Como amamentar: pega correta, posição e primeiros dias
O bebê costuma mamar de 8 a 12 vezes por dia, a descida do leite vem por volta do 3º ao 5º dia e o colostro do primeiro dia basta para um estômago de cerca de 20 mL. Os sinais de pega correta, as posições e o que o Ministério da Saúde e a SBP orientam nos primeiros dias.
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Amamentar é natural, mas não vem pronto. O Caderno de Atenção Básica nº 23, do Ministério da Saúde, resume assim: a sucção do recém-nascido é um reflexo, mas ele "precisa aprender a retirar o leite do peito de forma eficiente". Este texto reúne o que o Ministério da Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) orientam sobre a primeira mamada, a pega, as posições e os primeiros dias.
Por que a primeira mamada deve ser na primeira hora?#
A OMS e o Unicef recomendam que todo bebê comece a mamar na primeira hora de vida, receba só leite materno nos 6 primeiros meses e continue no peito até 2 anos ou mais. O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, detalha: se mãe e bebê estiverem bem, em qualquer tipo de parto, o recém-nascido fica pele a pele com a mãe, sem roupas entre os dois, por pelo menos 1 hora, respeitando o desejo da mulher.
O motivo não é só afetivo. Segundo o Guia, a mamada logo após o parto libera hormônios que ajudam na descida do leite e na diminuição do sangramento pós-parto. O Guia Prático de Aleitamento Materno da SBP, de 2024, chama esse período de "hora dourada": a sucção precoce garante o colostro, rico em fatores de proteção contra infecções, e a ocitocina liberada contrai o útero.
Sobre o peito da mãe, muitos bebês encontram a mama sozinhos: segundo o Caderno nº 23, a primeira mamada ocorre em média aos 40 minutos de vida. Depois, mãe e bebê seguem juntos: a Portaria nº 1.016/2003, citada no Caderno, obriga as maternidades do SUS a ter alojamento conjunto, com os dois no mesmo quarto 24 horas por dia.
Como é a pega correta?#
"Pega" é o encaixe da boca do bebê no peito. Segundo o Guia Alimentar, a pega adequada favorece a retirada do leite e não machuca a mulher. O Caderno nº 23 explica que, com a pega errada, o bebê consegue o leite do começo da mamada, mas tem dificuldade de tirar o do fim, mais calórico, e pode não ganhar peso mesmo passando muito tempo no peito.
A OMS destaca, segundo o Caderno nº 23, quatro pontos-chave de cada lado:
| Posicionamento adequado | Pega adequada |
|---|---|
| Rosto do bebê de frente para a mama, com o nariz na altura do mamilo | Mais aréola visível acima da boca do bebê do que abaixo |
| Corpo do bebê próximo ao da mãe | Boca bem aberta |
| Cabeça e tronco alinhados, pescoço sem torcer | Lábio inferior virado para fora |
| Bebê bem apoiado | Queixo tocando a mama |
Para chegar lá, os documentos dão dicas práticas:
- Espere a boca abrir bem. O Guia sugere tocar levemente os lábios do bebê com o mamilo; quando ele abrir bem a boca e abaixar a língua, é hora de trazê-lo ao peito.
- Traga o bebê até a mama, e não a mama até o bebê, lembra o Caderno nº 23.
- Segure a mama com a mão em "C", e não com os dedos em tesoura, que atrapalham o encaixe.
- Abocanhe além do mamilo: o Caderno fala em aproximadamente 2 cm de aréola além do bico.
- Sem obstáculos: roupas, panos e o bracinho do bebê fora do caminho.
Quais sinais mostram que algo não vai bem? O Caderno nº 23 lista os indicativos de técnica inadequada:
- bochechas do bebê encovadas a cada sucção;
- ruídos (estalos) da língua;
- mama parecendo esticada ou deformada durante a mamada;
- mamilo com estrias vermelhas ou áreas esbranquiçadas ou achatadas quando o bebê solta;
- dor na amamentação.
Se a mama estiver muito cheia e a aréola tensa, o Caderno recomenda tirar um pouco de leite com a mão antes da mamada.
Quais são as posições para amamentar?#
A Caderneta da Criança diz que a melhor posição "é aquela em que você e seu filho ficam confortáveis", com o bebê de frente para a mãe, barriga com barriga, bem apoiado e com os braços livres. O Guia Alimentar descreve cinco posições:
- Tradicional: mãe sentada, bebê bem junto, apoiado pelo braço do mesmo lado da mama oferecida.
- Tradicional invertida: mãe sentada, apoiando o bebê com o braço oposto ao da mama oferecida.
- Jogador de futebol americano: mãe sentada, bebê posicionado na lateral do corpo dela. O Caderno nº 23 a cita como recurso quando o bebê recusa uma das mamas.
- Cavalinho: mãe sentada, bebê apoiado no corpo dela na vertical.
- Deitada: mãe deitada, junto ao bebê.

O conforto da mãe também conta: o Caderno nº 23 orienta ficar relaxada e bem apoiada, sem se curvar, e apoiar os pés numa banquetinha. Para tirar o bebê do peito sem machucar, a Caderneta ensina a pôr o dedo mínimo no canto da boca dele, entre as gengivas.
Quantas vezes o bebê mama nos primeiros dias?#
Quantas ele quiser. O Ministério da Saúde recomenda a livre demanda: sem horários nem intervalos fixos, de dia e de noite, e sem limitar o tempo em cada mama. O Caderno nº 23 e a Caderneta da Criança dizem que o bebê em aleitamento exclusivo costuma mamar de 8 a 12 vezes por dia; o Guia Alimentar acrescenta "ou mais". O Caderno avisa que esse ritmo normal costuma ser confundido com fome ou "leite fraco".
Não é preciso esperar o choro. O Guia lista sinais de que o bebê quer mamar: movimentos com a boca e as mãos, balbuciar e sugar a mão. E orienta deixar o bebê esvaziar bem uma mama antes de oferecer a outra, até ele parar de sugar, soltar o peito ou adormecer. O leite do fim da mamada tem mais gordura e é o que sacia.
Colostro e descida do leite: o que esperar?#
O leite dos primeiros dias é o colostro, com mais proteínas e rico em anticorpos, segundo o Guia Alimentar. Muitas mães acham que é pouco. A SBP rebate: chamar a produção de colostro de pouca é "um pleonasmo vicioso". No primeiro dia, ela varia de 2 a 20 mL por mamada, o adequado para um estômago com capacidade em torno de 20 mL. O Caderno nº 23 completa que, mesmo ingerindo pouco colostro nos dois a três primeiros dias, recém-nascidos normais não precisam de outros líquidos.
A descida do leite, ou apojadura, ocorre em torno do 3º ao 5º dia após o parto, segundo o Guia, e pode vir antes ou depois. Até ela, explica o Caderno nº 23, a produção depende dos hormônios e acontece mesmo sem sucção; depois, depende de quantas vezes o bebê mama e de quanto ele esvazia a mama. Cesariana eletiva, parto prematuro e obesidade materna estão entre os fatores que o Guia associa à demora. O que muda no corpo da mãe nessas semanas está no texto sobre pós-parto e puerpério.
Como saber se o bebê está mamando bem?#
O Guia Alimentar responde: o bebê é ativo e responde aos estímulos; faz xixi no mínimo 6 vezes em 24 horas, com urina clara; e, principalmente, está crescendo e ganhando peso, o que se acompanha na Caderneta da Criança. O cocô não serve de régua: segundo o Guia, o bebê em amamentação exclusiva pode fazer várias vezes ao dia ou ficar alguns dias sem fazer. Golfar um pouco depois da mamada também é comum nos primeiros meses; o texto sobre refluxo em bebê mostra o que é normal e o que pede consulta.
E o peso? A Caderneta diz que é normal o bebê perder peso nos primeiros dias e recuperar o peso de nascimento por volta do décimo dia. O Guia Prático da SBP ressalva que perda de até 10% pode ser aceitável sem outros sinais de alerta, que perdas maiores pedem avaliação cuidadosa e que não é incomum o bebê seguir abaixo do peso de nascimento entre 10 e 14 dias. Por isso o peso é avaliado junto com o estado geral, as fraldas do dia e uma mamada completa.
O que evitar nos primeiros meses?#
O Guia Alimentar e o Caderno nº 23 apontam práticas que atrapalham:
- Água, chá, suco e outros leites antes dos 6 meses. O Guia diz que não são necessários nem em regiões secas e quentes: o bebê pode querer mamar mais vezes. O Caderno associa o uso deles ao desmame precoce. Outros leites, só com orientação profissional.
- Mamadeira. O jeito de sugar o peito e a mamadeira é diferente, qualquer que seja o bico, e o bebê pode passar a recusar o peito. O Caderno nº 23 explica que o leite do peito leva cerca de um minuto para começar a sair, espera que o bebê acostumado à mamadeira pode não tolerar. Se precisar oferecer leite ordenhado, prefira copinho ou colher.
- Chupeta. Segundo o Guia, o bebê que usa chupeta tende a mamar menos tempo no peito, e qualquer tipo, inclusive as "ortodônticas", pode alterar a boca e os dentes e favorecer o sapinho. As alternativas sugeridas são carinho, colo, cantar e amamentar.
- Protetores de mamilo de silicone, que a Caderneta da Criança também desaconselha.
Amamentar não deve doer. O Caderno nº 23 considera normal uma dor discreta ou moderada no começo das mamadas nos primeiros dias, que não deve passar da primeira semana; mamilos muito doloridos ou machucados não são normais. Dor, rachadura, mama empedrada e a sensação de pouco leite estão no texto sobre problemas comuns da amamentação.
Onde pedir ajuda para amamentar no SUS?#
Ninguém amamenta sozinha. O Guia Alimentar chama de rede de apoio as pessoas e instituições que ajudam a mulher a dividir tarefas da casa, cuidar das outras crianças, ir às consultas e receber orientação. "Ninguém pode amamentar pela mãe, mas isso não impede a participação de outras pessoas", diz o Guia.
Para ajuda profissional, o Guia indica as Unidades Básicas de Saúde, os ambulatórios e clínicas de amamentação e os bancos de leite humano e postos de coleta da Rede BLH, e lembra que algumas maternidades têm disque-amamentação ou plantão. Quem tiver leite sobrando e quiser doar pode procurar o banco mais próximo ou ligar no Disque Saúde, 136, orienta o Guia; o texto sobre o banco de leite humano explica como funciona. E o Guia alerta que informação de internet e redes sociais muitas vezes não se baseia em evidência.
Aos 6 meses, o guia de introdução alimentar mostra como começar a comida sem tirar o peito; mais adiante, o texto sobre desmame explica como parar aos poucos.
Quando procurar atendimento#
Procure a Unidade Básica de Saúde, a maternidade ou um serviço de urgência se:
- o bebê não consegue mamar, ou fica muito sonolento, com dificuldade para acordar, sinais de perigo da Caderneta da Criança para menores de 2 meses;
- o bebê tem febre de 37,5 °C ou mais, ou temperatura de 35,5 °C ou menos (Caderneta); veja mais sobre febre no bebê;
- o bebê faz pouco xixi (menos de 6 vezes em 24 horas, referência do Guia Alimentar) ou tem urina escura (Caderneta);
- a pele fica amarelada (icterícia): a Caderneta pede avaliação com urgência se o amarelo aparecer nas primeiras 24 horas de vida, for muito forte, se espalhar pelo corpo todo ou durar mais de duas semanas;
- a mãe tem parte da mama vermelha, inchada e dolorida, com dor no corpo, febre ou mal-estar: o Guia Alimentar orienta procurar um serviço de saúde imediatamente, porque pode ser mastite. O Caderno nº 23 associa febre acima de 38 °C e calafrios à forma infecciosa;
- a dor ao amamentar não melhora depois de corrigir a pega, ou continua além da primeira semana (Guia e Caderno nº 23).
Se houver sinal de perigo e dificuldade para chegar ao serviço, a Caderneta orienta ligar para o SAMU, 192. A ligação é gratuita.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. A avaliação da mamada, do ganho de peso do bebê e de qualquer dificuldade deve ser feita pela equipe de saúde que acompanha você e o seu filho.
Perguntas frequentes
Como saber se a pega do bebê está correta?
O Caderno de Atenção Básica nº 23, do Ministério da Saúde, lista quatro pontos-chave da pega adequada, destacados pela OMS: mais aréola visível acima da boca do bebê do que abaixo, boca bem aberta, lábio inferior virado para fora e queixo tocando a mama. O bebê deve abocanhar, além do mamilo, parte da aréola, e a deglutição costuma ser visível ou audível. Bochechas encovadas a cada sucção, estalos da língua e dor indicam técnica a corrigir.
Qual a melhor posição para amamentar?
A que deixa mãe e bebê confortáveis. O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos descreve cinco posições: sentada tradicional, tradicional invertida, jogador de futebol americano (bebê na lateral, sob o braço), cavalinho (bebê sentado, de frente) e deitada junto ao bebê. Em qualquer uma, o corpo do bebê fica virado para o da mãe, com cabeça e corpo alinhados, pescoço sem torcer e rosto de frente para a mama.
Quantas vezes por dia o recém-nascido deve mamar?
Em livre demanda, sem horário fixo, de dia e de noite. O Caderno de Atenção Básica nº 23 e a Caderneta da Criança dizem que o bebê em aleitamento materno exclusivo costuma mamar de 8 a 12 vezes ao dia, e o Guia Alimentar acrescenta que pode ser mais. Não é preciso esperar o choro: mexer a boca e as mãos, balbuciar e sugar a mão já são sinais de fome.
O colostro é suficiente para o bebê nos primeiros dias?
Sim, para o recém-nascido a termo e saudável. O Guia Prático de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria (2024) diz que, no primeiro dia, a produção de colostro varia de 2 a 20 mL por mamada, quantidade adequada a um estômago com capacidade em torno de 20 mL. O Caderno de Atenção Básica nº 23 afirma que, mesmo ingerindo pouco colostro nos primeiros dois a três dias, recém-nascidos normais não precisam de outros líquidos.
Quando acontece a descida do leite?
O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos situa a descida do leite, ou apojadura, em torno do terceiro ao quinto dia após o parto, e diz que ela pode vir antes ou depois. Até lá, segundo o Caderno de Atenção Básica nº 23, a produção depende dos hormônios; depois, depende de quantas vezes o bebê mama e de quanto ele esvazia a mama.
Como saber se o bebê está mamando o suficiente?
O Guia Alimentar do Ministério da Saúde orienta observar se o bebê é ativo e responde aos estímulos, se faz xixi no mínimo 6 vezes em 24 horas, com urina clara, e, principalmente, se está crescendo e ganhando peso, o que se acompanha na Caderneta da Criança. O número de cocôs varia muito e não é bom indicador. Choro, por si só, não prova falta de leite.
Posso dar água ou chá ao recém-nascido em dias quentes?
Não. O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos recomenda somente leite materno até os 6 meses, sem água, água de coco, chá, suco ou outros leites, mesmo em regiões secas e quentes, porque o leite materno tem toda a água de que o bebê precisa. Em dias quentes, ele pode querer mamar mais vezes. A Caderneta da Criança diz que água ou chá antes do 6º mês atrapalham a amamentação e aumentam o risco de o bebê adoecer.
Quando procurar atendimento nos primeiros dias de amamentação?
Segundo a Caderneta da Criança, procure o serviço de saúde se o bebê com menos de 2 meses não consegue mamar, está muito sonolento e difícil de acordar, tem febre de 37,5 °C ou mais, temperatura de 35,5 °C ou menos ou urina escura, e com urgência se a pele ficar amarelada nas primeiras 24 horas, muito amarela, no corpo todo ou por mais de duas semanas. Mama vermelha, inchada e dolorida com febre na mãe pede atendimento imediato, diz o Guia Alimentar.
Fontes consultadas
- 1.Saúde da Criança: Aleitamento Materno e Alimentação Complementar (Caderno de Atenção Básica nº 23, 2ª ed.): produção do leite, técnica de amamentação, início da amamentação e número de mamadas — Ministério da Saúde
- 2.Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos (2019): como amamentar, posições, práticas que facilitam e que prejudicam a amamentação e onde buscar ajuda — Ministério da Saúde
- 3.Guia Prático de Aleitamento Materno, atualizado (nº 165, 2024): primeira hora de vida e avaliação da perda de peso no período neonatal — Sociedade Brasileira de Pediatria
- 4.Caderneta da Criança, 6ª edição (2023): cuidados com o recém-nascido, sinais de perigo e amamentando o bebê — Ministério da Saúde
- 5.Infant and young child feeding (fact sheet) — Organização Mundial da Saúde


