Pular para o conteúdo
Blog com Saúde
Relacionamento

Namoro na Adolescência: O Que os Pais Podem Fazer e Quando se Preocupar

Numa pesquisa da Fiocruz com 3.205 estudantes de dez capitais, só cerca de um em cada quatro disse ter procurado os pais em casos de violência no namoro. Veja como conversar sem afastar o filho, falar de consentimento, reconhecer os sinais de violência e o que o adolescente pode resolver sozinho na UBS.

Escrito por

Redação Blog com Saúde

Texto produzido com inteligência artificial

Revisão técnica

Sem revisão profissional

Como este texto foi produzido

Publicado em ·10 min de leitura

Tamanho do texto
Adolescente de cabelo cacheado e camisa xadrez escreve num caderno com a cabeça apoiada no ombro de uma mulher de camisa azul-clara, que acompanha a tarefa sorrindo
Adolescente de cabelo cacheado e camisa xadrez escreve num caderno com a cabeça apoiada no ombro de uma mulher de camisa azul-clara, que acompanha a tarefa sorrindo

Os pais ajudam mais quando continuam por perto do que quando proíbem. O Ministério da Saúde associa o estilo de criação que junta limites claros com diálogo e negociação a adolescentes mais responsáveis, autoconfiantes e com mais facilidade de se comunicar. Na prática, isso significa perguntar sobre o namoro sem fazer interrogatório, combinar regras, falar de respeito e consentimento antes da primeira relação sexual e conhecer os sinais de violência. Na Unidade Básica de Saúde (UBS), o adolescente pode ser atendido sozinho e com sigilo, um direito que a Sociedade Brasileira de Pediatria considera indispensável para melhorar o acesso e a prevenção.

Por que conversar funciona melhor do que proibir?#

Segundo o guia Proteger e cuidar da saúde de adolescentes na atenção básica, do Ministério da Saúde, o grau de conflito entre pais e filhos está ligado, em boa parte, ao estilo de relação e de comunicação entre eles. O guia usa esta classificação:

Estilo dos paisComo agemO que o guia associa ao adolescente
AutoritárioLimites rígidos, punição e pouca conversaDificuldade para decidir com autonomia e para se comunicar, ansiedade diante de comparações
AutoritativoLimites que o filho reconhece, com diálogo e negociação no centroResponsabilidade, autoconfiança, boa comunicação e escolhas feitas com consciência dos efeitos
NegligentePouco envolvimento, quase nenhuma supervisão e pouca conversaPouco autocontrole e necessidade de grupos que o ajudem a enfrentar a adolescência
IndulgenteMuito envolvimento, mas poucos limitesPouco autocontrole e muita frustração quando contrariado

O próprio guia pede cautela: são tendências, e seria simplista explicar o comportamento do filho só pelo estilo dos pais. Ele lembra também que crianças e jovens que passam boa parte do tempo sem supervisão dos adultos ficam mais suscetíveis às influências de fora de casa.

Os adolescentes contam a mesma história do outro lado. Uma pesquisa da Fiocruz com 3.205 estudantes de 15 a 19 anos de dez capitais, concluída em 2010 e publicada no livro Amor e violência, ouviu que muitos escondem dos pais a violência no namoro por vergonha, medo ou dificuldade de diálogo. Só cerca de um em cada quatro disse ter procurado a ajuda dos pais, embora 46% considerassem a família a principal fonte de apoio nesses casos. Uma estudante de Recife resumiu: "Primeiro recriminam para depois dar conselho, por isso que eu e alguns filhos não procuramos a ajuda dos pais".

Como puxar o assunto e combinar regras?#

  1. Pergunte com interesse, sem tom de inquérito. A mãe foi a figura mais lembrada pelos estudantes para conversar, e muitos rapazes se queixaram do pai distante. Um deles disse o que o pai deveria perguntar: "Como é que está indo seu namoro, meu filho?".
  2. Escute antes de dar conselho. Recriminar primeiro é o que faz o filho parar de contar.
  3. Combine limites e explique o motivo. Saber onde e com quem o filho está faz parte da supervisão que o guia do Ministério da Saúde descreve como proteção, desde que venha com conversa, e não só com ordens.
  4. Fale de sexualidade cedo. O mesmo guia pede informações científicas e claras para adolescentes e famílias e uma educação sexual que chegue, de preferência, antes da primeira relação.
  5. Cuide do exemplo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) inclui ter presenciado violência na família entre os fatores de risco para a violência entre parceiros. Na apresentação do livro da Fiocruz, os pesquisadores escrevem que a violência no namoro costuma ter origem em agressões entre os pais presenciadas pelos filhos.

Os pais também parecem fazer diferença na prevenção. Numa revisão de 18 ensaios clínicos com 22.781 adolescentes, publicada em 2022 na JAMA Pediatrics, os programas de prevenção reduziram a violência física no namoro, sem efeito claro sobre a violência sexual, e os que envolviam ativamente os pais tiveram resultado maior. Os autores tratam esse último achado, de uma análise exploratória, como pista, não como prova.

O que conversar sobre consentimento?#

Consentimento é a ideia de que nada acontece sem que os dois queiram. O guia do Ministério da Saúde orienta dizer ao adolescente que os parceiros têm de estar de acordo com o que fazem e prontos para assumir as responsabilidades que vêm junto, e cita entre os direitos sexuais o de escolher o parceiro sem medo, culpa ou vergonha.

A Caderneta de Saúde do Adolescente, que o SUS distribui em versões para meninas e meninos, fala direto com o jovem: a primeira relação sexual só deve acontecer quando ele ou ela se sentir preparado, como escolha própria, respeitando o próprio ritmo e sem ceder à pressão dos outros. As versões para meninas e meninos trazem a mesma mensagem.

Dois limites merecem entrar na conversa:

  • Antes dos 14 anos, a lei não reconhece consentimento. O guia do Ministério da Saúde cita a Súmula 593 do Superior Tribunal de Justiça: relação sexual com menor de 14 anos é crime, mesmo que haja consentimento, experiência anterior ou namoro. Nesses casos, o serviço de saúde é obrigado a notificar.
  • O celular também entra. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) lembra que divulgar imagem íntima sem consentimento, muitas vezes como vingança pelo fim do namoro, é crime pelo artigo 218-C do Código Penal. Quando a imagem é de menor de 18 anos, produzir, guardar ou compartilhar conteúdo sexual é crime também pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.

Quais sinais podem indicar violência no namoro?#

A violência no namoro é mais comum do que muitos pais imaginam. Na pesquisa da Fiocruz, 86,9% dos estudantes que namoravam ou "ficavam" relataram ter sofrido e 86,8% ter praticado ao menos uma agressão no ano anterior, contando qualquer episódio, inclusive xingamento. A forma mais frequente foi a verbal, e a maioria (76,6%) era vítima e autora ao mesmo tempo. Quando se olha só para a violência física ou sexual, a OMS estima que mais de uma em cada cinco meninas de 15 a 19 anos que já tiveram parceiro passou por ela.

Os sinais que pedem atenção aparecem em dois lugares.

No jeito do namoro:

  • ciúme que vira controle: querer saber o tempo todo onde e com quem o outro está, mexer no celular, implicar com a roupa e com os amigos. Na pesquisa da Fiocruz, 51,5% disseram que o parceiro vigiava com quem e onde eles estavam, e os pesquisadores alertam que esse controle pode ser confundido com carinho ou proteção;
  • humilhar, xingar, ridicularizar na frente dos outros, culpar por tudo ou ameaçar terminar para conseguir o que quer;
  • pressionar por relação sexual ou por fotos íntimas, ou ameaçar divulgar imagens;
  • empurrões, tapas e outras agressões físicas;
  • seguir e vigiar mesmo depois do término.

No comportamento do adolescente:

  • mudança súbita e sem explicação, isolamento, dificuldade para dormir e autoestima muito baixa, sinais que o guia do Ministério da Saúde lista para os profissionais;
  • choro frequente e queda no rendimento escolar, citados pela SBP.

A SBP faz uma ressalva importante: esses sinais não são específicos e podem aparecer sem violência. Eles pedem conversa, não conclusão apressada. O texto sobre como reconhecer um relacionamento abusivo detalha o controle, o isolamento e as ameaças que a lei considera violência psicológica.

O que fazer se desconfiar?#

  • Converse a sós, acredite no que ouvir e não culpe o filho. O guia do Ministério da Saúde orienta os profissionais a encarar o relato de violência de um adolescente com respeito e seriedade, sem ceticismo nem minimização. Vale o mesmo para a família.
  • Procure ajuda. A UBS costuma ser a primeira porta de entrada, e o guia do Ministério observa que muitas vezes é a família quem procura primeiro. O Conselho Tutelar e o Disque 100, que funciona 24 horas, de graça, também pelo WhatsApp (61) 99611-0100, recebem denúncias de violência contra crianças e adolescentes. Em perigo imediato, ligue 190.

O que o adolescente pode resolver sozinho na UBS?#

Pode ser atendido sem os pais. A Caderneta diz ao adolescente: "Nas consultas, você tem direito de ser atendida sozinha, caso você queira, independentemente da presença de seus pais ou responsáveis". O Ministério da Saúde descreve uma consulta com dois momentos, um com a família e outro só com o adolescente. Para a SBP, o momento a sós é o mais importante, porque é quando o jovem fala com mais liberdade.

Adolescente de moletom bege, sentado num sofá cinza, fala gesticulando com uma profissional de óculos que segura uma prancheta, numa sala com estante, plantas e uma mesa de centro branca
O momento a sós com o profissional é, para a Sociedade Brasileira de Pediatria, o mais importante da consulta do adolescente. · Foto: Unsplash

O que fica em sigilo e o que chega aos pais? A SBP organizou um quadro para os pediatras:

Fica em sigiloA família é informada
Ficar, namoro e início da vida sexual, desde que sem violênciaQualquer tipo de violência, inclusive no namoro
Receita de contraceptivo, para quem tem maturidade para usarGravidez
Infecção sexualmente transmissível, se não houve violência e o adolescente consegue seguir o tratamentoPensamentos de suicídio, automutilação e doenças graves

Mesmo quando o sigilo precisa ser rompido, a SBP orienta que nada seja tratado com os pais sem que o adolescente seja avisado antes. O Código de Ética Médica proíbe o médico de revelar aos pais o que sabe de um paciente adolescente com capacidade de discernimento, salvo quando o silêncio puder causar dano a ele.

Na UBS, o adolescente também recebe preservativo, e o Ministério da Saúde orienta a entrega sem exigir documento. A Caderneta recomenda a dupla proteção: camisinha junto com outro método contraceptivo, porque, como lembra o guia do Ministério, só o preservativo protege contra as infecções sexualmente transmissíveis. Os métodos gratuitos e o caminho para pedir cada um estão no texto sobre métodos contraceptivos gratuitos no SUS. Pela SBP, o adolescente também tem direito a teste rápido de gravidez, HIV e sífilis; antes dos 12 anos, o de HIV é feito com os pais presentes. A Caderneta traz ainda o calendário de vacinas da adolescência, que inclui a vacina contra o HPV.

Quando procurar atendimento#

  • Depois de violência sexual, no mesmo dia: a Caderneta orienta procurar um serviço de saúde imediatamente. Segundo o Ministério da Saúde, a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis deve começar em até 72 horas, e a Lei do Minuto Seguinte garante esse atendimento de graça e com sigilo. Em perigo imediato, ligue 190.
  • Se o adolescente falar em morte ou em se machucar: procure ajuda no mesmo dia. O CVV atende pelo 188, de graça, 24 horas; em perigo imediato, procure o SAMU 192, uma UPA ou um pronto-socorro, segundo o Ministério da Saúde, que orienta não deixar a pessoa sozinha.
  • Se houver suspeita de gravidez: a Caderneta orienta ir à unidade de saúde fazer o teste e, se der positivo, não demorar a contar para a família ou para um adulto de confiança.
  • Se a tristeza durar: o Ministério da Saúde chama atenção para mudanças de comportamento que persistem por pelo menos duas semanas e para o isolamento. Se isso acontecer depois de uma briga ou de um término, procure a UBS ou o CAPS. O texto sobre sinais de depressão ajuda a separar tristeza de doença.

Este texto é informativo e não substitui o atendimento de profissionais de saúde nem o da rede de proteção à criança e ao adolescente.

Perguntas frequentes

Com que idade o adolescente pode namorar?

As fontes oficiais consultadas não fixam uma idade para começar a namorar. A Caderneta de Saúde do Adolescente, do Ministério da Saúde, trata o ficar e o namoro como parte da adolescência e diz que a primeira relação sexual só deve acontecer quando o jovem se sentir preparado, sem ceder à pressão dos outros. A lei fixa um limite: segundo a Súmula 593 do Superior Tribunal de Justiça, citada pelo guia do Ministério da Saúde, relação sexual com menor de 14 anos é crime, mesmo com consentimento ou namoro.

Devo proibir o namoro do meu filho adolescente?

O guia Proteger e cuidar da saúde de adolescentes, do Ministério da Saúde, associa o estilo autoritário, com limites rígidos, punição e pouca conversa, a adolescentes com mais dificuldade de decidir sozinhos e de se comunicar. O estilo que combina limites com diálogo e negociação aparece ligado a jovens mais responsáveis e autoconfiantes. Numa pesquisa da Fiocruz em dez capitais, adolescentes contaram que escondem os problemas do namoro quando os pais recriminam antes de ouvir.

Adolescente pode ir ao posto de saúde sem os pais?

Pode. O guia Proteger e cuidar da saúde de adolescentes, do Ministério da Saúde, diz que o adolescente que procura a Unidade Básica de Saúde sem os pais tem o direito de ser atendido sozinho, e que a equipe pode negociar com ele a presença da família quando for o caso. A Caderneta de Saúde do Adolescente informa que o que ele conta na consulta fica em sigilo e só é revelado com a concordância dele ou quando há risco à saúde dele ou de outras pessoas.

O médico conta para os pais o que o adolescente falou na consulta?

Depende do assunto. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, namoro, início da vida sexual sem violência e receita de contraceptivo ficam em sigilo, enquanto violência, gravidez, risco de suicídio e doenças graves são comunicados à família, com o adolescente avisado antes. O Código de Ética Médica proíbe o médico de revelar aos pais o que sabe de um paciente adolescente com capacidade de discernimento, salvo quando o silêncio puder causar dano a ele.

Onde denunciar violência no namoro de um adolescente?

No Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, que recebe denúncias de violência contra crianças e adolescentes 24 horas por dia, de graça, por telefone ou pelo WhatsApp (61) 99611-0100. O Conselho Tutelar e a Unidade Básica de Saúde também acolhem e encaminham. Em perigo imediato, ligue 190. Depois de violência sexual, a Caderneta de Saúde do Adolescente orienta procurar um serviço de saúde imediatamente.

Fontes consultadas

  1. 1.Proteger e cuidar da saúde de adolescentes na atenção básica (2ª edição, 2018) — Ministério da Saúde
  2. 2.Caderneta de Saúde da Adolescente (4ª edição, 1ª reimpressão, 2024): direitos e Conhecer, ficar, namorar — Ministério da Saúde
  3. 3.Consulta do adolescente: abordagem clínica, orientações éticas e legais como instrumentos ao pediatra (Manual de Orientação nº 10, 2019) — Sociedade Brasileira de Pediatria
  4. 4.Amor e violência: um paradoxo das relações de namoro e do ficar entre jovens brasileiros (Minayo, Assis e Njaine, 2011) — Editora Fiocruz, repositório Arca
  5. 5.Violence against women (fact sheet, 18 de junho de 2026) — Organização Mundial da Saúde (OMS)
  6. 6.Efficacy of interventions to prevent physical and sexual dating violence among adolescents (Piolanti e Foran, revisão sistemática, 2022) — JAMA Pediatrics, via PubMed Central
Assuntosnamoro na adolescênciaviolência no namoroconsentimentoCaderneta do Adolescentesaúde do adolescente