Pré-natal no SUS: Quantas Consultas, Quais Exames e o Que Não Está na Rotina
O Ministério da Saúde recomenda no mínimo sete consultas de pré-natal, mais uma odontológica e duas no pós-parto. Veja a lista completa de exames por trimestre, as vacinas indicadas e por que o ultrassom morfológico não está garantido no SUS.
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Se você procurar hoje quantas consultas de pré-natal são necessárias, vai encontrar o número seis repetido em dezenas de páginas. Ele está desatualizado. A Caderneta Brasileira da Gestante, publicada pelo Ministério da Saúde, recomenda no mínimo sete consultas de pré-natal, "intercaladas entre médica(o) e enfermeira(o)", além de no mínimo uma consulta odontológica e, depois do parto, no mínimo duas consultas puerperais (veja o que muda no corpo e os sinais de alerta em pós-parto e puerpério).
A frase que a Caderneta usa para fechar esse trecho vale mais que o número: "Não existe alta do pré-natal."
Para o que fazer nos três primeiros meses, veja primeiro trimestre de gravidez: cuidados e exames. Se ainda está na fase de suspeita, o texto sobre sintomas de gravidez e quando fazer o teste explica o que é sinal e o que é confirmação. Para saber em que semana você está e qual é a data provável do parto, use a calculadora de idade gestacional, que calcula pela data da última menstruação ou pelo laudo do ultrassom.
Quando começar#
O quanto antes, "de preferência até a 12ª semana de gestação (nos primeiros 3 meses)". Não é formalidade. É nessa janela que a ultrassonografia estima a data do parto com mais precisão, que a sífilis e o HIV são detectados a tempo de tratar antes da transmissão para o bebê, e que dá para descobrir uma gravidez fora do útero antes que ela vire emergência.
O calendário mínimo#
| Fase da gestação | Frequência |
|---|---|
| Até 28 semanas | Consultas mensais |
| Da 28ª à 36ª semana | Consultas quinzenais |
| A partir da 36ª semana | Consultas semanais |
| Após o parto | No mínimo duas consultas puerperais |
Esse é o piso, não o teto. Doenças pré-existentes como hipertensão ou diabetes, histórico de parto prematuro ou pré-eclâmpsia, gestação de mais de um bebê, uso de medicamento contínuo e situações de vulnerabilidade social são motivos para acompanhamento mais frequente — e, dependendo do caso, para o pré-natal de alto risco, compartilhado com serviço especializado.
A lista completa de exames#
Esta é a parte que quase ninguém publica inteira, e é justamente a que serve para conferir se está faltando alguma coisa no seu pedido.
Primeiro trimestre ou primeira consulta#
- Teste rápido de gravidez
- Hemograma (hemoglobina e hematócrito)
- Tipagem sanguínea (ABO e fator Rh) e teste de Coombs indireto, para gestantes Rh negativo
- Eletroforese de hemoglobina
- Glicemia em jejum — ou o teste de tolerância à glicose com 75 g, se a gestação já passou de 24 semanas
- Teste rápido para sífilis ou VDRL/RPR
- Teste rápido para HIV ou anti-HIV I e II
- Teste rápido para hepatite B ou HBsAg
- Teste rápido para hepatite C ou anti-HCV
- Sorologia para toxoplasmose (IgG e IgM)
- Teste para HTLV
- Urina tipo I e urocultura com antibiograma
- Teste para doença de Chagas, em casos suspeitos
- Teste para malária, em regiões endêmicas
- Ultrassonografia obstétrica, idealmente entre 7 e 12 semanas
Dois itens dessa lista costumam surpreender. A eletroforese de hemoglobina busca a doença e o traço falciforme, condição hereditária que, segundo a Caderneta, é mais prevalente em mulheres negras e exige rastreamento ativo. E o HTLV é um vírus pouco conhecido do público que, segundo o Ministério da Saúde, passa da mãe para o filho principalmente pela amamentação; por isso, quem tem o vírus é orientada a não amamentar, com fórmula infantil oferecida pelo SUS.
Segundo trimestre#
O que muda no corpo, as queixas comuns e os sinais de alerta dessa fase estão no texto sobre o segundo trimestre de gravidez.
- Teste oral de tolerância à glicose com 75 g, preferencialmente entre 24 e 28 semanas
- Coombs indireto, para gestantes Rh negativo com resultado negativo no primeiro trimestre
- Teste para toxoplasmose, se o IgG não foi reagente — ou seja, se você é suscetível
- Teste para malária, em regiões endêmicas
Terceiro trimestre#
Sintomas, consultas mais frequentes e preparação para o parto dessa fase estão no texto sobre o terceiro trimestre de gravidez. Os sinais de que o parto começou estão em quando ir à maternidade.
- Hemograma
- Glicemia em jejum
- Coombs indireto, para gestantes Rh negativo
- Teste rápido para sífilis e/ou VDRL/RPR
- Teste rápido para HIV
- Teste para toxoplasmose, se suscetível
- Urina tipo I e urocultura
- Teste para malária, em regiões endêmicas
Repare que sífilis e HIV são repetidos no terceiro trimestre e novamente no parto. Não é excesso de zelo: é a estratégia para pegar infecção adquirida no meio da gestação, quando ainda há tempo de tratar e evitar a transmissão para o bebê.
O ultrassom: onde a expectativa não bate com a rotina#
Aqui está a maior distância entre o que se espera do pré-natal e o que a rotina oficial garante.
A rotina da Caderneta prevê uma ultrassonografia obstétrica, idealmente entre 7 e 12 semanas. Os dois exames que a maioria das pessoas chama de "morfológico" — o de primeiro trimestre e o de segundo trimestre, entre 20 e 24 semanas — não estão nessa lista.

Eles são objeto de um projeto de lei. Segundo a FEBRASGO, em outubro de 2025 a proposta foi aprovada em uma comissão da Câmara, prevendo que "a rede pública deverá oferecer pelo menos dois exames desse tipo às gestantes". O próprio texto da entidade registra que o projeto ainda precisava passar por outras quatro comissões antes do plenário da Câmara, e depois pelo Senado.
O que se perde sem eles não é pouco. A FEBRASGO descreve que o morfológico de primeiro trimestre, "ao incorporar o Doppler de artérias uterinas, possibilita identificar gestantes em maior risco para pré-eclâmpsia" — a tempo de iniciar prevenção. E que no de segundo trimestre "a avaliação do colo uterino por via transvaginal possibilita selecionar as gestantes com risco aumentado de parto prematuro".
A Caderneta registra que alguns exames podem seguir protocolos locais, e o pré-natal de alto risco tem lista própria, que inclui ultrassom com Doppler e cardiotocografia. Mas se você está sendo acompanhada num serviço que só ofereceu um ultrassom, isso não é erro da equipe: é o que a rotina nacional prevê hoje. Vale perguntar à equipe se o seu município oferece os morfológicos e como solicitar.
Diabetes gestacional: o exame entre 24 e 28 semanas#
O teste oral de tolerância à glicose com 75 g, feito preferencialmente entre a 24ª e a 28ª semana, é o que rastreia o diabetes gestacional, que segundo a Caderneta "geralmente não causa sintomas". É um exame incômodo, porque envolve jejum, uma solução açucarada e algumas horas dentro do laboratório.
Vale o desconforto. A FEBRASGO lista o que está em jogo: mulheres com diabetes gestacional "têm mais chance de desenvolver pressão alta, o que pode evoluir para uma condição grave chamada pré-eclâmpsia", e ficam com "risco aumentado para o desenvolvimento de diabetes tipo 2 no futuro". Para o bebê, a entidade cita desde nascer maior do que o normal e ter "problemas respiratórios logo ao nascer" até "hipoglicemia e icterícia ao nascer" — e um efeito que dura muito além do parto: "aumenta o risco de obesidade e diabetes na infância e vida adulta".
"Quando acompanhada, a gestação costuma seguir bem", resume a Caderneta. O problema é não saber que ela existe.
As vacinas#
| Vacina | Quando |
|---|---|
| dTpa (difteria, tétano e coqueluche) | A partir da 20ª semana, a cada gestação |
| Influenza (gripe) | Uma dose por temporada, em qualquer fase |
| Hepatite B | Se o esquema não estiver completo, iniciar ou completar as 3 doses |
| Covid-19 | 1 dose a cada gestação, após 6 meses da última dose |
| VSR (vírus sincicial respiratório) | A partir da 28ª semana |
| Febre amarela e raiva | Só em situações específicas, com avaliação individual |
Dois pontos merecem destaque. O primeiro: a dTpa se repete em toda gestação, mesmo que você tenha tomado na gravidez anterior. A Caderneta é explícita — "mesmo que tenha tomado em gravidez anterior, precisa repetir". A proteção que interessa aqui é a do bebê, pelos anticorpos que atravessam a placenta, e ela precisa ser renovada a cada vez.
O segundo é novo: a vacina contra o vírus sincicial respiratório, aplicada a partir da 28ª semana, protege o bebê "contra bronquiolite e pneumonia nos primeiros meses". Segundo a Caderneta, o VSR é o maior responsável pelas internações e mortes por bronquiolite dos bebês. A vacina entrou pela estratégia de vacinação do Ministério da Saúde de 2025, então é comum que nem a gestante nem gente próxima saibam que ela existe.
Se alguma vacina não puder ser aplicada durante a gestação, a Caderneta orienta que ela seja oferecida depois do parto.
Sinais de alerta: procure atendimento na hora#
A Caderneta lista sinais que pedem atendimento imediato — na UBS, na maternidade de referência, num serviço de urgência ou pelo Samu 192:
- Pressão mais alta que o habitual ou acima de 140 x 90 mmHg
- Sangramento vaginal
- Dor abdominal forte ou persistente
- Febre igual ou maior que 37,8 °C (veja o que fazer com febre na gravidez)
- Dor de cabeça intensa ou que não melhora
- Alterações na visão: visão turva, sensibilidade à luz, flashes, pontos cegos ou perda de visão
- Dor forte na região do estômago, logo abaixo da linha entre as mamas
- Dor ou ardência ao urinar
- Inchaço repentino no rosto, nas mãos ou nas pernas
- Diminuição ou ausência dos movimentos do bebê, especialmente se ficar mais de quatro horas sem se mexer depois das 20 semanas
- Manchas vermelhas na pele ou vermelhidão nos olhos
- Falta de ar, dor forte no peito, convulsões, desmaio
- Mal-estar intenso ou sensação de que algo não está bem
Três desses merecem uma nota. Dor de cabeça intensa, alteração visual e dor abaixo das mamas, juntos ou separados, podem estar ligados, segundo a Caderneta, a complicações da pressão como a pré-eclâmpsia, e pedem avaliação rápida. O último item da lista, "sensação de que algo não está bem", está lá de propósito: a Caderneta trata a percepção da própria gestante como sinal clínico, e não como exagero.
O item da Caderneta que quase ninguém comenta#
O Ministério da Saúde dedica uma seção inteira ao cuidado com gestantes negras, e o texto não faz rodeios. Registra que mulheres negras "têm prevalência maior de doença falciforme, anemia e pressão alta", e afirma, sobre o manejo da dor, que "a ideia de que mulheres negras 'suportam mais' é um mito racista sem base científica e que coloca vidas em risco".
Mais adiante, a Caderneta desce ao concreto e lista situações que caracterizam discriminação no atendimento. Entre elas: ouvir falas como "mulher negra é mais forte" ou "é parideira", "utilizadas de forma racista para negar métodos de alívio da dor", e ser solicitada a retirar "tranças afro, box braids, apliques, entrelaces, dreadlocks, entre outros, antes da realização da cesariana".
O fecho da seção é uma frase só: "Nenhuma decisão sobre exames ou procedimentos pode ser baseada em discriminação ou práticas racistas." A base legal citada é a Lei nº 7.716/1989 — a lei que define os crimes de preconceito de raça ou de cor.
A Caderneta também lembra que o registro do quesito raça/cor por autodeclaração "é obrigatório em atendimentos em todos os serviços de saúde", e que o vínculo com a maternidade de referência desde o pré-natal é fundamental para reduzir barreiras no momento do parto.
Se você é negra e sente que suas queixas de dor estão sendo minimizadas, existe um documento oficial do Ministério da Saúde dizendo, com essas palavras, que isso não deveria estar acontecendo.
O que levar para a próxima consulta#
Três perguntas que a Caderneta autoriza você a fazer:
- Todos os exames da lista do meu trimestre foram pedidos? Você tem direito de entender para que serve cada um.
- Qual é a minha maternidade de referência? A Caderneta inclui essa informação entre as tarefas da equipe no pré-natal, e saber antes evita peregrinação no dia do parto.
- Meu município oferece o ultrassom morfológico? Como solicito? A resposta varia, mas a pergunta é legítima.
A Caderneta é explícita sobre isso: você "tem o direito de entender para que serve cada exame e de tirar dúvidas sempre que precisar". O pré-natal bem feito não é aquele em que você obedece — é aquele em que você entende.
Dois exames e um documento dessa rotina têm texto próprio aqui: o rastreamento do diabetes gestacional entre a 24ª e a 28ª semana, o calendário de vacinação do bebê, dose a dose — que começa na maternidade — e, para quem terá leite de sobra ou precisará dele, como funciona o banco de leite humano.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. Exames, vacinas e o calendário de cada gestação são definidos pela equipe de saúde que acompanha você.
Perguntas frequentes
Quantas consultas de pré-natal são o mínimo?
Sete. A Caderneta Brasileira da Gestante, do Ministério da Saúde, recomenda no mínimo sete consultas de pré-natal, intercaladas entre médica(o) e enfermeira(o), além de no mínimo uma consulta odontológica. Depois do parto, o mínimo é de duas consultas puerperais. O número de seis, que circula em muito material antigo, está desatualizado.
Enfermeira pode fazer consulta de pré-natal?
Pode, e é assim que o Ministério da Saúde recomenda que funcione. O texto oficial fala em consultas "intercaladas entre médica(o) e enfermeira(o)". Ser atendida pela enfermeira não é atendimento de segunda linha nem sinal de que faltou médico: é o modelo previsto para o pré-natal de baixo risco na Atenção Primária.
O ultrassom morfológico é obrigatório no SUS?
Não. A rotina da Caderneta prevê uma ultrassonografia obstétrica, idealmente entre 7 e 12 semanas de gestação. Os dois morfológicos são objeto de um projeto de lei que, segundo a FEBRASGO, foi aprovado em uma comissão da Câmara em outubro de 2025 e ainda precisava passar por outras quatro comissões, pelo plenário e pelo Senado. Exames fora da lista de rotina podem seguir protocolos locais, por isso vale perguntar à sua equipe.
Quando começar o pré-natal?
O quanto antes, de preferência até a 12ª semana de gestação — ou seja, nos primeiros três meses. Começar cedo é o que permite detectar sífilis, HIV, hepatites e alterações da pressão a tempo de tratar, e é também o que garante a ultrassonografia dentro da janela de 7 a 12 semanas, quando a estimativa da data do parto é mais confiável.
Quais vacinas a gestante deve tomar?
Segundo a Caderneta, dTpa a partir da 20ª semana em toda gestação (mesmo quem tomou na gravidez anterior precisa repetir), influenza em qualquer fase, hepatite B se o esquema não estiver completo, uma dose de Covid-19 por gestação e, desde a estratégia de 2025, a vacina contra o vírus sincicial respiratório a partir da 28ª semana. Febre amarela e raiva ficam restritas a situações específicas.
Quando devo procurar atendimento imediatamente?
A Caderneta lista sinais que pedem atendimento imediato, entre eles: pressão acima de 140 x 90 mmHg, sangramento vaginal, dor abdominal forte ou persistente, febre igual ou maior que 37,8 °C, dor de cabeça intensa que não melhora, alterações na visão, inchaço repentino no rosto ou nas mãos, e diminuição dos movimentos do bebê — especialmente se ficar mais de quatro horas sem se mexer depois das 20 semanas.
Fontes consultadas
- 1.Caderneta Brasileira da Gestante (2026) — Ministério da Saúde — Secretaria de Atenção Primária à Saúde
- 2.Pré-natal — Ministério da Saúde
- 3.Câmara aprova inclusão da ultrassonografia morfológica no pré-natal do SUS — FEBRASGO — Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia
- 4.Monitorizar a glicemia é fundamental durante a gestação — FEBRASGO — Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia
- 5.HTLV: transmissão e prevenção — Ministério da Saúde


