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Plano Alimentar

Café da Manhã Saudável: o Que Comer e se é Mesmo Obrigatório Tomar

Revisões de ensaios clínicos não mostram que o café da manhã ajude a emagrecer nem que pular engorde, e a evidência é de qualidade baixa a moderada. Veja o que o Guia Alimentar do Ministério da Saúde põe na primeira refeição, combinações com comida de verdade, o que deixar de fora e quem não deve pular.

Escrito por

Redação Blog com Saúde

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Publicado em ·10 min de leitura

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Prato branco com gomos de tangerina e rodelas de banana, uma banana inteira ao lado e uma xícara branca de café preto sobre fundo verde-acinzentado
Prato branco com gomos de tangerina e rodelas de banana, uma banana inteira ao lado e uma xícara branca de café preto sobre fundo verde-acinzentado

Para controlar o peso, tomar café da manhã não é obrigatório. As revisões de ensaios clínicos não mostram que a primeira refeição do dia ajude a emagrecer nem que pulá-la engorde, e a qualidade dessa evidência vai de baixa a moderada. O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, trata o café da manhã como uma das três refeições principais e mostra como ele é entre os brasileiros que comem bem: uma fruta inteira, café com leite ou leite e uma base de cereal ou de mandioca, como cuscuz, tapioca, bolo caseiro ou pão. Para quem toma, o que faz diferença é trocar os ultraprocessados por comida de verdade.

Parte dos cafés da manhã de exemplo do Guia, ao lado do modelo de almoço e jantar, está no texto sobre como montar um prato saudável. Aqui entram a pergunta sobre a obrigação, o que cada parte da refeição deve ter e o que deixar de fora.

Tomar café da manhã é obrigatório?#

O Guia Alimentar não traz nenhuma regra sobre pular a primeira refeição. Ele apresenta o café da manhã como uma das três refeições principais, ao lado do almoço e do jantar, e mostra que, entre os brasileiros que baseiam a alimentação em comida de verdade, essas três refeições fornecem cerca de 90% das calorias do dia. No capítulo sobre o ato de comer, a orientação é "procure fazer suas refeições diárias em horários semelhantes", sem "beliscar" nos intervalos. O protocolo de 2021 em que o Ministério da Saúde orienta os profissionais da atenção primária pede que eles valorizem "as três principais refeições do dia".

A fama de refeição mais importante do dia, porém, veio sobretudo de estudos observacionais, que comparam quem toma café da manhã com quem não toma. Quando os pesquisadores sortearam quem comeria e quem pularia a refeição, o quadro mudou:

Tipo de estudoO que encontrouConfiança na evidência
13 ensaios clínicos com adultos de países de renda alta, reunidos numa revisão publicada no BMJ em 2019Quem foi sorteado para tomar café da manhã comeu cerca de 260 calorias a mais por dia e pesou 0,44 kg a mais do que quem pulou. O acompanhamento foi curto: 7 semanas, em média, nos estudos que mediram o pesoBaixa, segundo os autores
11 estudos, 10 deles ensaios clínicos, reunidos numa revisão publicada na Frontiers in Endocrinology em 2023Pular o café da manhã reduziu o peso em 0,66 kg, em média, e aumentou o colesterol LDL em cerca de 10 mg/dL. Pressão arterial e glicemia não mudaramBaixa ou moderada na maior parte dos resultados, pela escala GRADE
9 estudos observacionais que acompanharam adultos por 5 a 18 anos, reunidos numa revisão publicada na Nutrients em 2021Numa análise com dois desses estudos, pular o café da manhã 3 dias por semana ou mais esteve associado a risco 11% maior de sobrepeso ou obesidade, em comparação com pular 2 dias ou menos. Na variação do IMC, outra análise não achou diferençaMuito baixa, pela escala NutriGRADE

Os dois tipos de estudo têm limites opostos. Os ensaios permitem falar em causa, mas foram pequenos e, na maioria, duraram semanas. Os observacionais acompanharam muita gente por anos, mas não conseguem separar o café da manhã do resto da rotina: a revisão de 2021 lembra que quem pula essa refeição tende a fazer menos atividade física, dormir pior e consumir mais açúcar adicionado. Os ensaios também contrariam a ideia de que quem pula o café da manhã compensa depois: na revisão do BMJ, os dados não sustentaram que a omissão leve a comer mais no resto do dia.

Na prática, tomar café da manhã para emagrecer não tem respaldo, e pular para emagrecer também não é uma boa aposta. A diferença média de peso ficou abaixo de 1 kg, e os autores da revisão de 2023 chamam a estratégia de "má ideia" por causa do aumento do LDL, uma conclusão que pede cautela, porque esse dado veio de poucos estudos, a maioria com poucas dezenas de participantes. Para adultos saudáveis, a evidência não dá motivo para se forçar a comer sem fome nem para cortar a refeição por causa do peso. O que o Guia cobra é a qualidade do que se come ao longo do dia.

O que o Guia Alimentar põe no café da manhã?#

Os oito cafés da manhã de exemplo do Guia vêm de brasileiros que baseiam a alimentação em alimentos in natura ou minimamente processados, e todos seguem a mesma estrutura. Todos têm uma fruta inteira. Cinco têm café com leite; nos outros três, a bebida é leite puro, café puro ou suco de laranja natural. A base muda conforme a região: cuscuz, tapioca, bolo de milho, bolo de mandioca, pão de queijo, pão integral ou pão francês, com queijo, manteiga e, em um dos exemplos, ovo.

O que o Guia diz sobre cada parte:

Parte da refeiçãoO que o Guia diz
FrutaÉ um dos "componentes importantes do café da manhã". Inteira é melhor do que em suco, que perde fibras no preparo e sacia menos. Banana, mamão, manga, melão e ameixa aparecem nos exemplos
Leite e iogurteNo Brasil, o leite é consumido "frequentemente na primeira refeição do dia, puro, com frutas ou com café". Para adultos, as versões desnatada e semidesnatada podem ser mais adequadas. Iogurte natural é minimamente processado; o adoçado e aromatizado é ultraprocessado
Café e cháFazem parte da cultura alimentar brasileira, mas "convém não adicionar açúcar ou, pelo menos, reduzir a quantidade ao mínimo"
BaseCereais, raízes e tubérculos: cuscuz e bolo de milho, tapioca e bolo de mandioca, pães. Em algumas regiões, mandioca e batata-doce substituem o pão, e a tapioca também. Entre os cereais, o Guia prefere as versões menos processadas, como a farinha de trigo integral
Pão, queijo e manteigaO pão feito de farinha, fermento, água e sal e o queijo são alimentos processados: entram em pequenas quantidades, como parte da refeição. A manteiga está entre as gorduras de cozinha, também para usar pouco
OvoÉ acessível, relativamente barato e versátil: cozido, mexido ou em omelete

Que combinações dá para montar?#

Com essas peças, diz o Guia, os exemplos podem ser multiplicados "indefinidamente". Algumas combinações para situações comuns, todas com alimentos e preparações que o Guia e o protocolo de 2021 citam:

SituaçãoCombinação
Pouco tempo de manhãIogurte natural com fruta picada e aveia, ou vitamina de fruta com leite. O protocolo sugere congelar frutas maduras para usar nas vitaminas
Fome maiorCuscuz de milho ou mandioca cozida, com ovo, uma fruta e café com leite
Quem gosta de pãoPão com um pouco de queijo ou manteiga, fruta e café com leite. Prefira o pão de receita simples, só com farinha, fermento, água e sal
Vontade de doceBolo caseiro de milho ou de mandioca com fruta. Bolo pronto e mistura para bolo estão na lista de ultraprocessados do Guia
Sem fome ao acordarUma fruta fácil de levar, como banana, maçã ou tangerina, para comer quando a fome chegar. O protocolo cita essas frutas para os lanches fora de casa
Tapioca dobrada ao meio, recheada com carne seca desfiada, num prato branco ao lado de uma xícara pequena de café preto sobre mesa de madeira escura
Em algumas regiões, diz o Guia Alimentar, a tapioca substitui o pão no café da manhã. O recheio de carne seca é um alimento processado e entra em pouca quantidade. · Foto: Unsplash

O que deixar de fora?#

A prateleira do café da manhã é das mais cheias de ultraprocessados. Estes estão na lista do Guia Alimentar:

  • cereais açucarados "para o desjejum matinal" e barras de cereal;
  • bolos prontos e misturas para bolo;
  • pão de forma, pães doces e outros panificados com gordura vegetal hidrogenada, açúcar, amido, soro de leite ou emulsificantes;
  • biscoitos de vários tipos;
  • iogurtes e bebidas lácteas adoçados e aromatizados;
  • refrescos e pós para refresco; os sucos e bebidas de fruta industrializados, diz o Guia, tendem a ser ultraprocessados;
  • salsicha e outros embutidos, grupo em que o protocolo de 2021 inclui presunto, mortadela e salame.

Parte desses produtos se vende como opção leve. Segundo o Guia, a barra de cereal tem cerca de 4 calorias por grama, e os ultraprocessados em geral têm de duas a cinco vezes mais calorias por grama do que a "tradicional mistura de duas partes de arroz para uma de feijão". Os cereais açucarados também pesam na conta de açúcar do dia; o limite da OMS para adultos está no texto sobre quanto açúcar um adulto pode consumir.

Os rótulos "integral", "rico em fibras", "light" e "diet" não mudam a categoria. O protocolo de 2021 alerta que ultraprocessados integrais, como o pão integral empacotado, ou com essas alegações devem ser evitados do mesmo jeito, porque é comum a gordura cair à custa de mais açúcar, ou o contrário. Para conferir, o Guia manda olhar a lista de ingredientes: muitos itens, frequentemente cinco ou mais, e sobretudo nomes que não se usam em casa, como aromatizante, emulsificante ou xarope de frutose, indicam ultraprocessado. O passo a passo está no texto sobre como diferenciar in natura, processado e ultraprocessado, e a leitura da lupa "ALTO EM" e da tabela, no texto sobre rotulagem nutricional.

E quem não sente fome de manhã?#

A evidência não obriga ninguém a comer sem fome. Se você costuma pular o café da manhã, três orientações do Guia ajudam a manter o resto do dia em ordem:

  • Horários parecidos para as outras refeições, sem "beliscar" entre elas.
  • Fruta e castanha ao alcance da mão, em vez de guloseimas e salgadinhos. O Guia explica que a vontade de comer a qualquer hora fica mais forte quando há ultraprocessados à vista e recomenda ter por perto frutas frescas ou secas e castanhas ou nozes.
  • Comer sentado e com atenção. O Guia desaconselha comer em pé, andando ou dentro de carros e transportes públicos. Para quem sai cedo, levar uma fruta e comê-la ao chegar atende às duas orientações.

Se o motivo é falta de tempo, vale o que o Guia propõe para esse obstáculo: planejar o que se vai comer na semana, adiantar o que for possível e dividir as tarefas da casa.

Quando procurar atendimento#

Decidir o que pôr na mesa do café da manhã não exige consulta. Procure a unidade básica de saúde se:

  • você tem diabetes e usa insulina ou remédio que baixa a glicose: o Caderno de Atenção Básica sobre diabetes, do Ministério da Saúde, lista o atraso ou a omissão de refeições entre os fatores de risco para hipoglicemia, a queda do açúcar no sangue. Não mude o horário das refeições sem falar com a equipe;
  • tem colesterol alto: os ensaios viram o LDL subir um pouco em quem pulava o café da manhã, e o texto sobre colesterol alto explica como o risco é avaliado;
  • tem outra doença em que a alimentação faz parte do tratamento: o Guia diz ser "imprescindível" que nutricionistas adaptem as recomendações a cada pessoa;
  • quer perder peso: a meta realista e o que o SUS oferece estão no texto sobre como emagrecer de forma saudável;
  • está com dificuldade para comprar comida: o protocolo de 2021 orienta os profissionais a buscar a assistência social, e o texto sobre comer bem gastando pouco reúne os programas públicos que ajudam.

Para crianças e adolescentes, a orientação sobre o café da manhã é do pediatra.

Este texto é informativo e não substitui a consulta.

Perguntas frequentes

Pular o café da manhã engorda?

Os ensaios clínicos não mostram isso. Uma revisão de 13 ensaios publicada no BMJ em 2019 encontrou peso 0,44 kg menor em quem foi sorteado para pular a refeição, em acompanhamentos de poucas semanas, e uma revisão de 11 estudos, quase todos ensaios clínicos, publicada na Frontiers in Endocrinology em 2023, encontrou 0,66 kg a menos. Estudos observacionais associam o hábito a mais sobrepeso, mas a revisão desses estudos publicada na Nutrients em 2021 classificou a evidência como muito baixa e lembra que quem pula o café da manhã tende a ter outros hábitos que pesam, como fazer menos atividade física.

Tomar café da manhã acelera o metabolismo?

Os ensaios clínicos não mostraram isso. Na revisão publicada no BMJ em 2019, quatro estudos compararam o gasto de energia de quem tomava e de quem pulava o café da manhã e não encontraram diferença significativa. Os autores também não acharam sinal de que pular a refeição faça a pessoa comer mais no resto do dia: quem tomou café da manhã terminou o dia com cerca de 260 calorias a mais, em média.

Pão francês no café da manhã é saudável?

Pode fazer parte. O Guia Alimentar do Ministério da Saúde usa suco de laranja natural, pão francês com manteiga e mamão num dos seus cafés da manhã de exemplo. Pela classificação do Guia, o pão feito de farinha de trigo, fermento, água e sal é alimento processado e deve ser consumido em pequenas quantidades, junto de alimentos in natura, como a fruta. Pão de forma e pães doces com gordura vegetal hidrogenada, açúcar, amido, soro de leite ou emulsificantes são ultraprocessados.

Tapioca e cuscuz são boas opções no café da manhã?

São opções que aparecem nos cafés da manhã de exemplo do Guia Alimentar do Ministério da Saúde: café com leite, tapioca e banana; leite, cuscuz, ovo e banana; café com leite, cuscuz e manga. O Guia diz que, em algumas regiões, a tapioca substitui o pão no café da manhã e que preparações de farinha de milho, como o cuscuz, também aparecem nessa refeição. Como o Guia não fixa porções, o recheio pesa: queijo e carne seca são alimentos processados e entram em pouca quantidade.

Quem tem diabetes pode pular o café da manhã?

Quem usa insulina ou remédio que baixa a glicose não deve mudar o horário das refeições por conta própria. O Caderno de Atenção Básica sobre diabetes do Ministério da Saúde lista o atraso ou a omissão de refeições entre os fatores de risco para hipoglicemia, a queda do açúcar no sangue. Nesses casos, o horário e o conteúdo do café da manhã são combinados com a equipe que acompanha o tratamento.

Fontes consultadas

  1. 1.Guia Alimentar para a População Brasileira, 2ª edição (2014): capítulo 2, capítulo 3 (café da manhã e grupos de alimentos) e capítulo 4 — Ministério da Saúde
  2. 2.Fascículo 1: Protocolos de uso do Guia Alimentar para a População Brasileira na orientação alimentar, protocolo para a população adulta (2021) — Ministério da Saúde e Universidade de São Paulo
  3. 3.Effect of breakfast on weight and energy intake: systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials (Sievert e col., 2019) — BMJ, via PubMed Central
  4. 4.Effect of skipping breakfast on cardiovascular risk factors: a GRADE-assessed systematic review and meta-analysis (Yu e col., 2023) — Frontiers in Endocrinology, via PubMed Central
  5. 5.Association between Breakfast Skipping and Body Weight: A Systematic Review and Meta-Analysis of Observational Longitudinal Studies (Wicherski e col., 2021) — Nutrients, via PubMed Central
  6. 6.Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus (Caderno de Atenção Básica nº 36, 2013), item sobre hipoglicemia — Ministério da Saúde
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