Problemas comuns da amamentação: dor, fissura e pouco leite
Dor que passa da primeira semana não é normal, mama empedrada costuma aparecer do 3º ao 5º dia e a maioria das mulheres produz leite suficiente. O que o Ministério da Saúde, a SBP, a Febrasgo e a OMS orientam para fissura, ingurgitamento, ducto bloqueado, mastite, candidíase e sensação de pouco leite.
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Mamilo ardendo, mama dura e quente, a sensação de que o leite não basta: as dificuldades aparecem quando a mãe está mais cansada. O Caderno de Atenção Básica nº 23, do Ministério da Saúde, chama o trauma no mamilo de "importante causa de desmame", e o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos diz que a sensação de pouco leite é a razão mais comum para dar outros leites ao bebê. Quase tudo tem solução, e quase sempre começa pela pega.
Como encaixar o bebê está no texto sobre pega correta e posições para amamentar, publicado ontem. Aqui, o que fazer quando algo deu errado, segundo o Ministério da Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a Febrasgo e a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Dor ao amamentar é normal?#
Só no começo e de forma leve. O Caderno nº 23 considera normal uma dor discreta ou moderada no início das mamadas, nos primeiros dias após o parto, que não deve passar da primeira semana. Mamilos muito doloridos e machucados, "apesar de muito comuns", não são normais e pedem ajuda.
A causa mais comum é a pega ou o posicionamento inadequado. O Caderno cita outras: mamilos planos ou invertidos, freio de língua curto (a "língua presa"), bomba de extração mal usada, cremes e óleos que dão alergia, protetores de mamilo e forros úmidos.
Fissura no mamilo: como prevenir e tratar?#
O trauma mamilar inclui vermelhidão, inchaço, fissuras (as "rachaduras"), bolhas e marcas. Para prevenir, o Ministério da Saúde orienta:
- pega correta em todas as mamadas;
- mamilos secos, trocando os forros quando o leite vaza;
- nada de sabão, álcool ou produto secante, que tiram a proteção natural da pele;
- livre demanda: o bebê que mama aos primeiros sinais de fome suga com menos força;
- tirar um pouco de leite antes da mamada se a aréola estiver dura;
- para soltar o bebê, pôr o dedo mínimo no canto da boca dele;
- não usar protetores de mamilo, que, segundo o Caderno, não são eficazes e podem causar o machucado.
Se já machucou, o Caderno sugere começar pela mama menos dolorida, tirar um pouco de leite antes para o leite "descer" sem sucção forte e variar a posição. Limitar o tempo de mamada não ajuda. Analgésico pode entrar se a dor for importante, com escolha e dose do profissional. A melhor intervenção, diz o documento, é corrigir a pega.
E o que passar no mamilo? Quase nada. O Caderno recomenda enxaguar a fissura com água limpa após as mamadas, para evitar infecção, e afirma que, entre os produtos locais, só há base científica para compressas de água morna, que aliviam a dor. A lanolina purificada pode diminuir o desconforto sem infecção, mas não acelera a cicatrização.
O que não fazer: o Guia Alimentar desaconselha cremes, óleos, antissépticos, saquinho de chá, casca de banana ou mamão sobre as mamas, e diz que não há prova de que eles, ou o próprio leite, ajudem. Se a dor ficar insuportável, dá para pausar a mama machucada por um tempo, retirando o leite dela à mão ou com bomba.
O que é a mama empedrada (ingurgitamento)?#
Mama cheia antes da mamada é normal, diz o Guia. O problema é o ingurgitamento, o "leite empedrado": a mama fica tão cheia que a pele estica, endurece, pode ter caroços e, nos casos fortes, fica vermelha e brilhante, com febre e mal-estar. Segundo o Caderno nº 23, é mais frequente no primeiro filho, de três a cinco dias após o parto, e favorecido por início tardio da amamentação, mamadas espaçadas ou com horário e sucção ineficaz. Prevenir é amamentar cedo, em livre demanda, sem água, chás ou outros leites.
Quando já aconteceu, as fontes orientam:
- deixar o bebê mamar sempre que quiser, sem pressa;
- tirar um pouco de leite da aréola antes, para amolecer e facilitar a pega;
- massagear em círculos, com delicadeza, as áreas duras;
- usar sutiã de alças largas e firmes;
- fazer compressas frias entre as mamadas, por no máximo 20 minutos, por causa do efeito rebote (Caderno nº 23);
- se o bebê não mamar, retirar o leite à mão ou com bomba, o que também previne a mastite.
Ducto bloqueado: o caroço dolorido#
Quando o leite de uma área não sai direito, o canal entope. O Guia e o Caderno descrevem um caroço localizado, sensível e dolorido, com vermelhidão e calor no local, em geral sem febre, às vezes com um pontinho branco na ponta do mamilo. Causas: mamadas espaçadas, bebê que não esvazia a mama, sutiã apertado e cremes no mamilo.
O tratamento deve começar cedo, para não virar mastite: mamadas frequentes, oferecer primeiro a mama afetada, com o queixo do bebê apontado para o caroço, compressas mornas e massagem suave em direção ao mamilo. A OMS orienta repousar, amamentar com frequência pela mama afetada e procurar um profissional se não melhorar no dia seguinte.
Mastite: quando a mama inflama#
Mastite é a inflamação de uma parte da mama, que pode ou não virar infecção. A Febrasgo estima que atinja cerca de 2% a 10% das lactantes. Segundo o Caderno nº 23, é mais comum na segunda e na terceira semanas após o parto, começa com leite parado e tem na fissura a porta de entrada das bactérias.
Os sinais, pelo Guia Alimentar: parte da mama inchada, vermelha, quente e dolorida, com dor no corpo, febre e mal-estar. O Caderno associa febre acima de 38 °C e calafrios à forma infecciosa. O Guia é direto: a mulher deve procurar imediatamente um serviço de saúde.
E a amamentação não precisa ser interrompida. Esvaziar bem a mama é "o componente mais importante do tratamento", diz o Caderno, de preferência pelo próprio bebê, sem risco para o recém-nascido a termo saudável. A OMS afirma que parar de amamentar não ajuda a mãe a se recuperar e pode piorar o quadro; a Febrasgo lembra que não há indicação para secar o leite.
O antibiótico é decisão médica. O Caderno cita como indicações sintomas graves desde o início, fissura no mamilo e falta de melhora de 12 a 24 horas depois de o leite parado ser bem retirado. Remédio, dose e duração ficam com o profissional.
Abscesso mamário: a complicação#
Sem tratamento a tempo, a mastite pode virar abscesso, um acúmulo de pus. O Caderno nº 23 descreve dor intensa, febre, calafrios e uma área amolecida ao toque, e diz que ele é comum quando se para de amamentar na mama inflamada sem retirar o leite. Se não houver melhora 48 horas após o início do antibiótico, o Caderno manda considerar abscesso. O tratamento inclui drenagem feita por profissional, e o abscesso pode comprometer futuras amamentações em aproximadamente 10% dos casos. A mama sadia continua sendo oferecida.
Candidíase no mamilo#
A infecção por fungo na mama é "bastante comum" no pós-parto, segundo o Caderno nº 23. Os sinais: coceira, queimação e dor em agulhadas no mamilo que continuam depois da mamada, pele vermelha, brilhante ou descamando. O bebê costuma ter placas brancas na boca (o sapinho), que, ao contrário de restos de leite, não saem sem machucar. Umidade, mamilo machucado e uso de antibióticos favorecem o fungo.
O Caderno orienta tratar mãe e bebê ao mesmo tempo, com antifúngico receitado pelo profissional, manter os mamilos secos e arejados e ferver chupetas e bicos de mamadeira por 20 minutos ao menos uma vez ao dia, se não puderem ser eliminados.
"Pouco leite": percepção ou realidade?#
Quase sempre, percepção. O Guia Alimentar afirma que a maioria das mulheres produz leite suficiente, desde que o bebê sugue com frequência e boa pega, e responde ao mito: "Todo leite materno é adequado, não é fraco."
O Caderno nº 23 explica a armadilha: choro e mamadas frequentes, normais em bebês pequenos, parecem fome; vem outro leite, o bebê suga menos e a produção cai de verdade. Depois da descida do leite, quem regula a produção é o esvaziamento da mama.
Como saber se o bebê está bem? O Guia lista:
| Sinal | Bebê mamando o suficiente |
|---|---|
| Comportamento | Satisfeito após as mamadas, ativo, responde aos estímulos |
| Xixi | No mínimo 6 vezes em 24 horas, urina clara |
| Peso | Crescendo e ganhando peso na Caderneta da Criança |
| Cocô | Não serve de régua: varia de várias vezes ao dia a alguns dias sem |
Para o Caderno, o melhor indicador é o ganho de peso. Nos primeiros dias, o Guia Prático da SBP lembra que quase todo recém-nascido perde peso; até 10% pode ser aceitável sem outros sinais, e perdas maiores pedem avaliação cuidadosa.

Falta de leite real existe, mas é menos comum: a SBP cita a insuficiência glandular primária, em menos de 5% das mulheres, e doença ou cirurgia prévia na mama. Para aumentar a produção, o Guia e o Caderno orientam corrigir a pega, mamar mais vezes, inclusive à noite, oferecer as duas mamas, massagear a mama durante a mamada, retirar o leite que sobra, estimular o bebê sonolento, evitar mamadeira, chupeta e bico de silicone, comer bem, beber água para matar a sede (líquido em excesso não aumenta o leite) e descansar.
E os remédios, os galactogogos? O Caderno diz que há controvérsias e que eles ficam para casos selecionados, quando essas medidas falharam, como bebê adotado, relactação e mães de prematuros que ordenham. O Guia orienta não usar receitas caseiras nem medicamentos sem orientação. Indicação e dose são do profissional. Alimentação da mãe e remédios na amamentação estão no texto sobre alimentação e medicamentos na amamentação.
Quando o bebê recusa o peito#
Quando o bebê vira o rosto ou larga o peito, o Guia e o Caderno apontam bicos de mamadeira, chupetas, dor numa posição, mama empedrada, mamilo plano, língua presa e fluxo de leite forte demais. Na mastite, o leite fica mais salgado e o bebê pode estranhar.
Ajuda suspender bicos e chupetas e testar posições. Para a mama "recusada", o Caderno sugere a posição de jogador de futebol americano, com o bebê sob o braço; se ele seguir recusando um lado, dá para manter a amamentação exclusiva com uma mama só. Enquanto o bebê não sugar bem, o Guia orienta retirar o leite de 6 a 8 vezes por dia e oferecer no copo ou na colher. A recusa súbita em bebê maior, a "greve de amamentação", está no texto sobre desmame.
Onde buscar ajuda para amamentar?#
O Guia Alimentar indica as Unidades Básicas de Saúde, os ambulatórios e clínicas de amamentação, os bancos de leite humano e os postos de coleta. O Ministério da Saúde informa que os bancos de leite têm profissionais para auxiliar as mães na amamentação e que dúvidas podem ser tiradas no Disque Saúde, 136. O texto sobre o banco de leite humano explica como ele funciona; o de pós-parto e puerpério, das mudanças dessas semanas.
Quando procurar atendimento#
Procure a Unidade Básica de Saúde, a maternidade ou um serviço de urgência se:
- parte da mama estiver vermelha, quente, inchada e dolorida, com febre ou mal-estar: o Guia Alimentar manda procurar o serviço imediatamente;
- houver febre acima de 38 °C e calafrios (Caderno nº 23);
- a dor ficar intensa, com febre e uma área amolecida ou saída de pus: sinais de abscesso;
- um caroço ou a mama empedrada não melhorarem no dia seguinte (OMS);
- a dor nos mamilos passar da primeira semana, ou houver coceira e queimação que não cedem;
- o bebê fizer menos de 6 xixis em 24 horas, estiver perdendo peso ou sem ganhar ou não conseguir mamar. Se ele tiver febre, veja o texto sobre febre em criança e bebê.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. Dor, caroço, febre ou dúvida sobre o ganho de peso do bebê devem ser avaliados pela equipe de saúde que acompanha você e o seu filho.
Perguntas frequentes
É normal sentir dor ao amamentar?
Só no começo e de forma leve. O Caderno de Atenção Básica nº 23, do Ministério da Saúde, considera normal uma dor discreta ou moderada nos mamilos no início das mamadas, nos primeiros dias após o parto, que não deve passar da primeira semana. Mamilos muito doloridos ou machucados não são normais e pedem ajuda. A causa mais comum é a pega ou o posicionamento inadequado do bebê.
O que passar no bico do peito rachado?
Quase nada. O Caderno de Atenção Básica nº 23 diz que, entre os produtos de uso local, só há base científica para compressas de água morna, que aliviam a dor, e recomenda enxaguar a fissura com água limpa após as mamadas. Cremes, óleos, antissépticos e saquinho de chá devem ser evitados. O Guia Alimentar do Ministério da Saúde acrescenta casca de banana ou mamão à lista e diz que não há prova de que o próprio leite ajude.
O que fazer quando o leite empedra?
Segundo o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, o primeiro passo é deixar o bebê mamar sempre que quiser, sem horário. Ajudam massagens suaves em círculos, retirar um pouco de leite antes da mamada para amolecer a aréola e usar sutiã de alças largas e firmes. O Caderno de Atenção Básica nº 23 cita compressas frias entre as mamadas, por no máximo 20 minutos.
Quais são os sinais de mastite?
Uma parte da mama fica inchada, vermelha, quente e dolorida, em geral com dor no corpo, febre e mal-estar, descreve o Guia Alimentar do Ministério da Saúde. O Caderno de Atenção Básica nº 23 associa febre acima de 38 °C e calafrios à forma infecciosa. Com esses sintomas, o Guia orienta procurar um serviço de saúde imediatamente. A amamentação não precisa ser interrompida durante o tratamento.
Posso continuar amamentando com mastite?
Sim. O Guia Alimentar do Ministério da Saúde afirma que a amamentação não precisa ser interrompida durante o tratamento, e o Caderno de Atenção Básica nº 23 diz que esvaziar bem a mama é a parte mais importante do tratamento, de preferência pelo próprio bebê. A Organização Mundial da Saúde acrescenta que parar de amamentar durante a mastite não ajuda a mãe a se recuperar e pode piorar o quadro.
Como saber se tenho pouco leite de verdade?
Pelo bebê, não pelo peito. Segundo o Guia Alimentar do Ministério da Saúde, se ele parece satisfeito após as mamadas, é ativo, faz xixi no mínimo 6 vezes ao dia e está ganhando peso na Caderneta da Criança, o leite é suficiente. Choro e alguns dias sem cocô não provam falta de leite. O Caderno de Atenção Básica nº 23 diz que o melhor indicador é o ganho de peso.
Existe remédio para aumentar o leite?
Existem medicamentos chamados galactogogos, mas o Caderno de Atenção Básica nº 23 diz que há controvérsias sobre o uso e que eles ficam para casos selecionados, quando as medidas de mamada não funcionaram, como adoção, relactação e mães de prematuros. O Guia Alimentar orienta consultar um profissional de saúde e não usar receitas caseiras nem remédios sem orientação. Indicação e dose são do profissional.
Onde buscar ajuda para problemas na amamentação pelo SUS?
O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos indica as Unidades Básicas de Saúde, os ambulatórios e clínicas de amamentação, os bancos de leite humano e os postos de coleta da Rede BLH. O Ministério da Saúde informa que os bancos de leite têm profissionais para auxiliar as mães no período da amamentação e que dúvidas podem ser tiradas pelo Disque Saúde, no 136.
Fontes consultadas
- 1.Saúde da Criança: Aleitamento Materno e Alimentação Complementar (Caderno de Atenção Básica nº 23, 2ª ed.): capítulo 9, prevenção e manejo dos principais problemas relacionados à amamentação — Ministério da Saúde
- 2.Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos (2019): principais dificuldades na amamentação e perguntas e respostas — Ministério da Saúde
- 3.Guia Prático de Aleitamento Materno, atualizado (nº 165, 2024): avaliação da perda de peso no período neonatal imediato — Sociedade Brasileira de Pediatria
- 4.Mastite puerperal — Febrasgo
- 5.Mastitis: causes and management (WHO/FCH/CAH/00.13) — Organização Mundial da Saúde
- 6.Doação de leite — Ministério da Saúde


