Cafeína e Pré-Treino: Quanto é Considerado Seguro e o Que a Anvisa Exige
Para adultos saudáveis, a Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos considera que até 400 mg de cafeína por dia, somando todas as fontes, não trazem preocupação; para gestantes e lactantes, até 200 mg. No Brasil, suplemento com cafeína é só para adultos, com até 200 mg na recomendação diária na regra geral, e o energético tem teto de 35 mg por 100 ml. Veja os riscos de somar fontes e os sinais de excesso.
Publicado em ·10 min de leitura

Para adultos saudáveis, a Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos (EFSA) considera que até 400 mg de cafeína por dia, somando todas as fontes, não trazem preocupação de segurança. Para gestantes e lactantes, a referência cai para 200 mg por dia. No Brasil, o pré-treino com cafeína vendido como suplemento alimentar só pode ser indicado a adultos, com até 200 mg de cafeína na recomendação diária, e o rótulo precisa avisar que não deve ser consumido por gestantes, lactantes e crianças. O energético é outra categoria, com teto de 35 mg de cafeína por 100 ml. O risco está na soma: os limites valem para o total do dia, e café, energético e pré-treino se acumulam.
Os números deste texto são referências para a população e regras para o fabricante, e não uma dose para você. Quem tem doença do coração, pressão alta, ansiedade ou insônia, usa remédio todos os dias, está grávida ou amamentando deve conversar com o médico antes de usar cafeína em suplemento.
Quanto de cafeína é considerado seguro?#
A referência deste texto é o parecer científico da EFSA de 2015, retomado pela própria agência em pareceres posteriores. As fontes brasileiras que consultei não trazem um limite de consumo para a população, e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) observa que a maioria dos países, incluindo o Brasil, não define nem uma idade mínima para consumir cafeína.
| Grupo | Referência da EFSA |
|---|---|
| Adultos saudáveis | Até 400 mg por dia, somando todas as fontes |
| Adultos saudáveis, de uma vez só | Até 200 mg por dose, inclusive menos de duas horas antes de exercício intenso, em condições normais de ambiente |
| Gestantes | Até 200 mg por dia |
| Lactantes | Até 200 mg por dia |
| Crianças e adolescentes | Os dados não bastaram para um limite próprio; a EFSA adotou como referência segura 3 mg por quilo de peso por dia |
Três ressalvas acompanham esses números. Eles valem para pessoas saudáveis: no resumo que publicou em 2015, a EFSA diz que não avaliou quem tem doença nem a cafeína combinada com remédios. Para o uso antes de exercício intenso, não há estudos com gestantes nem com pessoas de meia-idade ou idosas. E o sono pode ser afetado com bem menos: segundo a EFSA, uma dose de 100 mg pode alterar a duração e o padrão do sono em alguns adultos, principalmente perto da hora de dormir. O efeito estimulante começa de 15 a 30 minutos depois e dura horas; em adultos saudáveis, o corpo leva em média 4 horas para eliminar metade da cafeína, com variação de 2 a 8 horas. Para quem treina à noite com pré-treino, isso pesa. O texto sobre qualidade do sono reúne o que tem evidência para dormir melhor.
Saber quanto você consome não é simples, porque o teor varia muito. A EFSA cita de 270 a 1.340 mg de cafeína por litro de café, conforme o grão e o preparo, de 150 a 220 mg por litro de chá e cerca de 320 mg por litro de energético. Pela faixa do café, uma xícara de 150 ml pode ter de cerca de 40 a 200 mg.

O que é pré-treino e o que a Anvisa permite?#
"Pré-treino" não é uma categoria da Anvisa: é nome de venda. Nos relatórios da Polícia Federal (PF), é o "produto destinado a ser usado logo antes da prática de exercícios para melhorar o desempenho". Quando é vendido como suplemento alimentar, segue as regras de qualquer suplemento: só ingredientes da lista da Anvisa, dentro de limites mínimos e máximos, e só as alegações aprovadas, com o texto exato.
Para a cafeína, as regras estão na Instrução Normativa (IN) 28/2018. Os valores abaixo foram conferidos na versão atualizada da norma, com as alterações publicadas até setembro de 2026:
| Ponto | O que a norma diz |
|---|---|
| Para quem | Só adultos a partir de 19 anos. A cafeína não é autorizada em suplementos para crianças, adolescentes, gestantes e lactantes |
| Quantidade mínima | 75 mg na recomendação diária do rótulo |
| Quantidade máxima | 200 mg na recomendação diária. Produto exclusivo para atletas pode recomendar até 400 mg por dia, desde que cada dose não passe de 200 mg |
| De onde pode vir | Cafeína, café verde em pó e guaraná, em pó ou em extrato. Na tabela nutricional aparece o total de cafeína, em miligramas |
| Advertência obrigatória | "Este produto não deve ser consumido por gestantes, lactantes e crianças", mesmo que o rótulo não fale nada sobre a cafeína |
| Alegações aprovadas | "A cafeína auxilia no aumento do estado de alerta e na melhora da concentração", com pelo menos 75 mg, e "A cafeína auxilia no aumento da capacidade de resistência e no desempenho de exercícios físicos de resistência", só em produto que recomenda 200 mg uma hora antes do exercício |
A regra já foi aplicada. Em março de 2022, a Anvisa proibiu dois suplementos com cafeína que recomendavam 400 mg por dia, o dobro do limite para adultos, sem informar que esse uso seria só para atletas, em doses de até 200 mg, uma hora antes do exercício. O caso foi divulgado em comunicado de risco da vigilância sanitária de Santa Catarina.
Outros ingredientes desses produtos também precisam estar na lista. A beta-alanina, por exemplo, é autorizada só para adultos e tem advertência própria no rótulo. Se o produto tiver creatina, valem as regras dela, explicadas no texto sobre creatina e o que a evidência mostra. Palavras como "hipertrofia", "massa muscular" ou "anabolizante" dependeriam de alegação aprovada, que não existe; pela mesma regra, o whey protein não pode prometer ganho de massa muscular. E, segundo o documento de perguntas e respostas da Anvisa, nem a cafeína nem ingredientes como taurina, inositol, vitaminas e minerais têm alegação aprovada de fornecer energia; por isso, o suplemento não pode se apresentar como "energético".
O que não pode estar num pré-treino?#
A RDC 243/2018 proíbe em suplementos as substâncias consideradas doping pela Agência Mundial Antidopagem e as sujeitas a controle especial no Brasil. Um exemplo é a DMAA (dimetilamilamina), estimulante que, segundo a PF, foi usado por algum tempo em vários suplementos estrangeiros. Ela foi proibida pela Anvisa em 2012 e segue na lista de substâncias de uso proscrito no país (lista F2) na atualização publicada em novembro de 2025. Segundo a PF, a DMAA aumenta a pressão arterial, o que pode levar a acidentes vasculares cerebrais. A DMBA, usada como substituta em produtos clandestinos, foi proibida em 2018.
Mesmo assim, esses produtos continuam aparecendo. Em 2020, a PF periciou 83 casos de pré-treinos apreendidos: em 4 havia substância proibida no Brasil, e 9 diziam ter DMAA sem ter, ou seja, eram falsos. No relatório de 2024, publicado em janeiro de 2026, foram 24 casos de pré-treino, com 2.912 potes. Entre as irregularidades dos suplementos periciados naquele ano, de todos os tipos, estavam teores acima do permitido, ingredientes não previstos para suplementos e rótulo só em língua estrangeira.
Por que somar café, energético e pré-treino é arriscado?#
Cada limite da norma vale para um produto, mas o corpo soma tudo, e a referência de 400 mg da EFSA inclui todas as fontes do dia.
| Fonte | Cafeína, pela regra ou pela referência |
|---|---|
| Pré-treino ou suplemento de cafeína | De 75 a 200 mg na recomendação diária, ou até 400 mg em produto exclusivo para atletas (IN 28/2018) |
| Energético | Até 35 mg por 100 ml (RDC 719/2022): até 87,5 mg numa lata de 250 ml e cerca de 165 mg numa de 473 ml |
| Café | De 270 a 1.340 mg por litro, segundo a EFSA: de cerca de 40 a 200 mg numa xícara de 150 ml |
| Chá | De 150 a 220 mg por litro, segundo a EFSA |
Um pré-treino no teto da norma e uma lata grande de energético no teto já somam cerca de 365 mg, antes de qualquer café.
O energético não é suplemento. Pela RDC 719/2022, ele é um "composto líquido pronto para o consumo" e precisa informar a quantidade de cafeína por porção, além de trazer dois avisos em destaque e em negrito: "Crianças, gestantes, nutrizes, idosos e portadores de enfermidades: consultar o médico antes de consumir o produto" e "Não é recomendado o consumo com bebida alcoólica". A norma proíbe no rótulo palavras como "estimulante", "potencializador" e "melhora de desempenho".
A mistura com álcool preocupa sobretudo entre adolescentes. A SBP relata o consumo de destilados com energéticos para potencializar os efeitos do álcool, possivelmente porque a cafeína reduz os efeitos depressores da bebida.
A cafeína também aparece em produtos vendidos para emagrecer: a EFSA cita suplementos para perda de peso e desempenho esportivo que combinam cafeína com sinefrina, substância que não está na lista de ingredientes autorizados para suplementos no Brasil. Aqui, nenhum suplemento pode prometer perda de peso, como mostra o texto sobre suplementos para emagrecer e os alertas da Anvisa.
Quem deve evitar ou redobrar o cuidado?#
- Crianças e adolescentes. Pela IN 28/2018, suplemento com cafeína não pode ser indicado a menores de 19 anos. A SBP reproduz a conclusão da Academia Americana de Pediatria: os pediatras devem explicar a crianças, adolescentes e responsáveis que os energéticos, "pelo seu conteúdo estimulante, não são apropriados para os jovens pacientes".
- Gestantes e lactantes. A EFSA fixa 200 mg por dia, somando todas as fontes, e a Anvisa não autoriza suplemento de cafeína para esses grupos.
- Idosos e pessoas com doenças. O rótulo do energético manda consultar o médico antes, e a avaliação da EFSA não incluiu pessoas com doenças. A SBP lista o aumento da pressão arterial e o coração acelerado entre os efeitos da cafeína, o que importa para quem tem pressão alta.
- Quem usa remédio todos os dias. A EFSA não avaliou a cafeína combinada com medicamentos. Pergunte ao médico ou ao farmacêutico antes de começar um pré-treino.
Quais são os sinais de excesso?#
Segundo a SBP, os efeitos da cafeína incluem coração acelerado, aumento da pressão arterial, mais vontade de urinar, aumento da temperatura do corpo, dor abdominal, insônia, alterações de humor e de atenção, ansiedade e risco de dependência física. Em doses altas, ela pode causar alteração da consciência, convulsões, arritmia grave e morte.
Uma revisão de 2018 sobre a toxicologia da cafeína, publicada na revista Toxicology Reports, acrescenta à lista náusea e vômitos, tremor, agitação, dor de cabeça e tontura. O autor registra casos, sobretudo de jovens, de efeitos graves e até morte com quantidades que em geral não causariam esse dano, pede mais estudos e declara ter prestado consultoria a empresas de suplementos.
Quando procurar atendimento#
Ligue para o Samu (192) ou procure um pronto-socorro se, depois de café, energético ou pré-treino, houver:
- dor ou aperto no peito;
- falta de ar;
- coração muito acelerado ou irregular, que não melhora em repouso;
- desmaio, confusão ou convulsão;
- vômitos que não param.
Se uma criança engoliu pré-treino, cápsula de cafeína ou energético, leve-a ao atendimento com a embalagem. Para orientação imediata, o Disque-Intoxicação da Anvisa atende de graça, 24 horas por dia, no 0800 722 6001.
Procure a unidade básica de saúde se tiver palpitações frequentes, insônia que não passa ou ansiedade, e converse com o médico antes de usar pré-treino se você tem doença do coração, pressão alta ou arritmia, está grávida ou amamentando ou usa remédio de uso contínuo.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. A decisão de usar suplemento com cafeína, e em que quantidade, cabe ao profissional de saúde que acompanha você.
Perguntas frequentes
Quantos cafés por dia é seguro tomar?
Não existe um número de xícaras, porque o teor de cafeína varia muito: a Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos (EFSA) cita de 270 a 1.340 mg de cafeína por litro de café, conforme o grão e o preparo. A referência da EFSA para adultos saudáveis é de até 400 mg por dia, somando todas as fontes, e de até 200 mg por dia para gestantes e lactantes. Quem tem doença, usa remédio ou dorme mal deve conversar com o médico.
Pré-treino faz mal?
Depende do produto e do que mais você consome no dia. Pela Instrução Normativa 28/2018 da Anvisa, um pré-treino vendido como suplemento só pode ser indicado a adultos e ter até 200 mg de cafeína na recomendação diária, ou até 400 mg se for exclusivo para atletas, com no máximo 200 mg por dose. O risco cresce quando ele se soma a café e energético, quando é usado por quem tem doença do coração ou pressão alta, ou quando o produto é irregular: a Polícia Federal já encontrou pré-treinos apreendidos com substâncias proibidas no Brasil.
Adolescente pode tomar pré-treino ou energético?
Suplemento com cafeína não pode ser indicado a menores de 19 anos, pela Instrução Normativa 28/2018 da Anvisa, e o rótulo deve avisar que o produto não é para crianças. A Sociedade Brasileira de Pediatria reproduz a conclusão da Academia Americana de Pediatria de que os energéticos, pelo conteúdo estimulante, não são apropriados para crianças e adolescentes. Para essa faixa de idade, a EFSA não conseguiu definir um limite próprio e usa como referência segura 3 mg de cafeína por quilo de peso por dia.
Grávida pode tomar café?
A Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos considera que até 200 mg de cafeína por dia, somando todas as fontes, não trazem preocupação de segurança na gravidez e na amamentação. No Brasil, suplemento com cafeína não é autorizado para gestantes e lactantes, e o rótulo do energético manda que gestantes e nutrizes consultem o médico antes de consumir. A quantidade de café que cabe na rotina deve ser conversada no pré-natal.
Pode misturar energético com bebida alcoólica?
Não é recomendado. Pela RDC 719/2022 da Anvisa, todo energético deve trazer no rótulo, em destaque e em negrito, a advertência "Não é recomendado o consumo com bebida alcoólica". A Sociedade Brasileira de Pediatria relata preocupação com adolescentes que misturam destilados e energéticos para potencializar o efeito do álcool, possivelmente porque a cafeína reduz os efeitos depressores da bebida.
Fontes consultadas
- 1.Instrução Normativa nº 28, de 26 de julho de 2018: cafeína nos Anexos I, III, IV, V e VI (constituintes, limites mínimo e máximo, alegações e advertência) — Anvisa, via Saúde Legis (Ministério da Saúde)
- 2.Perguntas e Respostas sobre Suplementos Alimentares, 9ª edição (16 de janeiro de 2025): perguntas 68 e 115 — Anvisa, Gerência-Geral de Alimentos
- 3.Resolução RDC nº 719, de 1º de julho de 2022: requisitos sanitários dos alimentos prontos para o consumo, incluindo os energéticos (arts. 3º, 6º e 7º) — Anvisa, Diário Oficial da União, 6/7/2022
- 4.Safety of dried coffee husk (cascara) from Coffea arabica L. as a Novel food: retoma as conclusões do parecer de 2015 sobre a segurança da cafeína — EFSA Journal, 2022, via PubMed Central
- 5.Consumo de bebidas energéticas por crianças e adolescentes (Documento Científico nº 10, Departamento Científico de Nutrologia) — Sociedade Brasileira de Pediatria, 2022
- 6.Relatório 2024: Produtos Farmacêuticos (Projeto Farmonitor), Instituto Nacional de Criminalística — Polícia Federal, janeiro de 2026


