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Fertilidade

Síndrome dos Ovários Policísticos: Tratamento e Vida Saudável

A SOP atinge cerca de 6% das mulheres em idade reprodutiva e vai muito além do ciclo irregular: envolve resistência à insulina e risco cardiovascular. Veja os critérios de diagnóstico, o que muda no tratamento e por que o letrozol virou primeira escolha para quem quer engravidar.

Escrito por

Redação Blog com Saúde

Equipe editorial

Publicado em ·Atualizado em ·6 min de leitura

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Médica segurando estetoscópio durante consulta
Médica segurando estetoscópio durante consulta

Ciclo irregular, acne que não passa, pelos onde não havia, dificuldade para engravidar, dificuldade para perder peso. É comum cada um desses sintomas ser tratado num consultório diferente — e ninguém juntar as peças.

A Síndrome dos Ovários Policísticos está presente em cerca de 6% das mulheres em idade reprodutiva, segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, que a define como caracterizada por "hiperandrogenismo, hiperinsulinemia, disfunção menstrual e complicações metabólicas e cardiovasculares".

Repare no que essa definição tem de diferente do senso comum: metade dela não fala de ovário. Fala de insulina, de metabolismo e de coração.

Os três critérios — e por que dois bastam#

O diagnóstico segue os critérios de Rotterdam, de 2003, e exige dois dos três achados:

Ciclos anovulatórios — ciclos em que não há ovulação, o que costuma aparecer como menstruação irregular, muito espaçada ou ausente.

Excesso de andrógenos, clínico ou laboratorial. O sinal clínico mais visível é o hirsutismo, o crescimento de pelos em áreas de distribuição masculina, junto com acne persistente. O laboratorial é a elevação de algum andrógeno no sangue.

Padrão policístico ao ultrassom — o aspecto dos ovários na imagem.

A consequência prática desse "dois de três" é a que mais gera confusão no consultório: ovário policístico ao ultrassom, sozinho, não é SOP. Sem ciclo irregular e sem sinal de hiperandrogenismo, um exame de imagem isolado não fecha o diagnóstico. Muita mulher carrega o rótulo por causa de um ultrassom, sem nunca ter preenchido os critérios.

E o inverso também vale: dá para ter SOP com ultrassom normal, se houver ciclo anovulatório e hiperandrogenismo.

O lado que não é ginecológico#

Aqui está a parte do assunto que costuma ficar de fora da conversa, e que muda o acompanhamento pela vida toda.

A resistência à insulina caminha junto com a SOP com frequência alta. Ela cria um ciclo que se retroalimenta: o organismo produz mais insulina para compensar, e o excesso de insulina estimula os ovários a produzirem mais andrógenos — que por sua vez pioram a irregularidade do ciclo e os sinais de hiperandrogenismo.

Os números dão a dimensão do risco metabólico. A SBEM registra intolerância à glicose identificada em 27% das adolescentes obesas com SOP, e descreve que a síndrome metabólica aumentada nessas pacientes eleva significativamente o risco cardíaco.

A FEBRASGO reforça o ponto ao tratar a SOP como condição que "depende de um atendimento multiprofissional", envolvendo ginecologista, cardiologista e dermatologista — porque envolve, nas palavras da entidade, "desequilíbrios metabólicos que elevam os riscos de eventos cardiovasculares e diabetes".

Ou seja: SOP não é um problema de menstruação que atrapalha engravidar. É uma condição metabólica com expressão ginecológica, e o acompanhamento deveria refletir isso.

O tratamento, frente por frente#

Não existe um remédio da SOP. Existe tratamento para cada eixo, escolhido conforme o que incomoda e o que se busca naquele momento da vida.

Estilo de vida e peso. Quando há excesso de peso, a perda entra como base do tratamento — a SBEM cita a perda de peso como primeiro item da combinação terapêutica. Não é conselho genérico: reduzir a resistência à insulina afrouxa a engrenagem que sustenta o resto do quadro. Vale lembrar que mulheres magras também têm SOP, e nelas o foco se desloca para as outras frentes.

Anticoncepcional oral, preferencialmente com progestágeno de baixa androgenicidade, para regularizar o ciclo e controlar acne e hirsutismo. Trata sintoma, não causa — e não serve para quem está tentando engravidar. Se você está avaliando opções, o guia de métodos contraceptivos ajuda a entender as diferenças entre as formulações.

Sensibilizadores de insulina. A SBEM aponta a metformina como primeira escolha nessa classe. Ela age exatamente sobre a resistência à insulina, e não sobre o ovário.

Para quem quer engravidar: o que mudou#

Esta é a parte com recomendação mais clara e mais desatualizada por aí.

Antes de qualquer medicação, a Sociedade Brasileira de Reprodução Humana registra o peso como medida pré-concepcional fundamental: pacientes com SOP e IMC acima de 25 apresentam menor taxa de gestação e maior taxa de aborto do que aquelas com IMC normal. Mudança de estilo de vida vem primeiro.

Na indução da ovulação, a recomendação é direta: "Letrozol deve ser o tratamento farmacológico de primeira escolha para a indução da ovulação em mulheres inférteis com SOP, sem outros fatores de infertilidade." Ele substitui o citrato de clomifeno, com melhores taxas de ovulação, de gravidez clínica e de nascidos vivos.

Isso importa porque o clomifeno foi o padrão por décadas e ainda é oferecido como primeira opção em muitos lugares. Se for o seu caso, é uma pergunta legítima a fazer em consulta.

A ordem completa que a SBRH descreve: letrozol como primeira linha; gonadotrofinas ou cirurgia ovariana laparoscópica como segunda; fertilização in vitro ou ICSI como terceira, quando as anteriores falham. A metformina aparece como terapia adjuvante, usada antes ou durante a estimulação ovariana para reduzir o risco de síndrome de hiperestimulação.

Se você está no começo dessa investigação, nosso texto sobre fertilidade e saúde reprodutiva explica quando procurar ajuda — um ano tentando, ou seis meses acima dos 35.

O que levar para a consulta#

Anote quantos dias tem o seu ciclo e há quanto tempo ele está assim. Ciclo irregular é o sintoma que mais se normaliza e menos se registra.

Leve os sintomas de hiperandrogenismo, mesmo os que parecem estéticos: acne que não responde a tratamento comum, queda de cabelo, pelos em áreas novas. Eles são critério diagnóstico, não vaidade — e valem ser ditos ao ginecologista mesmo que você já trate a acne com dermatologista.

Pergunte pelos exames metabólicos. Glicemia, insulina, perfil lipídico e pressão fazem parte do acompanhamento de quem tem SOP, e nem sempre são pedidos quando a consulta gira só em torno do ciclo. O guia de exames preventivos por faixa etária mostra o que já entraria na rotina de qualquer forma.

E diga o que você quer agora. Regularizar o ciclo, controlar acne e pelos, engravidar, reduzir risco metabólico — cada objetivo aponta para um tratamento diferente, e o mesmo diagnóstico admite caminhos bem distintos.

Quando procurar o médico#

Se o ciclo passou a ser irregular ou sumiu por meses. Se apareceram pelos em áreas de padrão masculino, acne persistente na vida adulta ou queda de cabelo. Se há dificuldade para engravidar após um ano tentando — seis meses acima dos 35. Se já tem diagnóstico de SOP e nunca fez avaliação metabólica.

E se alguém disse que você tem SOP olhando só um ultrassom, vale confirmar o diagnóstico pelos critérios. Rótulo errado leva a tratamento errado — em qualquer direção.

Perguntas frequentes

Ter ovário policístico no ultrassom significa ter SOP?

Não, e essa é a confusão mais comum. Pelos critérios de Rotterdam, o diagnóstico exige dois dos três achados: ciclos sem ovulação, sinais clínicos ou laboratoriais de excesso de andrógenos, e o padrão policístico ao ultrassom. Só a imagem, sem ciclo irregular e sem hiperandrogenismo, não fecha diagnóstico — muita mulher recebe o rótulo por um exame isolado.

SOP tem cura?

Não tem cura, mas tem controle, e o controle muda bastante o rumo. É uma condição crônica ligada a hiperandrogenismo, hiperinsulinemia e disfunção menstrual. O tratamento age sobre cada frente — ciclo, excesso de andrógenos, resistência à insulina — e o que se busca é manter os sintomas sob controle e reduzir o risco metabólico ao longo da vida.

Preciso emagrecer para tratar?

Peso não é a única variável, mas quando há excesso ele pesa muito. A SBRH registra que pacientes com SOP e IMC acima de 25 apresentam menor taxa de gestação e maior taxa de aborto do que aquelas com IMC normal, e recomenda modificação de estilo de vida e correção do excesso de peso como medida pré-concepcional fundamental. Vale dizer também que mulheres magras têm SOP, e nelas o tratamento segue outras frentes.

Anticoncepcional trata a SOP?

Trata sintomas, não a causa. O anticoncepcional oral, preferencialmente com progestágeno de baixa androgenicidade, regulariza o ciclo e ajuda no controle de acne e excesso de pelos. Não corrige a resistência à insulina nem serve para quem está tentando engravidar. É uma peça do tratamento, escolhida conforme o objetivo do momento.

Para que serve a metformina na SOP?

Ela age sobre a resistência à insulina, que é uma das engrenagens da síndrome, e a SBEM a cita como primeira escolha entre os sensibilizadores de insulina. Na infertilidade, a SBRH registra que a metformina isolada melhora as taxas de gestação, mas com eficácia menor que outros agentes — seu papel mais relevante ali é adjuvante, antes ou durante a estimulação ovariana, para reduzir o risco de hiperestimulação.

Qual o melhor remédio para engravidar tendo SOP?

A recomendação da SBRH é explícita: o letrozol deve ser o tratamento farmacológico de primeira escolha para indução da ovulação em mulheres inférteis com SOP sem outros fatores de infertilidade, no lugar do citrato de clomifeno — com melhores taxas de ovulação, gravidez clínica e nascidos vivos. Quem ainda ouve clomifeno como primeira opção vale perguntar ao médico o motivo.

SOP aumenta risco de diabetes?

Sim. A SBEM descreve a síndrome como envolvendo hiperinsulinemia e complicações metabólicas e cardiovasculares, e registra intolerância à glicose em 27% das adolescentes obesas com SOP. É por isso que o acompanhamento não deveria parar no ginecologista — a FEBRASGO trata a SOP como caso de atendimento multiprofissional.

Fontes consultadas

  1. 1.Síndrome dos Ovários Policísticos — definição, prevalência, critérios e tratamentoSBEM — Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
  2. 2.Abordagem da infertilidade em mulheres com Síndrome dos Ovários PolicísticosSBRH — Sociedade Brasileira de Reprodução Humana
  3. 3.Workshop SOP FEBRASGO — atendimento multiprofissionalFEBRASGO — Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia