Gastrite: Sintomas, Causas, Tratamento e o Que Comer
A gastrite é a inflamação do revestimento do estômago, e a bactéria H. pylori e o uso prolongado de anti-inflamatórios estão entre as causas principais. Em revisão Cochrane, tratar a bactéria reduziu os casos de câncer de estômago de 3,0% para 1,6%. Veja sintomas, tratamento e o que comer.
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"Estou com gastrite" virou jeito de dizer que o estômago queima. Mas gastrite é um diagnóstico com causa, e a causa muda o tratamento. A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde define a doença como uma inflamação do revestimento interno do estômago, que pode ser aguda, quando aparece de repente e dura pouco, ou crônica, quando se instala aos poucos e demora a ser controlada. O dado que muda a conversa vem de fora da cozinha: uma das causas principais é uma bactéria, a Helicobacter pylori, que muita gente carrega sem saber e que hoje se trata com antibiótico.
Quais são os sintomas de gastrite?#
Segundo o Ministério da Saúde, os sintomas mais comuns são:
- dor de estômago intensa;
- azia e indigestão;
- sensação de estufamento;
- perda de apetite;
- náusea e vômito;
- sangue nas fezes ou no vômito, sinal de gravidade.
Duas ressalvas. Primeiro, ter a bactéria não significa ter sintomas: o resumo da revisão Cochrane sobre H. pylori afirma que as pessoas geralmente não sabem que carregam a infecção. O consenso internacional de Kyoto, publicado em 2015 por especialistas de vários países, diz que a gastrite pela bactéria deve ser tratada como doença infecciosa mesmo quando não há sintomas. Segundo, os sintomas de estômago são inespecíficos. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) lembra que, nas fases iniciais, o câncer de estômago costuma dar sinais "muito parecidos com os de problemas comuns como gastrite ou úlcera". Queimação que não melhora precisa de avaliação, e não de mais um antiácido por conta própria.
Quais são as causas?#
A Biblioteca Virtual em Saúde lista cinco:
- uso prolongado de medicamentos como aspirina ou anti-inflamatórios;
- consumo de álcool;
- hábito de fumar;
- infecção pela bactéria Helicobacter pylori;
- gastrite autoimune, em que o sistema de defesa produz anticorpos que destroem células do próprio estômago.
A bactéria H. pylori#
A bactéria vive no revestimento do estômago. Segundo o resumo da revisão Cochrane, quem tem a infecção tem mais chance de desenvolver câncer de estômago, e por isso ela é classificada como cancerígena para humanos. A mesma revisão afirma que a infecção é tratável com um curso de antibióticos de uma semana.
O consenso de Kyoto recomenda oferecer o tratamento a quem tem a bactéria, salvo motivos em contrário, e diz que o benefício é maior quando a erradicação acontece antes de o estômago desenvolver atrofia. Também afirma que o resultado do tratamento deve sempre ser conferido, de preferência com um exame não invasivo, como o teste respiratório da ureia ou a pesquisa de antígeno nas fezes, porque a falha é comum.
E a queimação, melhora? O consenso diz que a bactéria é a causa da má digestão em parte das pessoas infectadas, e que eliminá-la é o tratamento de primeira linha para quem tem a infecção e esses sintomas, com resultado melhor que o placebo. Quando a erradicação dá certo e o desconforto desaparece de vez, a culpa era da bactéria. Quando os sintomas continuam mesmo com a bactéria eliminada, o quadro passa a ser considerado dispepsia funcional, um distúrbio da digestão sem lesão que o explique, e a investigação segue por outro caminho.
Anti-inflamatórios e aspirina#
O consenso de Kyoto registra que as erosões no estômago são causadas com mais frequência por aspirina e anti-inflamatórios do que pela bactéria, e que quem usa esses remédios e tem muitas erosões corre mais risco de desenvolver úlcera. Uma revisão Cochrane com 41 ensaios clínicos concluiu que alguns remédios, entre eles os inibidores da bomba de prótons, reduzem o risco de úlcera em quem precisa usar anti-inflamatório por muito tempo. Quem decide se e qual proteção usar é o médico, conforme o risco de cada pessoa.
Como é feito o diagnóstico?#
Segundo o Ministério da Saúde, o diagnóstico se baseia no exame físico e na história clínica, e o médico pode pedir raio-X, endoscopia e biópsia. O INCA descreve a endoscopia digestiva alta: com o paciente sedado, um tubo fino com uma câmera entra pela boca para mostrar o esôfago e o estômago, e, se houver alteração, o médico retira uma amostra para biópsia. O consenso de Kyoto explica que a avaliação precisa da gastrite exige biópsias de duas regiões do estômago, o antro e o corpo. Para saber se a bactéria está presente ou se foi eliminada, existem testes sem endoscopia, como o respiratório e o de fezes.
Como é o tratamento?#
O Ministério da Saúde resume: o tratamento "tem de levar em conta a sua causa" e, além dos remédios prescritos pelo médico, inclui mudanças na alimentação e no estilo de vida. Na prática:
- Se a causa é a H. pylori: antibióticos para eliminar a bactéria. O consenso de Kyoto recomenda que o esquema seja escolhido com base na resistência a antibióticos da região, e a revisão Cochrane estima o ganho. Em sete estudos com 8.323 participantes sem sintomas, seis deles na Ásia, desenvolveram câncer de estômago 1,6% dos tratados, contra 3,0% dos que receberam placebo ou nada. As mortes por câncer de estômago foram de 1,1% contra 1,9%. Os autores avaliam a certeza da evidência como moderada e alertam que os resultados não podem necessariamente ser estendidos a outras populações.
- Se a causa é o anti-inflamatório: o médico revisa a necessidade do remédio e avalia proteger o estômago.
- Em qualquer caso: sem automedicação. Antibiótico guardado em casa, remédio de vizinho e protetor gástrico tomado por anos sem acompanhamento não são tratamento.
Um detalhe para quem toma hormônio da tireoide: a diretriz de hipotireoidismo publicada na revista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia cita a gastrite crônica e a infecção por H. pylori entre as condições que podem reduzir a absorção da levotiroxina. Se você trata hipotireoidismo e o exame não se ajusta, conte ao médico que tem gastrite.
O que comer (e o que evitar) com gastrite?#
As orientações da Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde são estas:
| Faça | Evite |
|---|---|
| Respeite os horários das refeições | Analgésicos por conta própria |
| Faça pequenas refeições ao longo do dia, em vez de uma grande depois de muitas horas em jejum | Café, chá mate e chocolate |
| Mastigue bem: "a digestão começa na boca" | Refrigerantes e bebidas alcoólicas |
| Prefira frutas menos ácidas, verduras e carnes magras | Frituras e excesso de gordura |
| Reserve tempo para refeições tranquilas | Enlatados, embutidos e sal em excesso |
| Pimenta-do-reino | |
| Leite e derivados |

Dois cuidados ao ler a tabela. O primeiro: a lista inclui leite e derivados, o que contraria o costume de tomar leite para "acalmar" o estômago. Se o leite também provoca gases e diarreia, o problema pode ser outro, e o texto sobre intolerância à lactose explica como diferenciar. O segundo: essas medidas aliviam os sintomas, mas não eliminam a bactéria nem substituem o tratamento da causa. Nenhum dos documentos consultados aponta alimento ou chá que cure gastrite. Antes de recorrer a fitoterápicos, veja o que a Anvisa e o Ministério da Saúde dizem sobre plantas medicinais e os riscos de usá-las por conta própria.
O INCA acrescenta uma razão de longo prazo para cuidar do prato: o consumo excessivo de sal, de alimentos salgados ou conservados no sal, o álcool, o cigarro e o excesso de gordura corporal estão entre os fatores que aumentam o risco de câncer de estômago. O texto sobre quanto sal consumir por dia ajuda a reduzir a primeira parte, e o guia para parar de fumar cuida da outra.
Gastrite pode virar câncer?#
A maioria das gastrites não vira câncer, e o INCA lembra que, na maioria das vezes, os sintomas de estômago não são causados por câncer. Mas algumas condições aumentam o risco: o INCA cita a infecção por H. pylori, a gastrite atrófica, a metaplasia intestinal e a anemia perniciosa, que pode acompanhar a gastrite autoimune. O consenso de Kyoto acrescenta que o risco acompanha a gravidade e a extensão da gastrite atrófica, e que pessoas com essas alterações podem precisar de endoscopias de controle mesmo depois de eliminar a bactéria.
O INCA estima 22.530 casos novos de câncer de estômago por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Não há rastreamento recomendado para a população geral; o que funciona é investigar cedo os sintomas que não passam.
Quando procurar atendimento#
Marque consulta se tiver:
- azia, má digestão ou sensação de estômago cheio depois de comer pouco, como orienta o Ministério da Saúde;
- perda de peso sem motivo aparente, falta de apetite ou cansaço frequente;
- náuseas e vômitos que se repetem;
- dor na parte de cima da barriga que não melhora em alguns dias, sinal que o INCA pede para investigar;
- necessidade de usar anti-inflamatório ou aspirina por muito tempo.
Vá ao pronto-socorro ou ligue para o Samu (192) se houver vômito com sangue ou fezes escuras, pastosas e com cheiro forte. Segundo o INCA, esses sinais podem indicar sangramento no estômago.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. O diagnóstico e o tratamento da gastrite são definidos pelo médico que acompanha você.
Perguntas frequentes
Quais são os sintomas de gastrite?
A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde lista dor de estômago intensa, azia, indigestão, sensação de estufamento, perda de apetite, náusea e vômito e, nos casos mais sérios, sangue nas fezes ou no vômito. Muita gente com a bactéria Helicobacter pylori não sente nada: o resumo da revisão Cochrane sobre o tema diz que as pessoas geralmente não sabem que carregam a infecção.
O que causa gastrite?
Segundo a Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde, as causas são o uso prolongado de aspirina e outros anti-inflamatórios, o consumo de álcool, o hábito de fumar, a infecção pela bactéria Helicobacter pylori e a gastrite autoimune, em que o sistema de defesa ataca as células do próprio estômago. Estresse e comida apimentada não aparecem como causas nessa lista; café e pimenta-do-reino aparecem entre os itens a evitar para aliviar os sintomas.
Gastrite tem cura?
Depende da causa. A gastrite por Helicobacter pylori é tratada com antibióticos para eliminar a bactéria, e o consenso internacional de Kyoto recomenda sempre confirmar depois, de preferência com exame não invasivo, se o tratamento deu certo. Na gastrite ligada a anti-inflamatórios, o médico revisa o uso do remédio. O Ministério da Saúde lembra que mudar a alimentação e o estilo de vida ajuda a controlar os sintomas.
O que comer quando se tem gastrite?
A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde orienta respeitar os horários das refeições, comer porções pequenas ao longo do dia em vez de uma grande refeição após muitas horas em jejum, mastigar bem e preferir frutas menos ácidas, verduras e carnes magras. A lista do que evitar inclui café, chá mate, chocolate, refrigerantes, frituras, embutidos, enlatados, bebidas alcoólicas, pimenta-do-reino, excesso de sal e de gordura e leite e derivados.
Leite ajuda a aliviar a gastrite?
Não é o que diz o Ministério da Saúde. A Dica em Saúde sobre gastrite, da Biblioteca Virtual em Saúde, inclui leite e derivados na lista de alimentos a evitar, ao lado de café, refrigerantes e frituras. A orientação vale para o alívio dos sintomas; quem tiver dúvida sobre como manter cálcio e proteína na dieta deve conversar com um nutricionista.
Gastrite pode virar câncer?
A maioria não vira, mas algumas formas aumentam o risco. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) inclui entre os fatores de risco do câncer de estômago a infecção por Helicobacter pylori, a gastrite atrófica, a metaplasia intestinal e a anemia perniciosa. Na revisão Cochrane de 2020, tratar a bactéria em pessoas sem sintomas reduziu os casos de câncer de estômago de 3,0% para 1,6%, em estudos feitos na maioria na Ásia.
Quando a dor de estômago é emergência?
Vômito com sangue ou fezes escuras, pastosas e com cheiro forte podem indicar sangramento no estômago, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), e pedem atendimento imediato. A Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde também cita sangue nas fezes e no vômito entre os sintomas da gastrite. Nesses casos, procure um pronto-socorro ou ligue para o Samu, no 192.
Fontes consultadas
- 1.Gastrite (Dicas em Saúde): causas, sintomas, diagnóstico, tratamento e prevenção — Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde
- 2.Câncer de estômago, versão para a população: fatores de risco, prevenção, sinais e sintomas e diagnóstico — Instituto Nacional de Câncer (INCA)
- 3.Kyoto global consensus report on Helicobacter pylori gastritis (Gut, 2015) — PubMed Central
- 4.Helicobacter pylori treatment for the prevention of stomach cancer (Ford et al., 2020) — Cochrane
- 5.Medications to prevent NSAID-induced gastroduodenal ulcers (Rostom et al.) — Cochrane
- 6.Diretrizes clínicas práticas para o manejo do hipotiroidismo (Arq Bras Endocrinol Metab, 2013): gastrite e absorção da levotiroxina — Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia (SBEM) / SciELO


