Diarreia em Criança: Sinais de Desidratação, Soro Caseiro e Quando Ir ao Pronto-Socorro
Diarreia é ter três ou mais evacuações líquidas ou amolecidas em 24 horas, segundo o Ministério da Saúde. Veja os sinais de desidratação do Plano A, B e C, quanto soro oferecer por idade, como usar o soro de reidratação oral do SUS e os sinais de alerta.
Publicado em ·Atualizado em ·9 min de leitura

A diarreia quase sempre passa sozinha. O Ministério da Saúde descreve as doenças diarreicas agudas como "autolimitadas", com duração de até 14 dias. O que preocupa é a água e os sais que a criança perde a cada evacuação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz, na sua ficha sobre o tema, que a desidratação é a ameaça mais grave da diarreia e que a doença ainda é a terceira causa de morte de crianças de 1 a 59 meses no mundo.
Este texto segue o cartaz Manejo do paciente com diarreia, que o Ministério da Saúde atualizou em 2023. É o mesmo roteiro que as equipes do SUS usam para decidir se a criança se trata em casa, no posto ou no hospital.
Quando é diarreia de verdade?#
O Ministério da Saúde considera doença diarreica aguda a ocorrência de três ou mais evacuações líquidas ou amolecidas em 24 horas. Pode haver náusea, vômito, febre e dor de barriga. Quando há muco e sangue nas fezes, o quadro se chama disenteria.
Há uma exceção importante. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), no Guia Prático de Atualização sobre diarreia aguda infecciosa (2023), lembra que o bebê em aleitamento materno exclusivo costuma evacuar depois das mamadas, com fezes semilíquidas. Se ele ganha peso e não tem outros sinais, esse padrão não é diarreia. A OMS diz o mesmo.
A maior parte dos casos vem de vírus, bactérias ou parasitas que chegam pela água, pelos alimentos ou pelas mãos. A SBP aponta o rotavírus como a principal causa de diarreia grave em menores de 5 anos no mundo. No Brasil, entre 2006 e 2018, a taxa de internação por diarreia em crianças de até 5 anos caiu 52,5% com a vacinação contra o rotavírus, segundo o guia. A vacina faz parte do calendário de vacinação do bebê.
Como saber se a criança está desidratada?#
O cartaz do Ministério da Saúde organiza a avaliação em três colunas. Elas correspondem aos três planos de tratamento:
| O que observar | Sem desidratação (Plano A) | Com desidratação (Plano B) | Desidratação grave (Plano C) |
|---|---|---|---|
| Estado geral | Ativa, alerta | Irritada, intranquila | Comatosa, mole, letárgica ou desacordada* |
| Olhos | Sem alteração | Fundos | Fundos |
| Sede | Sem sede | Sedenta, bebe rápido e com avidez | Não consegue beber* |
| Lágrimas | Presentes | Ausentes | Ausentes |
| Boca e língua | Úmidas | Secas ou levemente secas | Muito secas |
| Prega da pele da barriga | Volta na hora | Volta devagar | Volta muito devagar (mais de 2 segundos) |
| Pulso | Cheio | Cheio | Fraco ou ausente* |
A regra de decisão do cartaz é esta. Dois ou mais sinais da coluna do meio indicam desidratação. Dois ou mais sinais da última coluna, com pelo menos um dos marcados com asterisco, indicam desidratação grave. Na dúvida entre uma coluna e outra, o Ministério manda tratar pelo pior cenário.
Em casa, você não vai medir pulso nem fazer o teste da prega. Por isso a página Dicas em Saúde, da Biblioteca Virtual do Ministério da Saúde, traduz a avaliação para os pais: olhos fundos, choro sem lágrimas, boca e língua secas, muita sede, beber muito rápido, pouca urina e moleira afundada no bebê. Se a criança tiver dois ou mais desses sinais, procure a unidade de saúde imediatamente.
Plano A: o que fazer em casa#
Se a criança está ativa, bebe normalmente e não tem sinais de desidratação, o tratamento é o Plano A. O cartaz de 2023 tem cinco pontos.
1. Mais líquido do que o habitual. Ofereça líquidos após cada evacuação e após cada vômito, em pequenas quantidades e com maior frequência. O cartaz cita água, chá, suco, água de coco, sopas ou a solução de sais de reidratação oral (SRO). Nada de refrigerante. Chá e suco, de preferência, sem açúcar.
2. A quantidade depende da idade. O Ministério da Saúde orienta, após cada evacuação diarreica:
| Idade | Quanto oferecer após cada evacuação |
|---|---|
| Menor de 1 ano | 50 a 100 ml |
| De 1 a 10 anos | 100 a 200 ml |
| Maior de 10 anos | A quantidade que aceitar |
3. Comida e leite materno continuam. A orientação é manter a alimentação habitual e o aleitamento materno. Deixar a criança sem comer não "descansa o intestino": a OMS descreve um ciclo vicioso em que a diarreia leva à desnutrição e a criança desnutrida adoece mais de diarreia. Se a criança já começou a comer, as orientações da alimentação complementar seguem valendo.
4. Bebê em aleitamento exclusivo é outra regra. Para ele, o cartaz é claro: o único líquido que deve ser oferecido além do leite materno é a solução de SRO. Não ofereça água, chá ou suco.
5. Zinco, se o profissional indicar. O Plano A inclui zinco uma vez ao dia, por 10 a 14 dias, para menores de 5 anos. A OMS diz que o zinco reduz a duração do episódio em 25% e o volume das fezes em 30%. A dose varia com a idade e é o profissional de saúde quem a prescreve.

Soro de reidratação oral e soro caseiro: como usar#
O soro de primeira escolha é a solução de sais de reidratação oral (SRO), que vem em envelope e é usada nas unidades de saúde. Prepare o envelope exatamente como diz a embalagem. A OMS descreve o SRO como uma mistura de água limpa, sal e açúcar que custa poucos centavos por tratamento e repõe a água e os sais perdidos nas fezes.
O soro caseiro aparece na cartilha do Ministério da Saúde para agentes comunitários entre os líquidos caseiros do Plano A. Como a proporção de sal e açúcar precisa ser exata, use a receita e as medidas que a equipe da unidade de saúde ensinar, e ofereça ao longo do dia, em pequenas colheradas.
Três cuidados práticos. Use água tratada: o Ministério orienta filtrar e ferver, ou filtrar e colocar duas gotas de hipoclorito de sódio a 2,5% por litro, aguardando 30 minutos. Não "reforce" a receita com mais sal ou mais açúcar, porque a medida é o que faz o soro funcionar. E lembre que o bebê em aleitamento exclusivo recebe só leite materno e SRO.
Uma observação de bastidor, que a SBP registra no guia de 2023: desde 2005 a OMS recomenda uma solução de reidratação com menos sódio (75 mmol/L), associada a diarreia mais curta e menos vômitos, e o Ministério da Saúde ainda não fez essa adequação. Isso não muda o que os pais devem fazer em casa: seguir a embalagem do envelope ou a orientação da unidade de saúde.
O que não fazer#
O cartaz do Ministério da Saúde traz uma frase em destaque: "antidiarreicos não devem ser usados". Também afirma que antibiótico só é indicado na diarreia com sangue e comprometimento do estado geral ou na cólera grave. Em outras situações, segundo o cartaz, ele é ineficaz e causa resistência.
Remédio para vômito também não é para dar por conta própria. O Ministério prevê o antiemético apenas no Plano B, na unidade de saúde, quando os vômitos são persistentes. A SBP lembra que a Anvisa proibiu a metoclopramida para menores de 18 anos. Quem decide o remédio e a dose é o profissional que examina a criança.
Outros erros comuns: dar refrigerante ou suco de caixinha adoçado como se fosse soro, suspender o leite materno e deixar a criança em jejum.
Plano B e Plano C: quando o tratamento sai de casa#
Plano B, na unidade de saúde. Se a criança tem sinais de desidratação mas consegue beber, ela recebe SRO no próprio serviço, em pequenos volumes, até os sinais sumirem. O cartaz fala em 50 a 100 ml por quilo de peso em 4 a 6 horas, como orientação inicial, e diz que a criança deve permanecer na unidade até a reidratação completa. Se, depois de 6 horas, não houver melhora, ela é encaminhada ao hospital.
Plano C, no hospital. É a desidratação grave, tratada com soro na veia. O Ministério da Saúde pede transferência o mais rápido possível e que os primeiros cuidados comecem já na unidade, enquanto a criança é levada.
A página do Ministério sobre doenças diarreicas agudas reforça que crianças e idosos com diarreia correm risco de desidratação grave e devem procurar o serviço de saúde em caráter de urgência.
Como prevenir a próxima diarreia#
A página do Ministério da Saúde lista medidas simples:
- lavar as mãos com água e sabão antes de preparar alimentos e de comer, depois de usar o banheiro, de trocar fraldas e ao voltar da rua;
- tratar a água de beber e guardá-la em vasilha limpa, tampada e de boca estreita;
- lavar frutas e verduras e evitar carnes, peixes e mariscos crus ou malcozidos;
- não oferecer leite cru, sem ferver ou pasteurizar;
- evitar o desmame precoce, porque o aleitamento materno aumenta a resistência da criança às diarreias.
A OMS acrescenta o aleitamento exclusivo nos seis primeiros meses e a vacina contra o rotavírus.
Quando procurar atendimento#
Leve a criança imediatamente ao serviço de saúde se, segundo o cartaz e a página do Ministério da Saúde, ela:
- não melhorar em 2 dias;
- tiver piora da diarreia, com mais evacuações ou fezes em maior volume;
- tiver vômitos repetidos;
- tiver muita sede;
- recusar alimentos;
- tiver sangue nas fezes;
- urinar menos;
- tiver dois ou mais sinais de desidratação: olhos fundos, choro sem lágrimas, boca seca, moleira afundada.
Também pedem avaliação médica, segundo o cartaz: a diarreia que dura mais de 14 dias, que exige encaminhamento hospitalar no bebê com menos de 6 meses ou na criança desidratada; a febre de 39 °C ou mais junto com a diarreia, que precisa de investigação de outras causas, como pneumonia, otite ou infecção urinária; e a criança com desnutrição.
Vá ao pronto-socorro ou ligue para o Samu 192 se a criança estiver muito sonolenta, mole ou difícil de acordar, não conseguir beber ou não parar de vomitar. Esses são sinais de desidratação grave. Para comparar com outra queixa comum da infância, veja também o texto sobre doença mão-pé-boca, que também pode deixar a criança sem querer beber.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. O diagnóstico e o tratamento da diarreia são definidos pelo profissional de saúde que examina a criança.
Perguntas frequentes
Quantas evacuações por dia são consideradas diarreia em criança?
O Ministério da Saúde define a doença diarreica aguda como três ou mais episódios de fezes líquidas ou amolecidas em 24 horas, em geral com duração de até 14 dias. A Organização Mundial da Saúde e a Sociedade Brasileira de Pediatria fazem uma ressalva: o bebê em aleitamento materno exclusivo pode evacuar várias vezes ao dia, com fezes pastosas, e isso não é diarreia se ele ganha peso e está bem.
Posso fazer soro caseiro em vez de usar o envelope?
O soro de primeira escolha é o envelope de sais de reidratação oral (SRO), distribuído nas unidades de saúde do SUS e preparado exatamente como diz a embalagem. O soro caseiro aparece na cartilha do Ministério da Saúde entre os líquidos do Plano A, mas a proporção de sal e açúcar precisa ser exata: se for usá-lo, siga a receita e as medidas que a equipe da unidade de saúde ensinar, sem aumentar o sal nem o açúcar, e não use refrigerante no lugar do soro.
Quanto soro devo dar depois de cada evacuação?
O cartaz Manejo do paciente com diarreia, do Ministério da Saúde, orienta 50 a 100 ml após cada evacuação diarreica para menores de 1 ano, 100 a 200 ml para crianças de 1 a 10 anos e a quantidade que aceitarem para maiores de 10 anos. Ofereça aos poucos, em pequenas quantidades e com maior frequência, inclusive depois de episódios de vômito.
Bebê que mama só no peito pode tomar água ou chá na diarreia?
Não. O cartaz de 2023 do Ministério da Saúde diz que, para a criança em aleitamento materno exclusivo, o único líquido a oferecer além do leite materno é a solução de sais de reidratação oral (SRO). O aleitamento deve continuar normalmente durante a diarreia.
Quais sinais mostram que a criança está desidratada?
Pelo quadro do Ministério da Saúde, a criança com desidratação fica irritada ou intranquila, tem olhos fundos, chora sem lágrimas, tem boca e língua secas, sente muita sede e bebe com avidez, e a pele beliscada na barriga volta devagar. Dois ou mais desses sinais indicam desidratação e pedem atendimento no mesmo momento.
Quando a diarreia da criança é emergência?
É emergência quando a criança fica muito sonolenta, mole ou desacordada, não consegue beber ou tem pulso fraco. O quadro do Ministério da Saúde classifica esses sinais como desidratação grave, tratada com soro na veia em hospital. Nesses casos, vá ao pronto-socorro ou ligue para o Samu 192.
Posso dar remédio para cortar a diarreia da criança?
Não. O cartaz do Ministério da Saúde afirma que antidiarreicos não devem ser usados e que antibiótico só é indicado para diarreia com sangue e comprometimento do estado geral ou cólera grave. O zinco, citado no Plano A para menores de 5 anos, e qualquer antiemético têm indicação e dose definidas pelo profissional de saúde.
Fontes consultadas
- 1.Manejo do paciente com diarreia: avaliação do estado de hidratação e Planos A, B e C (cartaz, 2023) — Ministério da Saúde
- 2.Doenças diarreicas agudas (DDA): sinais, complicações, prevenção e tratamento — Ministério da Saúde
- 3.Diarreia e desidratação (Dicas em Saúde): sinais de desidratação e como preparar o soro caseiro — Ministério da Saúde (Biblioteca Virtual em Saúde)
- 4.Doenças diarreicas agudas: orientações para o agente comunitário de saúde (cartilha) — Ministério da Saúde
- 5.Diarreia aguda infecciosa (Guia Prático de Atualização nº 74, 2023) — Sociedade Brasileira de Pediatria
- 6.Diarrhoeal disease (fact sheet) — Organização Mundial da Saúde


