Desmame: Quando e Como Fazer Sem Trauma
O desmame natural costuma acontecer, em média, entre 2 e 4 anos, e raramente antes de 1 ano. Quando a mãe precisa conduzir, o Ministério da Saúde e a SBP orientam tirar uma mamada a cada 1 a 2 semanas. Sinais de prontidão, cuidados com a mama, direitos no trabalho e o que oferecer no lugar.
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A dúvida costuma chegar quando alguém diz que a criança "já está grande para mamar" ou quando a licença-maternidade está acabando. O Ministério da Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) respondem do mesmo jeito: o desmame é um processo, não um evento, e o modo de fazer importa tanto quanto a data.
Até quando amamentar?#
O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, recomenda amamentar por 2 anos ou mais, com somente leite materno nos primeiros 6 meses, sem água, chá, suco ou outros leites. A OMS e o Unicef recomendam o mesmo, com outros alimentos a partir dos 6 meses.
Existe um teto? O Guia responde: "não há tempo máximo estabelecido para o fim da amamentação. Ela pode durar enquanto for desejada pela mulher e pela criança, desde que não haja nenhum prejuízo para ambas". A SBP, no Guia Prático de Aleitamento Materno de 2024, acrescenta que não cabe ao pediatra recomendar o desmame, a não ser por desejo da mulher ou necessidade.
Depois do primeiro aniversário, o leite materno continua alimentando. Segundo a OMS, ele pode fornecer metade ou mais da energia de que a criança precisa entre 6 e 12 meses e um terço entre 12 e 24 meses. O Caderno de Atenção Básica nº 23 estima que dois copos (500 mL) de leite materno no segundo ano fornecem 95% da vitamina C, 45% da vitamina A, 38% da proteína e 31% da energia de que a criança precisa. E a prática cresce no Brasil: a SBP registra que as crianças amamentadas aos 12 a 14 meses passaram de 22,7% em 1986 para 53,1% em 2019.
Desmame natural ou desmame conduzido pela mãe?#
No desmame natural, explica o Caderno de Atenção Básica nº 23, a criança se autodesmama, em média entre 2 e 4 anos e raramente antes de 1 ano. Costuma ser gradual, mas pode ser súbito, por exemplo quando a mãe engravida e o leite muda de gosto e de volume. A mãe participa: sugere passos quando a criança está pronta e impõe limites adequados à idade.
O desmame conduzido pela mãe (a SBP chama de "provocado") acontece quando a mulher quer ou precisa parar antes. As fontes não tratam isso como erro. O Guia Alimentar diz que cabe apenas à mulher e à criança decidir, e que a decisão "deve ser respeitada e apoiada por todos".
Não confunda autodesmame com greve de amamentação. Segundo o Caderno nº 23, ela aparece de repente, sobretudo antes de 1 ano, e quase sempre tem causa: doença, dentição, menos leite ou leite com outro sabor, estresse, excesso de mamadeira ou chupeta. Costuma durar no máximo 2 a 4 dias.
Quais sinais mostram que a criança está pronta?#
O Caderno nº 23 e a SBP trazem a mesma lista. A criança está ficando madura para o desmame quando:
- tem mais de um ano (o Caderno inclui a idade);
- mostra menos interesse nas mamadas;
- aceita uma variedade de outros alimentos;
- é segura na relação com a mãe;
- aceita outras formas de consolo além do peito;
- aceita não mamar em certas ocasiões e locais;
- às vezes dorme sem mamar;
- mostra pouca ansiedade quando é encorajada a não mamar;
- às vezes prefere brincar com a mãe em vez de mamar.
Para a SBP, esses sinais importam mais que a idade. E o Guia Alimentar diz que, em geral, o desmame é mais fácil, e não mais difícil, em crianças maiores.
Como fazer o desmame de forma gradual?#
O desmame abrupto deve ser desencorajado. Segundo o Caderno nº 23, a criança que não está pronta pode se sentir rejeitada, com insegurança e rebeldia; na mãe, parar de repente pode precipitar ingurgitamento mamário (o "leite empedrado"), estase do leite e mastite, além de tristeza ou depressão.
A regra prática, no Caderno nº 23 e no Guia Prático da SBP, é retirar uma mamada do dia a cada 1 a 2 semanas, sempre que possível. O que facilita:
| O que ajuda | Por quê |
|---|---|
| Ter certeza de que quer (ou precisa) desmamar | Sem isso, o Guia Alimentar diz que fica mais difícil conduzir |
| Planejar com flexibilidade | O curso é imprevisível; às vezes é preciso recuar |
| Dar atenção extra à criança | A mãe deve evitar se afastar, como viajar, nesse período |
| Não começar junto com outras mudanças | Desfralde, separações, lutos e mudança de casa pesam juntos |
| Envolver o pai, quando presente | A SBP destaca a participação ativa dele |
As técnicas descritas pelas fontes:
- Não oferecer o peito, mas também não recusar.
- Encurtar e adiar as mamadas.
- Restringir as mamadas a certos horários e locais.
- Distrair a criança na hora em que ela costumava mamar.
- Evitar o que lembra a mamada, como sentar na poltrona de amamentar.
- Com criança maior, combinar uma data e até planejar uma comemoração.
O que não fazer também está escrito: o Guia Alimentar não recomenda passar pimenta ou outro produto de gosto ruim nos mamilos, nem fazer curativos na mama para parecer que ela está ferida. Se a ansiedade for grande demais, o Caderno nº 23 diz que pode ser melhor adiar um pouco.

Como cuidar das mamas durante o desmame?#
Tirar as mamadas devagar já protege as mamas: o Caderno nº 23 lista a redução súbita no número de mamadas e o desmame abrupto entre os fatores que deixam o leite parado e favorecem a mastite.
Se a mama ficar muito cheia, o Guia Alimentar orienta que retirar um pouco de leite alivia o desconforto. Para o ingurgitamento, o Caderno nº 23 descreve massagens delicadas, sutiã de alças largas e firmes e compressas frias por no máximo 20 minutos, para evitar efeito rebote. O Caderno cita analgésicos, mas a escolha e a dose são do profissional.
Fique atenta à mastite: parte da mama inchada, vermelha, quente e dolorida, com dor no corpo, febre e mal-estar. O Guia Alimentar é direto: com esses sintomas, procure imediatamente um serviço de saúde. Sem tratamento a tempo, a mastite pode virar abscesso, que o Caderno nº 23 diz ser comum quando se interrompe a amamentação na mama afetada sem esvaziar o leite.
E os remédios para "secar o leite"? O Caderno nº 23 cita a bromocriptina e a cabergolina entre os medicamentos que reduzem a produção de leite, e afirma que drogas para suprimir a lactação não estão indicadas quando a mãe quer continuar amamentando. As fontes não os apresentam como parte do desmame comum; indicação e dose são decisão médica.
O corpo e as emoções da mãe também mudam#
O Caderno nº 23 avisa que podem mudar o tamanho das mamas e o peso, e que os sentimentos variam: alívio, paz, tristeza, culpa e luto pela perda da amamentação ou por mudanças hormonais.
Se a tristeza não passa, procure a Unidade Básica de Saúde ou um CAPS. O texto sobre pós-parto e puerpério mostra os sinais que pedem ajuda. Em crise, o Ministério da Saúde indica o SAMU 192, a UPA e o pronto-socorro, e o CVV atende pelo 188, de graça, 24 horas, com sigilo.
Voltar ao trabalho obriga a desmamar?#
Na maior parte dos casos, não. O Guia Alimentar afirma que é possível manter a amamentação quando a mãe volta a trabalhar, retirando e guardando o leite. O Caderno nº 23 orienta começar o estoque 15 dias antes do retorno; o leite cru dura 12 horas na geladeira e 15 dias no freezer. Se sobrar leite e você pensar em doar, o texto sobre banco de leite humano explica quem pode doar e como funciona a coleta.
Os direitos listados pelas duas publicações:
- Licença-maternidade de 120 dias, pela Constituição, que pode chegar a 180 dias na maioria dos órgãos públicos e nas empresas do Programa Empresa Cidadã;
- Estabilidade desde a confirmação da gravidez até 5 meses após o parto;
- Pausas para amamentar: pela CLT (artigo 396), dois descansos de meia hora por dia até a criança completar 6 meses, além dos intervalos normais. Dá para negociar juntar os dois e sair uma hora mais cedo ou chegar uma hora mais tarde;
- Creche: empresas com mais de 30 mulheres com mais de 16 anos devem ter local para os filhos no período de amamentação (CLT, artigo 389);
- Sala de apoio à amamentação, que qualquer empresa pode ter.
O Guia lembra que essas leis não alcançam quem trabalha na informalidade. Se um direito for negado, a orientação é procurar o Ministério Público da sua cidade.
O que oferecer no lugar do peito, conforme a idade?#
Antes de 6 meses. A orientação depende da idade e de quanto leite materno a criança ainda recebe, e a equipe de saúde deve ser procurada. Para a criança não amamentada, o Guia Alimentar diz que a primeira alternativa é a fórmula infantil. Se a família usar leite de vaca integral, ele precisa ser modificado em casa antes dos 4 meses, com orientação profissional, e a criança precisa de suplementação de vitaminas e minerais. O leite de vaca tem proteína e sais em excesso para os rins do bebê, pouca vitamina A, D e C, e um ferro mal aproveitado, o que pode levar à anemia.
De 4 a 9 meses, sem peito. Com leite de vaca, o Guia indica outros alimentos a partir dos 4 meses e um total de leite que não passe de 500 mL por dia, pelo risco de anemia. Com fórmula, os novos alimentos começam aos 6 meses, e a partir dos 9 meses a fórmula pode ser trocada por leite de vaca integral.
Depois dos 6 meses, ainda mamando. Não é preciso dar leite de vaca nem fórmula para completar o peito, diz o Guia: quem complementa é a comida da família. O passo a passo está no guia de introdução alimentar.
Entre 1 e 2 anos, já desmamada. O Guia sugere leite de vaca integral com fruta, pão, cuscuz ou tubérculos no café e no lanche, e a comida da família no almoço e no jantar.
Três alertas do Guia: leite desnatado e semidesnatado não são indicados para menores de 2 anos; compostos lácteos não substituem leite materno nem fórmula e não são indicados antes dos 2 anos; e leite ou água devem ir em copo, xícara ou colher, não em mamadeira.
Quando procurar atendimento#
Procure a Unidade Básica de Saúde, ou um serviço de urgência se houver febre alta e piora rápida, quando:
- parte da mama ficar vermelha, quente, inchada e dolorida, com febre ou mal-estar: o Guia Alimentar orienta procurar o serviço imediatamente, porque pode ser mastite;
- houver febre acima de 38 °C e calafrios, que o Caderno nº 23 associa à mastite infecciosa;
- a dor ficar intensa, com febre e uma área amolecida na mama, ou os sintomas não melhorarem com o tratamento: o Caderno descreve esse quadro no abscesso mamário, que exige intervenção rápida;
- o bebê com menos de 6 meses passar a receber outro leite: o Guia diz que ele precisa de acompanhamento adicional do crescimento e de orientação profissional;
- a criança só quiser o peito e aceitar muito pouco de outros alimentos: o Guia aconselha buscar ajuda profissional para lidar com isso sem precisar desmamar;
- você sentir tristeza persistente, culpa ou desânimo depois do desmame: procure a UBS ou um CAPS e, em crise, o SAMU 192 ou o CVV, no 188.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. As decisões sobre o desmame, a alimentação da criança e os problemas na mama devem ser tomadas com a equipe de saúde que acompanha você e o seu filho.
Perguntas frequentes
Até que idade a criança deve mamar no peito?
O Ministério da Saúde, a Organização Mundial da Saúde e a Sociedade Brasileira de Pediatria recomendam leite materno exclusivo nos primeiros 6 meses e amamentação continuada até 2 anos ou mais, com outros alimentos a partir dos 6 meses. O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos afirma que não há tempo máximo estabelecido: a amamentação pode durar enquanto for desejada pela mulher e pela criança, desde que não haja prejuízo para nenhuma das duas.
Quais são os sinais de que a criança está pronta para o desmame?
O Caderno de Atenção Básica nº 23, do Ministério da Saúde, lista: idade maior que um ano, menos interesse nas mamadas, aceitar variedade de outros alimentos, segurança na relação com a mãe, aceitar outras formas de consolo, aceitar não mamar em certas ocasiões e locais, às vezes dormir sem mamar, pouca ansiedade quando encorajada a não mamar e, às vezes, preferir brincar com a mãe a mamar. A SBP traz a mesma lista e diz que esses sinais importam mais que a idade.
Como desmamar de forma gradual?
O Caderno de Atenção Básica nº 23 e o Guia Prático da SBP orientam, sempre que possível, retirar uma mamada do dia a cada 1 a 2 semanas. Ajudam: não oferecer o peito, mas também não recusar; encurtar e adiar mamadas; limitar as mamadas a certos horários e locais; distrair a criança na hora em que ela costumava mamar; e evitar a poltrona onde ela mamava. Com criança maior, dá para combinar uma data e até uma comemoração.
Desmamar de uma vez faz mal?
O desmame abrupto deve ser desencorajado, segundo o Caderno de Atenção Básica nº 23 e a Sociedade Brasileira de Pediatria. Na criança que não está pronta, pode gerar sensação de rejeição, insegurança e rebeldia. Na mãe, pode precipitar ingurgitamento mamário (leite empedrado), estase do leite e mastite, além de tristeza, depressão, culpa e luto pela perda da amamentação.
Pode passar pimenta ou fazer curativo no peito para a criança largar?
Não. O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, diz que não se recomendam métodos que alterem o sabor do leite ou façam a criança rejeitar o peito, como pimenta ou outro produto de gosto ruim nos mamilos, nem curativos na mama para parecer que ela está ferida. O processo deve ser gradual, com tempo, paciência e atenção extra à criança.
O que oferecer no lugar do leite materno antes de 1 ano?
Depende da idade e deve ser orientado pela equipe de saúde. O Guia Alimentar do Ministério da Saúde diz que, para a criança não amamentada, a primeira alternativa é a fórmula infantil. Se a família usar leite de vaca integral, ele precisa ser modificado em casa antes dos 4 meses, conforme orientação profissional, e a criança precisa de suplementação de vitaminas e minerais. Leite desnatado, semidesnatado e compostos lácteos não são indicados para menores de 2 anos.
Quem volta ao trabalho precisa desmamar?
Não necessariamente. O Guia Alimentar do Ministério da Saúde afirma que, na maior parte dos casos, é possível manter a amamentação quando a mãe volta a trabalhar, retirando e guardando o leite. Quem tem carteira assinada tem direito, pela CLT, a dois descansos de meia hora por dia para amamentar até a criança completar 6 meses, além da licença-maternidade de 120 dias e da estabilidade até 5 meses após o parto.
Existe remédio para secar o leite?
O Caderno de Atenção Básica nº 23 cita a bromocriptina e a cabergolina entre os medicamentos que reduzem a produção de leite, e diz que o uso de drogas para suprimir a lactação não está indicado quando a mãe deseja continuar amamentando. As fontes consultadas não trazem esses remédios como parte do desmame comum, que é feito de forma gradual. A indicação, se houver, é decisão médica, e a dose é do profissional.
Fontes consultadas
- 1.Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos (2019): amamentação, desmame, volta ao trabalho, crianças não amamentadas e direitos — Ministério da Saúde
- 2.Saúde da Criança: Aleitamento Materno e Alimentação Complementar (Caderno de Atenção Básica nº 23, 2ª ed.): capítulo 14, ajuda à dupla mãe/bebê no processo do desmame — Ministério da Saúde
- 3.Guia Prático de Aleitamento Materno, atualizado (nº 165, 2024): Como e quando desmamar — Sociedade Brasileira de Pediatria
- 4.Infant and young child feeding (fact sheet) — Organização Mundial da Saúde
- 5.Prevenção do suicídio: onde buscar ajuda (CAPS, UBS, SAMU 192 e CVV 188) — Ministério da Saúde


