Hipotireoidismo: Sintomas, Causas, Exames (TSH e T4 Livre) e Tratamento
O hipotireoidismo declarado atinge cerca de 1,5% das pessoas, e a forma subclínica é quase dez vezes mais comum. Veja os sintomas, as causas, como ler TSH e T4 livre, quem deve fazer o exame e como é o tratamento com levotiroxina.
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Cansaço que não passa, frio quando ninguém mais sente, intestino preso, pele seca, alguns quilos a mais. Os sintomas do hipotireoidismo são tão comuns que quase todo mundo se reconhece em pelo menos um, e é justamente aí que mora o problema. A diretriz de hipotireoidismo da Sociedade Latino-Americana de Tireoide, escrita com endocrinologistas brasileiros e publicada em 2013 nos Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, revista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), é direta: os médicos não podem confiar só no exame físico para confirmar ou descartar a doença. Quem decide é o exame de sangue, e um resultado isolado ainda precisa ser repetido.
O que é hipotireoidismo?#
A tireoide é a glândula em forma de borboleta na frente do pescoço, logo abaixo do pomo de adão. A SBEM explica que ela produz os hormônios T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina) e regula órgãos como coração, cérebro, fígado e rins. O hipotireoidismo é a queda nessa produção. Segundo a SBEM, é mais comum em mulheres, mas pode atingir qualquer pessoa, de qualquer idade, inclusive recém-nascidos.
A diretriz separa duas situações:
- Hipotireoidismo declarado (ou clínico): a falta de hormônio é clara. A prevalência relatada é de cerca de 1,5%.
- Hipotireoidismo subclínico: o TSH, o hormônio da hipófise que "comanda" a tireoide, está acima do limite, mas o T4 ainda está normal. É quase dez vezes mais frequente, com prevalência entre 6% e 20% conforme idade, sexo e população estudada, e raramente causa sintomas.
Quais são os sintomas?#
A SBEM lista entre os sintomas: depressão, batimentos cardíacos mais lentos, intestino preso, menstruação irregular, falhas de memória, cansaço excessivo, dores musculares e nas articulações, sonolência, pele seca, queda de cabelo, ganho de peso e aumento do colesterol no sangue.
O que a diretriz acrescenta é uma noção de peso. Em uma tabela de sintomas, os que mais aumentam a suspeita são, em ordem: voz mais grave, voz rouca, olhos inchados, intestino preso, intolerância ao frio e memória fraca. Mesmo assim, nenhum sinal fecha o diagnóstico sozinho. A combinação de batimentos lentos, reflexo lento no tornozelo e pele seca e descamativa eleva a chance de hipotireoidismo de 2% para apenas 5%. Nos idosos, os sinais são ainda mais vagos.
Muitos desses sintomas têm outras explicações, como anemia, depressão ou prisão de ventre por pouca fibra na alimentação. Por isso o caminho é o exame, e não a lista.
Quais são as causas?#
Em adultos, a causa mais frequente é a tireoidite de Hashimoto, uma doença autoimune em que o próprio organismo ataca a tireoide. A SBEM e a diretriz concordam nesse ponto. A diretriz cita outras causas:
- tratamento do hipertireoidismo com cirurgia, iodo radioativo ou remédios antitireoidianos;
- tireoidites pós-parto, subaguda ou silenciosa, que podem causar hipotireoidismo permanente ou passageiro;
- radioterapia na região do pescoço;
- falta ou excesso de iodo;
- alguns medicamentos, como lítio, amiodarona, interferon-alfa e inibidores da tirosina-quinase;
- mais raramente, problemas na hipófise ou no hipotálamo, o chamado hipotireoidismo central.
No bebê. O hipotireoidismo congênito é procurado no teste do pezinho. O Protocolo Clínico do Hipotireoidismo Congênito, do Ministério da Saúde, registra no Brasil 1 caso a cada 2.595 a 4.795 nascidos vivos e orienta a coleta entre 48 horas de vida e o 5º dia. Sem tratamento, a doença pode causar alterações graves no desenvolvimento e incapacidade intelectual, e o prognóstico depende do tempo até o início do tratamento.
Como ler o TSH e o T4 livre?#
O TSH é o exame de primeira linha. A diretriz explica por quê: pequenas quedas do T4 livre provocam aumentos grandes do TSH, então ele denuncia o problema mais cedo. O T4 livre entra para classificar o quadro.
| Resultado | O que costuma indicar |
|---|---|
| TSH alto e T4 livre baixo | Hipotireoidismo declarado, com origem na tireoide |
| TSH alto e T4 livre normal | Hipotireoidismo subclínico, se não houver doença grave ou da hipófise interferindo |
| TSH normal ou baixo e T4 livre baixo | Suspeita de hipotireoidismo central: o protocolo do Ministério da Saúde indica encaminhar ao endocrinologista |
| TSH normal | Torna o diagnóstico muito improvável, salvo causa na hipófise ou no hipotálamo |
Três detalhes evitam sustos:
- Faixa de referência. A diretriz recomenda a faixa tradicional de 0,45 a 4,5 mU/L para a população geral e limites mais altos para idosos. Em pessoas sem anticorpos contra a tireoide, o limite superior chega a 6,3 mU/L acima dos 80 anos. Cada laboratório traz o seu intervalo no laudo.
- Repetição. Com TSH entre 4,5 e 10, a chance de o valor voltar ao normal sozinho é alta. A recomendação é repetir em 2 a 3 meses, já com o T4 livre.
- Anti-TPO. O anticorpo antitireoperoxidase ajuda a confirmar a causa autoimune. Se der positivo, não precisa ser repetido. A ultrassonografia da tireoide não é de rotina.
Exames feitos durante uma internação por doença grave são menos confiáveis, alerta a diretriz.
Quem deve fazer o exame?#
A diretriz não recomenda testar toda a população para achar hipotireoidismo subclínico, mas defende a busca ativa em grupos de risco:
- mulheres em idade fértil ou mais velhas, especialmente acima dos 60 anos;
- grávidas e mulheres que pretendem engravidar;
- quem já fez cirurgia, iodo radioativo ou radioterapia na tireoide, ou já teve disfunção tireoidiana;
- pessoas com diabetes tipo 1, síndrome de Sjögren, lúpus, artrite reumatoide ou vitiligo;
- pessoas com síndrome de Down ou síndrome de Turner;
- quem tem história familiar de doença da tireoide, bócio ou anti-TPO positivo;
- quem usa lítio, amiodarona ou interferon-alfa;
- quem tem colesterol alterado, anemia, insuficiência cardíaca ou prolactina alta.
Se você se encaixa em um desses grupos, vale levar o assunto ao check-up de rotina. O texto sobre exames preventivos por faixa etária mostra o que mais entra nessa conversa.
Como é o tratamento?#
O tratamento é a reposição do hormônio com levotiroxina, de uso diário. A diretriz a recomenda como a droga de escolha e não recomenda, de rotina, associar T3. A SBEM lembra que a dose é a prescrita pelo médico e que a levotiroxina não deve ser manipulada, pelo risco de erro de dose e de absorção. A dose é sempre do profissional: ela depende de idade, peso, causa e outras doenças, e é ajustada pelos exames.

Como tomar. A SBEM orienta tomar todos os dias em jejum, pelo menos meia hora antes do café da manhã, e deixar outros medicamentos para no mínimo uma hora depois. A diretriz aceita também tomar após pelo menos 2 horas sem comer e, como alternativa, à noite.
O que atrapalha a absorção. Segundo a diretriz, café expresso, proteína de soja e fibras, além de suplementos de ferro e de cálcio e remédios que reduzem a acidez do estômago. Gastrite crônica e infecção por Helicobacter pylori também podem diminuir a absorção, assunto do texto sobre gastrite.
Não troque de marca por conta própria. A diretriz sugere evitar mudanças de preparação ao longo do tratamento. Se a troca acontecer, TSH e T4 livre devem ser conferidos depois de 2 meses.
Acompanhamento. O TSH é dosado de 6 a 8 semanas após cada ajuste. Com o hormônio estável, o intervalo passa a 6 meses e depois a 1 ano, pela vida toda. Em estudos de acompanhamento, cerca de 30% das pessoas em tratamento tinham TSH fora da faixa, o que mostra por que o exame periódico importa.
E o subclínico? A diretriz recomenda tratar quando o TSH fica persistentemente acima de 10 mU/L. Entre 4,5 e 10, o tratamento é considerado em menores de 65 anos com risco cardiovascular aumentado. Acima dos 65 anos, com TSH abaixo de 10, o painel se posiciona contra o tratamento de rotina, e também não recomenda o hormônio só para baixar o colesterol.
Se os sintomas continuam. Com o TSH normal e o cansaço persistindo, a orientação é investigar outras causas, como anemia ou depressão. Aumentar a dose por conta dos sintomas não é recomendado.
Tratado direito, diz a SBEM, quem tem hipotireoidismo leva uma vida normal. Sem tratamento, há queda do desempenho físico e mental e aumento do colesterol, com mais risco para o coração.
E na gravidez?#
A necessidade de hormônio da tireoide aumenta já com 4 a 6 semanas de gestação e continua subindo até 16 a 20 semanas, segundo a diretriz. Por isso:
- quem já trata hipotireoidismo e planeja engravidar deve conversar com o médico antes; a diretriz recomenda ajustar o tratamento para manter o TSH abaixo de 2,5 mU/L;
- em grávidas com doença autoimune da tireoide, o TSH deve ser acompanhado a cada 4 semanas;
- grávidas com hipotireoidismo subclínico e anti-TPO positivo devem ser tratadas.
Avise a equipe do pré-natal assim que souber da gravidez. O ajuste da dose é feito por ela.
Quando procurar atendimento#
Marque consulta se:
- cansaço, intolerância ao frio, intestino preso, voz rouca, olhos inchados ou falhas de memória persistem sem explicação;
- você pertence a um dos grupos de risco listados acima;
- um exame mostrou TSH alterado: ele precisa ser repetido e interpretado com o T4 livre;
- você trata hipotireoidismo e engravidou ou pretende engravidar;
- o teste do pezinho do bebê veio alterado: o protocolo do Ministério da Saúde orienta que, quando o TSH passa de 20 mUI/L, a criança seja consultada e faça os exames confirmatórios com a maior brevidade possível.
Emergência. A forma mais grave é o coma mixedematoso, raro, com letalidade de 25% a 60%, segundo a diretriz. Ele se manifesta com temperatura do corpo muito baixa, respiração fraca, pressão instável e confusão mental ou sonolência profunda. Os gatilhos mais comuns são a interrupção do tratamento, infecções e exposição ao frio. Nesses casos, acione o Samu pelo 192.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. O diagnóstico e a dose do tratamento do hipotireoidismo são definidos pelo médico que acompanha você.
Perguntas frequentes
Quais são os primeiros sintomas de hipotireoidismo?
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) lista cansaço excessivo, intestino preso, pele seca, queda de cabelo, ganho de peso, falhas de memória, dores musculares, menstruação irregular, batimentos mais lentos, depressão e colesterol alto. Como esses sinais são comuns a muitas condições, a diretriz publicada nos Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia afirma que o diagnóstico não pode depender só do exame físico: é preciso dosar TSH e T4 livre.
Qual é o valor normal de TSH?
A diretriz de 2013 publicada nos Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia recomenda, para a população em geral, a faixa de 0,45 a 4,5 mU/L, com limites mais altos para idosos, porque o TSH sobe naturalmente com a idade. Cada laboratório tem seu próprio intervalo de referência, impresso no laudo, e um valor isolado fora da faixa deve ser repetido em 2 a 3 meses antes de fechar o diagnóstico.
TSH alto com T4 livre normal é hipotireoidismo?
Na maioria das vezes, é o chamado hipotireoidismo subclínico, desde que não haja doença da hipófise ou outra doença grave interferindo no exame. Segundo a diretriz publicada na revista da SBEM, ele é quase dez vezes mais frequente que a forma declarada, raramente dá sintomas e nem sempre precisa de remédio: o tratamento é recomendado quando o TSH fica persistentemente acima de 10 mU/L e avaliado caso a caso entre 4,5 e 10.
Hipotireoidismo tem cura?
Na maioria dos casos, a doença é controlada, e não curada: a diretriz da Sociedade Latino-Americana de Tireoide, publicada na revista da SBEM, prevê acompanhamento ao longo de toda a vida para conferir a dose e a adesão. A SBEM afirma que, usando a levotiroxina regularmente e mantendo o TSH na faixa normal, a pessoa pode levar uma vida saudável e completamente normal. Algumas tireoidites causam hipotireoidismo apenas passageiro.
Como tomar a levotiroxina corretamente?
A SBEM orienta tomar todos os dias, em jejum, pelo menos meia hora antes do café da manhã, e deixar outros remédios para no mínimo uma hora depois. A diretriz de 2013 acrescenta que café expresso, proteína de soja, fibras, suplementos de ferro e de cálcio e remédios para o estômago podem reduzir a absorção. A dose é sempre definida pelo médico, e a SBEM desaconselha usar levotiroxina manipulada.
Hipotireoidismo engorda?
O ganho de peso aparece na lista de sintomas da SBEM, ao lado de cansaço e intestino preso. A diretriz publicada nos Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, porém, lembra que os sintomas são inespecíficos: quem engordou e se sente cansado precisa do exame de TSH para saber se a tireoide tem algo a ver com isso. O objetivo do tratamento é normalizar o TSH, e a levotiroxina só deve ser usada com prescrição.
O que é o teste do pezinho para hipotireoidismo congênito?
É a triagem neonatal do SUS que mede o TSH numa gota de sangue em papel-filtro. O Protocolo Clínico do Hipotireoidismo Congênito, do Ministério da Saúde, orienta a coleta entre 48 horas de vida e o 5º dia e cita incidência de 1 caso a cada 2.595 a 4.795 nascidos vivos no Brasil. Sem tratamento precoce, a doença pode causar incapacidade intelectual grave.
Fontes consultadas
- 1.10 Coisas que Você Precisa Saber sobre Hipotireoidismo — Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)
- 2.Diretrizes clínicas práticas para o manejo do hipotiroidismo (Arq Bras Endocrinol Metab, 2013): diagnóstico, rastreamento, tratamento e gravidez — Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia (SBEM) / SciELO
- 3.Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Hipotireoidismo Congênito (Portaria Conjunta nº 5/2021) — Ministério da Saúde / Conitec
- 4.Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, v. 1: Endocrinologia e Nefrologia (2015) — Ministério da Saúde
- 5.10 Coisas que Você Precisa Saber sobre Tireoide — Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)


