Piolho em Criança: Como Tratar, Tirar Lêndeas e se Precisa Faltar à Escola
Para a Sociedade Brasileira de Pediatria, o passo mais importante contra o piolho é tirar as lêndeas com pente fino, porque nenhum remédio mata todos os ovos. E a criança não precisa faltar à escola. Veja como identificar, tratar e o que é mito.
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O bilhete da escola avisando que "há casos de piolho na turma" costuma provocar duas reações: vergonha e pressa. A vergonha não tem fundamento, e a pressa leva a receitas de internet que não funcionam ou fazem mal. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) tem um documento científico sobre o assunto e um informativo feito para as escolas, e é com eles, mais duas revisões de literatura médica, que este texto responde ao que os pais mais perguntam.
O que é o piolho, e por que ele não tem a ver com sujeira#
A pediculose do couro cabeludo é causada pelo Pediculus humanus capitis, um inseto que vive na cabeça e se alimenta de pequenas quantidades de sangue. Segundo a SBP, é mais frequente entre os 3 e os 11 anos, no período escolar, e mais comum nas meninas, pelo hábito de cabelos longos e pelo contato mais próximo nas brincadeiras.
O mito que mais machuca é o da falta de higiene. O documento da SBP afirma o contrário: a pediculose "afeta todas as classes econômicas e preferencialmente hospedeiros saudáveis com cabelos limpos". Cabelo limpo e cheiroso pode ter muitos piolhos.
Alguns números do ciclo de vida, todos da SBP, explicam por que o tratamento precisa de paciência:
| Fase | O que acontece |
|---|---|
| Adulto | Mede de 2 a 3 mm, não tem asas e não salta |
| Fêmea | Vive de 3 a 4 semanas e põe até 10 ovos por dia |
| Ovo | Fica colado na base do fio, a cerca de 4 mm do couro cabeludo |
| Eclosão | Em 8 a 9 dias (de 7 a 12, conforme o clima) |
| Ninfa até adulto | De 9 a 12 dias |
| Ciclo completo | Cerca de 3 semanas, se não houver tratamento |
A lêndea, pela definição do documento da SBP, é a casca do ovo que fica presa ao fio depois que ele eclode. É branca e aparece mais em cabelo escuro, enquanto o ovo com o piolho dentro tem cor parecida com a do cabelo, o que dificulta enxergá-lo.
Como identificar#
A coceira é o sinal clássico, e vem de uma reação à saliva que o piolho injeta ao se alimentar. Mas há duas pegadinhas. A primeira: segundo a SBP, a infestação muitas vezes não dá sintoma nenhum. A segunda: na primeira vez que a criança pega piolho, a coceira pode levar semanas para começar, enquanto nas reinfestações aparece em 1 a 2 dias.
Onde procurar: o piolho prefere a nuca e a região atrás das orelhas, que é onde a coceira costuma ser mais intensa. O diagnóstico, segundo a SBP, é ver o piolho ou a lêndea no couro cabeludo ou nos fios, sem necessidade de exame de laboratório.
O jeito mais eficiente de procurar é com pente fino no cabelo molhado. Uma revisão publicada em 2022 na revista Drugs in Context, disponível na PubMed Central, relata que o pente de dentes bem próximos é quatro vezes mais eficiente do que a simples inspeção visual, e que a busca no cabelo molhado tem sensibilidade de 91% para piolhos vivos.
Nem todo pontinho branco é lêndea. A SBP lista entre as confusões comuns a caspa, a dermatite seborreica, restos de gel, mousse e spray, e o molde pilar (uma bainha que envolve o fio). Na descrição da SBP, a lêndea fica aderida de lado ao fio de cabelo; na dúvida, quem confirma é o pediatra.
Como tratar: o pente fino vem antes do remédio#
O documento da SBP começa a parte de tratamento com dois avisos. Nenhum esquema se mostrou 100% eficaz nos estudos, e a resistência aos medicamentos está aumentando. E, nas palavras da entidade: "Mais importante que qualquer medicação é a remoção mecânica das lêndeas com pente bem fino". O motivo é simples: os medicamentos não eliminam os ovos, e as lêndeas que ficam dão origem a novos piolhos.
Passo a passo para tirar lêndeas#
A revisão de 2022 descreve a técnica de penteação úmida, que é a base do que a SBP recomenda:
- Molhe o cabelo. Pode ser com água, xampu ou condicionador, o que facilita o pente correr.
- Use pente fino de verdade, com dentes a menos de 0,3 mm um do outro. Segundo a revisão, os de metal rendem mais que os de plástico.
- Divida o cabelo em mechas e passe o pente da raiz até a ponta, uma mecha de cada vez, retirando ovos e piolhos.
- Continue até não encontrar mais piolhos naquela sessão, o que pode levar meia hora.
- Repita a cada 3 ou 4 dias, por pelo menos duas semanas depois da última vez que encontrou um piolho.
É trabalhoso, e a revisão reconhece que a penteação sozinha é menos eficaz que um remédio na população em geral. Mas ela é a opção a considerar para crianças com menos de 2 anos, idade em que, segundo o mesmo trabalho, os produtos contra piolho em geral não são recomendados. Se a criança resiste às sessões, o texto sobre birra e limites traz ideias para combinar regras sem gritos.

E os medicamentos?#
A SBP cita loções e xampus com permetrina (indicada a partir dos 2 meses) e deltametrina, e a ivermectina por via oral como opção para crianças com mais de 15 quilos. Cada produto tem idade mínima, tempo de ação e intervalo de reaplicação próprios, e o documento alerta que alguns não podem encostar em olhos, mucosas e feridas. Outros dois princípios ativos, o benzoato de benzila e o lindano, estão em desuso pelo excesso de resistência e de efeitos adversos.
Quem escolhe o produto, a forma de aplicar e quando repetir é o pediatra. A SBP orienta procurar o especialista quando o diagnóstico está confuso e quando o piolho persiste apesar do tratamento correto.
O que fazer com a casa#
Segundo a SBP, todas as pessoas que tiveram contato direto com a criança devem ser examinadas, para que ninguém da casa ou da escola fique como foco de reinfestação. Além disso:
- lave com água quente, ou a seco, roupas, roupas de cama, chapéus, toalhas, lenços, tiaras, pentes e escovas de uso recente;
- o que não puder ser lavado deve ficar sem uso por 2 semanas.
A revisão de 2022 não recomenda aplicar produto contra piolho em móveis. O documento da SBP ajuda a entender por quê: o piolho raramente sobrevive mais de dois dias longe do couro cabeludo, e os ovos não eclodem em temperatura mais baixa que a da cabeça.
O que é mito#
O documento científico da SBP dedica um trecho só a isso:
- "Piolho voa ou pula." Não. A transmissão principal é o contato de cabeça com cabeça e, menos vezes, o uso compartilhado de pentes, escovas, bonés e travesseiros. A revisão de 2022 acrescenta que o piolho da cabeça não usa animais de estimação para se espalhar.
- "Lavar a cabeça todo dia resolve." Xampu comum não elimina o piolho, e ele resiste bem à água quente do banho.
- "Cabelo curto não pega." Cabelo curto e liso facilita ver e tirar, mas não reduz o risco de infestação.
- "Maionese, vaselina, margarina ou óleo sufocam o piolho." Não há comprovação de efetividade, e esses produtos podem causar irritação e dermatite de contato.
- "Existe repelente ou remédio que previne." Não existe, segundo a SBP. Fórmulas caseiras "podem até funcionar", diz o documento, mas trazem risco de intoxicação e não devem ser usadas.
- "É melhor raspar a cabeça." A revisão de 2022 diz que raspar pode eliminar piolhos e ovos, mas não recomenda, porque pode ser emocionalmente traumático para a criança.
A criança precisa faltar à escola?#
Não. O informativo da SBP para as escolas responde em duas linhas: afastamento da escola, "não é necessário"; notificação, "não é necessário". O documento científico vai além e diz que políticas de afastar crianças da escola não são efetivas e devem ser desencorajadas.
A literatura internacional segue na mesma direção. Recomendações publicadas em 2021 no International Journal of Dermatology pedem que as autoridades abandonem a regra de "nenhuma lêndea" para voltar à aula, por falta de base científica e por prejudicar a criança. A revisão de 2022 diz que a criança pode voltar à escola depois do tratamento adequado, mesmo que ainda haja lêndeas.
O que a SBP pede é comunicação: avisar a escola, para que outras famílias examinem os filhos, e examinar todos os contatos próximos.
Quando procurar atendimento#
A pediculose em si não transmite doença, segundo a revisão de 2022, mas pode complicar. Procure o pediatra quando:
- o couro cabeludo tiver feridas, crostas, secreção ou vermelhidão que se espalha, sinal de infecção bacteriana pelo ato de coçar, que a SBP cita como a principal complicação;
- surgirem ínguas (gânglios inchados) na nuca ou no pescoço, que o documento associa à infecção secundária;
- o piolho continuar depois do tratamento feito do jeito certo, ou houver dúvida se aquilo é mesmo lêndea, situações em que a SBP orienta encaminhar;
- o bebê tiver menos de 2 anos, antes de usar qualquer produto;
- a infestação for intensa e duradoura: a revisão de 2022 registra que a perda crônica de sangue pode levar a anemia por falta de ferro.
Se aparecer febre junto com feridas no couro cabeludo, o guia sobre febre em criança e bebê mostra os sinais que pedem atendimento. E, para outra doença que circula nas creches e escolas, veja o texto sobre doença mão-pé-boca.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. O diagnóstico, a escolha do produto e a forma de uso são definidos pelo pediatra.
Perguntas frequentes
Como saber se meu filho tem piolho?
O diagnóstico é ver o piolho vivo ou a lêndea presa ao fio, de preferência atrás das orelhas e na nuca, onde a coceira costuma ser mais forte. A Sociedade Brasileira de Pediatria lembra que muitas crianças não sentem coceira, e uma revisão publicada em 2022 mostra que passar pente fino no cabelo molhado encontra piolhos vivos em 91% dos casos, mais do que só olhar o cabelo seco.
Qual é a diferença entre piolho e lêndea?
O piolho é o inseto adulto, sem asas, com 2 a 3 milímetros, comparável a uma semente de gergelim. Os ovos ficam colados na base do fio, a cerca de 4 milímetros do couro cabeludo, e eclodem em 8 a 9 dias. Lêndea, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, é a casca vazia que fica no fio depois que o ovo eclode: é branca e mais fácil de enxergar em cabelo escuro.
Qual o melhor remédio para piolho?
Não existe um que funcione em 100% dos casos, e a resistência aos produtos está aumentando, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria. Há loções e xampus com permetrina ou deltametrina e, em casos selecionados, ivermectina por via oral, cada um com idade mínima e forma de uso próprias. O produto, a aplicação e quando repetir são definidos pelo pediatra. Nenhum dispensa o pente fino, porque os remédios não eliminam os ovos.
Vinagre, maionese ou vaselina matam piolho?
Não há comprovação. A Sociedade Brasileira de Pediatria afirma que produtos que tentam sufocar o piolho, como maionese, cremes, vaselina, margarina e óleos, não têm efetividade comprovada e podem irritar a pele do couro cabeludo e causar dermatite de contato. Fórmulas caseiras em geral trazem risco de intoxicação e não devem ser usadas, segundo a entidade.
A criança com piolho precisa faltar à escola?
Não. O informativo da Sociedade Brasileira de Pediatria para as escolas é explícito: afastamento não é necessário, e a pediculose não é doença de notificação. O documento científico da entidade diz que afastar crianças da escola não é efetivo e deve ser desencorajado. A orientação é avisar a escola, tratar e examinar todas as pessoas que tiveram contato direto com a criança.
Piolho voa ou pula de uma cabeça para outra?
Não. Piolho não tem asas e não salta; ele anda de um fio para outro. A Sociedade Brasileira de Pediatria afirma que a principal transmissão é o contato de cabeça com cabeça e, com menos frequência, o compartilhamento de pentes, escovas, bonés e travesseiros. Uma revisão de 2022 acrescenta que o piolho da cabeça não usa animais de estimação para se espalhar.
Como evitar que o piolho volte?
Examinar a cabeça da criança todos os dias, à procura de piolhos e lêndeas, é a medida de prevenção que a Sociedade Brasileira de Pediatria indica. Também ajuda lavar em água quente ou a seco roupas de cama, toalhas, chapéus, pentes e escovas usados recentemente, deixar sem uso por duas semanas o que não pode ser lavado e examinar todos da casa ao mesmo tempo.
Fontes consultadas
- 1.Infecções cutâneas parasitárias: aspectos clínicos e atualização terapêutica, Departamento Científico de Dermatologia (2019) — Sociedade Brasileira de Pediatria
- 2.Pediculose (Piolho): Informativo para as Escolas nº 46 (2023) — Sociedade Brasileira de Pediatria
- 3.Paediatrics: how to manage pediculosis capitis (Drugs in Context, 2022) — PubMed Central
- 4.International recommendations for an effective control of head louse infestations (Int J Dermatol, 2021) — PubMed


