Endometriose: A Doença Que Demora Anos Para Ser Diagnosticada
Uma em cada dez mulheres em idade fértil no Brasil tem endometriose, segundo o Ministério da Saúde — e o diagnóstico da forma intestinal leva em média de 7 a 10 anos. Veja os sinais que costumam ser confundidos com cólica normal e o que a FEBRASGO recomenda.
Publicado em ·Atualizado em ·6 min de leitura

"É normal, é cólica" é provavelmente a frase que mais atrasa diagnóstico de endometriose no Brasil. E o atraso não é de meses — é de anos, às vezes de uma década.
O Ministério da Saúde, citado pela FEBRASGO, estima que a doença atinge uma em cada dez mulheres em idade fértil no país. Não é uma condição rara. É comum, subdiagnosticada, e o motivo do subdiagnóstico está mais na cultura do que na medicina: dor menstrual intensa é tratada como parte do pacote de menstruar, não como sintoma a investigar.
O que é, na prática#
Endometriose é a presença de tecido semelhante ao endométrio — a camada que reveste o útero por dentro e que descama a cada menstruação — fora do útero. Esse tecido pode se instalar nos ovários, nas trompas, na bexiga, no intestino e, em casos raros, em órgãos distantes como o pulmão.
O problema é que esse tecido fora do lugar continua respondendo aos hormônios do ciclo: incha, sangra e inflama a cada mês, exatamente como faria dentro do útero — só que sem ter para onde escoar. É essa inflamação repetida que produz dor, adere órgãos entre si e, em alguns casos, compromete a fertilidade.
Os sinais: os "6 Ds"#
A FEBRASGO organiza os sintomas mais característicos num conjunto que ajuda a lembrar e a comunicar ao médico:
Dismenorreia — dor menstrual, geralmente mais intensa e progressiva do que a cólica comum.
Dispareunia — dor durante a relação sexual, muitas vezes profunda, não superficial.
Disquesia — dor para evacuar, principalmente no período menstrual.
Disúria — dor ou dificuldade para urinar.
Dificuldade para engravidar, incluindo infertilidade.
Dor pélvica crônica fora do ciclo menstrual — dor que não fica restrita aos dias de menstruação.
Repare que só um desses seis é a cólica que todo mundo já ouviu falar. Os outros cinco raramente são associados a endometriose por quem não é da área — dor para evacuar vira "intestino preso", dor ao urinar vira suspeita de infecção urinária, e dor na relação sexual é, com frequência, silenciada por constrangimento.
Uma parcela não sente nada#
Uma ginecologista da FEBRASGO chama atenção para o outro lado do problema: em até 20% dos casos, a endometriose pode ser silenciosa, sem sintoma aparente, mesmo com a doença presente.
Essa parcela costuma descobrir a condição de duas formas: investigando infertilidade, quando o casal já está tentando engravidar sem sucesso, ou por achado incidental — um exame de imagem pedido por outro motivo que revela lesões.
É por isso que histórico familiar e fluxo menstrual aumentado entram como fatores de atenção mesmo na ausência de dor: quem tem mãe ou irmã com endometriose carrega risco maior, e vale mencionar isso na consulta ginecológica de rotina, sintomática ou não.
Por que o diagnóstico demora tanto#
A explicação da FEBRASGO é direta: os sintomas são confundidos com problemas considerados comuns. Muitas pacientes passam anos acreditando que dor menstrual intensa é normal; em outros casos, a queixa é tratada como infecção urinária ou problema gastrointestinal.
O resultado é uma peregrinação entre especialidades — ginecologista, urologista, gastroenterologista — sem que ninguém junte os sinais. Na endometriose intestinal especificamente, esse caminho consome, em média, de 7 a 10 anos entre o início dos sintomas e a confirmação.
Uma década é tempo suficiente para a doença progredir, para a dor se tornar rotina e para a fertilidade ficar comprometida sem que a causa tenha sido nomeada. É também tempo suficiente para a mulher ouvir, de médicos e de familiares, que o problema é psicológico, é estresse, é "coisa da cabeça" — quando na verdade é ginecológico e tem tratamento.
Como se confirma#
O diagnóstico definitivo exige cirurgia, preferencialmente por videolaparoscopia. A visualização direta das lesões características já é considerada substituto razoável para a excisão com exame histológico, para fins tanto diagnósticos quanto terapêuticos — ou seja, muitas vezes o mesmo procedimento que confirma o diagnóstico já trata a lesão encontrada.
Isso não significa que toda suspeita exige cirurgia imediata. Antes de indicar a laparoscopia, o caminho costuma incluir exame clínico detalhado, exames de imagem (ultrassom transvaginal com preparo específico e ressonância magnética, quando indicados) e resposta ao tratamento clínico. Só quando essas etapas não esclarecem o quadro ou não controlam os sintomas a cirurgia entra como próximo passo.
O tratamento não começa pela cirurgia#
Segundo a FEBRASGO, o tratamento pode ser iniciado de forma empírica — ou seja, com base no quadro clínico, mesmo antes de uma confirmação cirúrgica — para aliviar a dor.
Anticoncepcionais combinados bloqueiam o ciclo menstrual: sem menstruação, o tecido fora do útero para de responder ao estímulo hormonal mensal, o que reduz inflamação e dor. É uma das razões pelas quais entender bem os métodos contraceptivos importa mesmo para quem não busca anticoncepção como objetivo principal.
DIU hormonal com levonorgestrel age de forma parecida, com a vantagem de manter o efeito local, e tem eficácia documentada na redução da dor pélvica crônica e da dismenorreia associadas à endometriose.
Cirurgia, quando o tratamento clínico não controla os sintomas ou há suspeita de comprometimento de intestino, bexiga ou outros órgãos. A laparoscopia é o procedimento mais indicado, por ser minimamente invasiva.
Nenhuma dessas opções é escolha da paciente sozinha: depende do desejo ou não de engravidar em curto prazo, da extensão da doença e da resposta a tentativas anteriores. É conversa de consultório, não de pesquisa na internet — o que este texto pretende é preparar essa conversa, não substituí-la.
O peso na fertilidade, e o que fazer#
A dificuldade para engravidar está entre os 6 Ds, mas vale desfazer um medo comum: ter endometriose não significa infertilidade garantida. Muitas mulheres engravidam naturalmente, inclusive sem tratamento específico para a doença; outras precisam de apoio, da estimulação simples à fertilização in vitro.
O marco para investigar segue sendo o mesmo de qualquer avaliação de fertilidade: um ano tentando sem sucesso, ou seis meses para quem tem mais de 35 anos. Quem já sabe ou desconfia de endometriose e planeja engravidar deve levar isso à consulta antes de completar esse prazo, porque o tempo, aqui, também é uma variável clínica.
Quando procurar o ginecologista#
Cólica que piora a cada ciclo, ou que já impede ir ao trabalho ou à escola. Dor durante a relação sexual, sobretudo se for profunda. Alteração no hábito intestinal ou urinário que segue o ritmo do ciclo menstrual. Dor pélvica que aparece fora do período menstrual. Dificuldade para engravidar depois de um ano tentando. Histórico familiar de endometriose, mesmo sem sintoma.
Nenhum desses itens, isolado, fecha diagnóstico — mas qualquer um deles já é motivo suficiente para consulta. A frase que resume o problema todo, e que vale repetir: dor que atrapalha a vida não é normal, é sinal. E sinal se investiga, não se aguenta caminhando com o calendário.
Perguntas frequentes
Toda cólica menstrual forte é endometriose?
Não, mas cólica que impede a rotina — falta ao trabalho ou à escola, não cede a analgésico comum, piora ano após ano — não é normal e merece investigação. A FEBRASGO usa a dismenorreia como um dos sinais centrais (o primeiro dos 6 Ds), mas o diagnóstico depende do conjunto de sintomas e de avaliação médica, não de uma cólica isolada.
Endometriose sempre dá sintoma?
Não. Uma ginecologista da FEBRASGO afirma que em até 20% dos casos a doença pode ser silenciosa, sem sintomas aparentes, mesmo estando presente. É outro motivo para o diagnóstico demorar: parte das mulheres só descobre ao investigar infertilidade ou por achado incidental em exame de imagem feito por outro motivo.
Por que demora tanto para diagnosticar?
Porque os sintomas são confundidos com problemas considerados comuns. Muitas pacientes passam anos acreditando que dor menstrual intensa é normal, e em outros casos a queixa é confundida com infecção urinária ou problema gastrointestinal — o que leva a pessoa a rodar entre especialistas sem receber o diagnóstico correto. Na forma intestinal, esse caminho consome em média de 7 a 10 anos.
Como se confirma o diagnóstico?
O diagnóstico definitivo exige cirurgia, preferencialmente por videolaparoscopia — a visualização direta das lesões características já é considerada substituto razoável para a excisão e o exame histológico. Isso não significa que toda mulher com suspeita precisa operar de imediato: exames de imagem e a resposta ao tratamento clínico ajudam a orientar a decisão antes de indicar cirurgia.
Existe tratamento sem cirurgia?
Sim, e costuma ser o primeiro passo. Segundo a FEBRASGO, o tratamento pode ser iniciado de forma empírica para aliviar a dor, com anticoncepcionais combinados ou DIU hormonal, que bloqueiam o ciclo menstrual e reduzem o crescimento do tecido fora do útero. A cirurgia entra quando o tratamento clínico não controla os sintomas ou há suspeita de comprometimento de outros órgãos.
Endometriose impede engravidar?
Não necessariamente, mas é uma causa relevante de infertilidade — a dificuldade para engravidar está entre os 6 Ds listados pela FEBRASGO. Muitas mulheres com endometriose engravidam, inclusive sem tratamento, e outras precisam de reprodução assistida. Quem está tentando engravidar há um ano sem sucesso — seis meses, acima dos 35 anos — deve investigar, com ou sem suspeita prévia de endometriose.
Fontes consultadas
- 1.Endometriose: doença afeta uma em cada dez mulheres em idade fértil no Brasil — FEBRASGO — Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia
- 2.Endometriose pode ser silenciosa em até 20% dos casos, afirma ginecologista da FEBRASGO — FEBRASGO — Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia
- 3.Tratamento Cirúrgico da Endometriose Intestinal — FEBRASGO — Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia


