Ministério da Saúde
- 5.Guia de Atividade Física para a População Brasileira (2021): capítulo de atividade física para idosos — Ministério da Saúde
- 6.Suicídio: prevenção, sinais de alerta e onde buscar ajuda (CVV 188, SAMU 192, CAPS e UBS) — Ministério da Saúde


