Infecção Urinária: Sintomas, Causas, Tratamento e Quando Pode Ser Grave
Mais da metade das mulheres terá ao menos uma infecção urinária na vida. Ardência ao urinar com vontade frequente e sem corrimento indica infecção urinária em mais de 90% dos casos; febre e dor nas costas apontam para os rins. Veja tratamento, prevenção e sinais de alerta.
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Ardência ao fazer xixi, vontade de ir ao banheiro a toda hora e a sensação de que a bexiga nunca esvazia: quem já teve cistite reconhece o quadro. Segundo o consenso publicado em 2020 por quatro sociedades médicas brasileiras (de infectologia, de ginecologia e obstetrícia, de urologia e de patologia clínica), a infecção urinária atinge mais de 10% das mulheres a cada ano, e mais da metade delas terá pelo menos um episódio com sintomas ao longo da vida.
É comum, mas não é para ser tratada no improviso. Este texto mostra como reconhecer a cistite, o que ela tem a ver com os rins, o que o tratamento envolve e quais medidas de prevenção têm evidência.
O que é infecção urinária e por que é mais comum nas mulheres?#
Infecção urinária é a entrada e a multiplicação de microrganismos, quase sempre bactérias, no trato urinário. Quando fica na bexiga, chama-se cistite (infecção baixa). Quando sobe até os rins, chama-se pielonefrite (infecção alta), que é mais grave.
A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) explica a diferença entre os sexos pela anatomia: a mulher tem a uretra mais curta e mais próxima do ânus. Por isso a maioria das infecções vem de bactérias do próprio intestino. O consenso brasileiro informa que mais de 80% delas são causadas pela Escherichia coli, e, em um levantamento citado no documento, cerca de três quartos das cistites no Brasil tinham essa bactéria como causa.
Entre os fatores que aumentam o risco de repetição, o consenso lista, para mulheres jovens, relações sexuais, uso de espermicida, parceiro sexual novo, mãe com histórico de infecção urinária e infecções na infância. Depois da menopausa, pesam a incontinência urinária, o ressecamento vaginal pela falta de estrogênio, a bexiga caída (cistocele) e a urina que sobra na bexiga após urinar.
Quais são os sintomas?#
O protocolo de Saúde das Mulheres do Ministério da Saúde lista como sintomas de infecção urinária:
- dor ou ardência ao urinar;
- dor acima do púbis, no "pé da barriga";
- urgência para urinar;
- aumento da frequência de micções;
- acordar à noite para urinar;
- urina saindo em gotas, com dor e esforço;
- sangue visível na urina.
O consenso brasileiro traz um dado útil: em mulheres com ardência e aumento da frequência sem corrimento ou irritação vaginal, a probabilidade de infecção urinária passa de 90%. O corrimento, ao contrário, diminui essa probabilidade e sugere outra causa, como candidíase, outras infecções vaginais ou infecções sexualmente transmissíveis. Nesses casos, o caminho é a avaliação ginecológica; o texto sobre saúde ginecológica mostra os exames e quando procurar.
Cistite ou infecção nos rins? Como diferenciar#
Esta é a pergunta que define a urgência. O protocolo do Ministério da Saúde separa a infecção sem complicação da infecção complicada pelos chamados sintomas sistêmicos:
| Sinal | Cistite (bexiga) | Pode ser pielonefrite (rins) |
|---|---|---|
| Ardência, urgência, vontade frequente | Sim | Pode estar presente |
| Febre e calafrios | Não | Sim |
| Náuseas e vômitos | Não | Sim |
| Dor nas costas, na região lombar ou nos flancos | Não | Sim |
| Coração acelerado | Não | Sim |
| Onde tratar | Atenção básica, com antibiótico prescrito | Avaliação médica; às vezes internação |
O protocolo também classifica como complicada a infecção que surge depois de tratamento recente, que se repete, que não respondeu ao antibiótico ou que acontece em idosas frágeis, mulheres imunossuprimidas, com várias doenças ou que usam sonda. E orienta: se os sintomas persistirem depois de 48 a 72 horas de tratamento, a mulher precisa ser reavaliada.

Precisa de exame?#
Nem sempre. O consenso da SBI, FEBRASGO, SBU e SBPC/ML afirma que, na mulher com sintomas típicos de cistite, o diagnóstico é clínico, e a fita de urina não é necessária. A urocultura (cultura de urina, que identifica a bactéria e o antibiótico que funciona contra ela) é indicada para:
- gestantes;
- suspeita de pielonefrite;
- infecção de repetição;
- sintomas atípicos;
- falta de melhora após 48 horas de tratamento;
- volta da infecção em até quatro semanas.
Se os sintomas sumirem com o tratamento, não é preciso repetir o exame, exceto na gravidez. Na coleta, o consenso recomenda usar, se possível, a primeira urina do dia, ou segurar a urina por pelo menos duas horas antes. Beber muita água para conseguir urinar no laboratório não é recomendado, porque dilui a amostra e pode dar resultado falso negativo.
Outro ponto pouco conhecido: bactéria na urina sem sintomas, em geral, não se trata. O consenso afirma que, fora da gravidez e de algumas situações específicas, o antibiótico não traz benefício nesses casos e aumenta o risco de resistência.
Como é o tratamento?#
A cistite é tratada com antibiótico prescrito por um profissional. O consenso brasileiro de 2020 indica como primeira linha a fosfomicina, em dose única, e a nitrofurantoína, por cinco dias, e como segunda linha a cefuroxima ou a amoxicilina com clavulanato. O protocolo do Ministério da Saúde, de 2016, inclui ainda o sulfametoxazol com trimetoprima entre as opções de primeira linha, mas o consenso mais recente registra taxas altas de resistência a esse remédio no Brasil.
Os dois documentos concordam em um ponto: as quinolonas (como ciprofloxacino e norfloxacino) não devem ser a escolha para a cistite simples. O consenso diz que elas não devem ser usadas nesse caso; o protocolo do Ministério as reserva para quando há resistência aos remédios de primeira linha.
A dose e o tempo são definidos pelo profissional. Tomar a sobra de um antibiótico antigo ou o que funcionou para outra pessoa atrapalha o diagnóstico e favorece bactérias resistentes. Durante a crise, a SBU sugere evitar bebidas e alimentos que irritam a bexiga, como café, chá, álcool, frutas cítricas e pimenta.
Infecção urinária de repetição#
O consenso define infecção de repetição como três episódios em um ano ou dois em seis meses. Depois de uma primeira infecção, 24% das mulheres jovens têm outra em até seis meses, e de 2% a 5% passam a ter infecções de repetição. Nesses casos, cada episódio deve ser confirmado com urocultura, e vale investigar fatores de risco: o consenso cita, por exemplo, trocar o método contraceptivo quando ele envolve espermicida, assunto do guia de métodos contraceptivos.
Para mulheres na pós-menopausa, o consenso afirma que o estrogênio vaginal (não o oral) reduz o risco de novas infecções. O texto sobre menopausa explica as opções de tratamento hormonal local. Há ainda esquemas de antibiótico preventivo, contínuos ou depois da relação sexual, sempre com indicação médica.
O que ajuda a prevenir, e com que evidência#
Água. A SBU recomenda beber ao menos dois litros de água por dia e não segurar a urina por muito tempo. O melhor dado vem de um ensaio clínico publicado em 2018 no JAMA Internal Medicine: 140 mulheres antes da menopausa, com três ou mais cistites no ano anterior e que bebiam menos de 1,5 litro de líquido por dia, foram sorteadas para acrescentar 1,5 litro de água à rotina ou manter os hábitos. Em 12 meses, quem bebeu mais água teve em média 1,7 episódio, contra 3,2, e usou quase metade dos tratamentos com antibiótico. A ressalva: o estudo foi financiado por uma empresa de águas, e parte dos autores trabalhava para ela. Para estimar a sua necessidade, veja quanto beber de água por dia e a calculadora de ingestão de água.
Hábitos. O consenso lista medidas de baixo risco: limpar de frente para trás depois de evacuar, urinar depois da relação sexual, não adiar a ida ao banheiro, evitar duchas vaginais e roupas muito justas. O próprio documento admite que elas não mostraram redução de risco em estudos bem desenhados, mas as considera razoáveis. A SBU acrescenta que o excesso de limpeza, com desodorantes íntimos e produtos irritantes, pode favorecer a infecção, e que calcinha de algodão mantém a região mais seca.
Cranberry. As fontes divergem. A revisão Cochrane atualizada em 2023, com 50 estudos e 8.857 participantes, concluiu, com certeza moderada, que produtos de cranberry provavelmente reduzem o risco de infecção com sintomas em mulheres com infecções de repetição, em crianças e em pessoas submetidas a procedimentos, mas não encontrou benefício em idosos de instituições, gestantes e pessoas com dificuldade de esvaziar a bexiga. O consenso brasileiro, anterior a essa atualização, não recomenda o uso de forma enfática, e a SBU fala em falta de consenso. Não há dose ou apresentação definida, e o cranberry não trata uma infecção em curso.
Na gravidez e na infância#
Na gravidez, o protocolo do Ministério da Saúde lembra que urinar mais vezes é comum, porque o útero comprime a bexiga, e por isso a dor ao urinar é o sintoma que mais pesa. A gestante com bactéria na urina deve ser tratada mesmo sem sintomas: o consenso afirma que, sem tratamento, essa condição leva à pielonefrite em até 40% das gestações, contra 3% com tratamento. A urocultura entra no início do pré-natal e no começo do terceiro trimestre.
Em crianças, um folheto da SBU de 2024 estima que cerca de 8% terão ao menos uma infecção urinária na infância e alerta que ela pode se manifestar só com febre ou recusa alimentar, com risco de evoluir rápido. Toda infecção urinária em criança deve ser avaliada e investigada pelo pediatra.
Quando procurar atendimento#
Procure a unidade de saúde para avaliação e prescrição se tiver ardência ao urinar, vontade frequente ou dor no pé da barriga. Volte se não houver melhora em 48 a 72 horas de tratamento ou se a infecção voltar em poucas semanas.
Procure atendimento no mesmo dia, ou um serviço de urgência, se os sintomas urinários vierem com qualquer um destes sinais do protocolo do Ministério da Saúde:
- febre ou calafrios;
- náuseas ou vômitos;
- dor nas costas, na região lombar ou nos lados da barriga;
- coração acelerado;
- piora importante do estado geral.
Também devem procurar avaliação sem esperar: gestantes com qualquer sintoma urinário, crianças com febre sem causa aparente, idosas frágeis e pessoas imunossuprimidas ou que usam sonda.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. O diagnóstico da infecção urinária e a escolha do antibiótico cabem ao profissional de saúde que atende você.
Perguntas frequentes
Quais são os sintomas de infecção urinária?
O protocolo de Saúde das Mulheres do Ministério da Saúde lista dor ao urinar, dor acima do púbis, urgência para urinar, aumento da frequência, acordar à noite para urinar, eliminação de urina em gotas e com esforço e sangue visível na urina. Segundo o consenso de quatro sociedades médicas brasileiras, ardência e vontade frequente sem corrimento vaginal indicam infecção em mais de 90% dos casos.
Infecção urinária passa sozinha?
Não conte com isso. O protocolo do Ministério da Saúde e o consenso da SBI, FEBRASGO, SBU e SBPC/ML preveem tratamento com antibiótico, escolhido pelo profissional, para a cistite com sintomas. Se aparecerem febre, calafrios, vômitos ou dor nas costas, que o protocolo do Ministério trata como sinais de infecção complicada, possivelmente nos rins, a avaliação médica deve ser no mesmo dia.
Qual é o antibiótico para infecção urinária?
A escolha é do profissional. O consenso brasileiro de 2020 indica como primeira linha a fosfomicina, em dose única, e a nitrofurantoína, por cinco dias, e desaconselha as quinolonas, como o ciprofloxacino, para a cistite não complicada, por causa da resistência bacteriana. Não use sobra de antibiótico nem receita de outra pessoa: isso favorece bactérias resistentes.
Precisa fazer exame de urina para tratar cistite?
Na cistite simples de uma mulher sem outros problemas, o consenso da SBI, FEBRASGO, SBU e SBPC/ML diz que o diagnóstico é clínico e a urocultura não é necessária. Ela é indicada para gestantes, suspeita de infecção nos rins, infecção de repetição, sintomas atípicos, ausência de melhora em 48 horas de tratamento e volta da infecção em até quatro semanas.
Cranberry previne infecção urinária?
Talvez ajude em alguns grupos. A revisão Cochrane de 2023, com 50 estudos e 8.857 participantes, concluiu que produtos de cranberry provavelmente reduzem o risco em mulheres com infecções de repetição, em crianças e após alguns procedimentos, mas não mostrou benefício em gestantes e idosos em instituições. O consenso brasileiro de 2020 não recomenda o uso de forma enfática. Não substitui o tratamento.
Beber água ajuda a prevenir infecção urinária?
Em um ensaio clínico publicado no JAMA Internal Medicine, mulheres com infecções de repetição que bebiam menos de 1,5 litro de líquido por dia e passaram a tomar mais 1,5 litro de água tiveram, em um ano, 1,7 episódio em média, contra 3,2 no grupo sem mudança. O estudo foi financiado por uma empresa de águas. A Sociedade Brasileira de Urologia recomenda ao menos dois litros de água por dia.
Infecção urinária na gravidez é perigosa?
Exige mais atenção. O consenso brasileiro afirma que a bactéria na urina sem sintomas, na gestante, sem tratamento, leva à infecção nos rins em até 40% das gestações, taxa que cai para 3% com tratamento. Por isso a urocultura faz parte do pré-natal no início e no terceiro trimestre, e toda gestante com bactéria na urina deve ser tratada.
Fontes consultadas
- 1.Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres – queixas urinárias (fluxograma 14) e pré-natal — Ministério da Saúde
- 2.Recomendações para o manejo clínico das infecções do trato urinário inferior em gestantes e não gestantes (SBI, FEBRASGO, SBU e SBPC/ML) — Brazilian Journal of Infectious Diseases (PubMed)
- 3.Como evitar a infecção urinária recorrente? — Sociedade Brasileira de Urologia – Portal da Urologia
- 4.Cranberries for preventing urinary tract infections (revisão Cochrane, 2023) — Cochrane Database of Systematic Reviews (PubMed)
- 5.Effect of Increased Daily Water Intake in Premenopausal Women With Recurrent Urinary Tract Infections: A Randomized Clinical Trial — JAMA Internal Medicine (PubMed)
- 6.Infecções urinárias em crianças (folheto da campanha Novembrinho, 2024) — Sociedade Brasileira de Urologia – Portal da Urologia


