Vitiligo: O Que É, Por Que Aparece, Como Tratar e Como Cuidar da Pele no Sol
O vitiligo atinge 0,54% dos brasileiros, não é contagioso e não prejudica a saúde física. Cerca de 30% das pessoas têm um parente com a doença. Veja causas, tipos, os tratamentos do consenso da Sociedade Brasileira de Dermatologia e por que o protetor solar é obrigatório.
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Uma mancha branca que aparece na mão, em volta da boca ou no joelho costuma trazer duas perguntas de uma vez: "o que é isso?" e "isso passa para os outros?". Quando a resposta é vitiligo, a segunda já tem resposta certa: não passa. A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e o Ministério da Saúde são diretos: o vitiligo não é contagioso e não traz prejuízos à saúde física. O que ele traz, e as duas fontes reconhecem isso, é impacto na autoestima, e esse lado merece tanto cuidado quanto a pele.
Este texto reúne o que dizem a SBD, a Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde e dois consensos publicados pela SBD nos Anais Brasileiros de Dermatologia: um sobre tratamento do vitiligo e outro sobre proteção solar.
O que é vitiligo?#
Vitiligo é a perda da coloração da pele. As manchas se formam porque os melanócitos, as células que produzem a melanina (o pigmento que dá cor à pele), diminuem ou desaparecem naquela área. O resultado são manchas brancas de tamanho variável, com uma distribuição característica.
O consenso de tratamento da SBD, publicado em 2020, registra que a prevalência do vitiligo no Brasil é de 0,54% e que a idade média de início em pacientes brasileiros é de 13 anos no tipo segmentar e 22 anos no tipo comum.
A maioria das pessoas não sente nada além do aparecimento das manchas. A SBD relata que, em alguns casos, há sensibilidade e dor na área afetada.
O que causa o vitiligo?#
A causa ainda não está totalmente esclarecida, mas três peças aparecem nas fontes:
- Autoimunidade. O consenso da SBD descreve o vitiligo como uma doença desencadeada por autoimunidade contra os melanócitos: células de defesa do próprio corpo atacam as células do pigmento.
- Genética. A influência genética, segundo o mesmo consenso, já está bem determinada. A SBD e o Ministério da Saúde informam que cerca de 30% das pessoas com vitiligo têm algum parente com a doença.
- Fatores emocionais. Alterações ou traumas emocionais podem estar entre os fatores que desencadeiam ou agravam o quadro.
Há também o chamado fenômeno de Köbner: manchas novas que aparecem em locais de atrito ou trauma na pele. É por isso que a SBD orienta evitar roupas apertadas ou que provoquem atrito e pressão.
Como a origem é autoimune, a SBD recomenda que os exames de sangue incluam um estudo imunológico, que pode revelar outras doenças autoimunes associadas, como as da tireoide, a hepatite autoimune e a doença de Addison. O Ministério da Saúde cita ainda o lúpus.
Quais são os tipos de vitiligo?#
| Tipo | Como se apresenta | O que as fontes dizem |
|---|---|---|
| Segmentar (unilateral) | Atinge só uma parte do corpo, de um lado | Costuma surgir quando a pessoa é jovem; pelos e cabelos da área podem perder a cor. Responde mais devagar aos tratamentos não cirúrgicos |
| Não segmentar (bilateral) | Aparece dos dois lados, por exemplo nas duas mãos, nos dois pés ou nos dois joelhos | É o tipo mais comum. Começa em geral em mãos, pés, nariz e boca, alternando ciclos de perda de cor e períodos de estabilidade |
No tipo não segmentar, a SBD explica que os ciclos se repetem ao longo da vida e que as áreas despigmentadas tendem a crescer com o tempo. Já o consenso de tratamento considera o vitiligo estável quando não surgem manchas novas, as antigas não aumentam e não há fenômeno de Köbner. Essa diferença entre ativo e estável muda o tratamento.
Mancha branca é sempre vitiligo?#
Não, e esse é um ponto que costuma ficar de fora. O manual Dermatologia na Atenção Básica, do Ministério da Saúde, lista o vitiligo entre os diagnósticos que precisam ser diferenciados de outras manchas claras:
- Pitiríase versicolor, o "pano branco", uma micose superficial (veja o texto sobre micose de pele e pano branco);
- Pitiríase alba, manchas claras de causa desconhecida, em que o manual aponta o ressecamento da pele como provável fator desencadeante;
- Hanseníase, cujo critério de caso, segundo o mesmo manual, inclui lesão de pele com alteração de sensibilidade.
O manual diz que a lâmpada de Wood, uma luz especial usada no consultório, é de extrema importância para diferenciar o vitiligo da pitiríase versicolor. A SBD acrescenta que o diagnóstico do vitiligo é essencialmente clínico e que a biópsia, quando feita, mostra ausência de melanócitos na área. Se a mancha clara vem com dormência ou perda de sensibilidade, a avaliação não deve esperar. Um panorama das outras manchas está no guia de manchas na pele.
Quais são os tratamentos para vitiligo?#
A SBD resume o objetivo em duas frentes: parar o aumento das manchas (estabilizar) e repigmentar a pele. O consenso de tratamento acrescenta uma terceira: manter a cor recuperada. Não se fala em cura, mas a SBD afirma que a doença pode ter excelente controle e, em alguns casos, repigmentação completa, sem diferença de cor. Os resultados variam muito de uma pessoa para outra.
O consenso de 2020, escrito por sete dermatologistas brasileiros, definiu como tratamentos padrão:
- Cremes e pomadas. Corticoides tópicos são a primeira linha no vitiligo localizado e instável; manchas recentes e do rosto respondem melhor. Os inibidores de calcineurina (tacrolimo e pimecrolimo) funcionam bem no rosto e podem ser usados por longos períodos; o consenso registra que, para vitiligo, o uso é off-label pela Anvisa (fora da indicação da bula). Em um estudo citado, o tacrolimo usado por um ano repigmentou lesões do rosto em 81% dos pacientes, com resposta mínima nos braços e pernas. A SBD cita também derivados da vitamina D.
- Minipulso de corticoide oral. Indicado no vitiligo generalizado em progressão, para frear o surgimento de manchas novas.
- Fototerapia. A luz ultravioleta B de banda estreita (UVB-nb) é a primeira escolha para as formas extensas. O consenso diz que é preciso pelo menos seis meses (cerca de 48 sessões) para avaliar se está funcionando e, para a resposta máxima, pelo menos um ano (em média 96 sessões). Rosto e pescoço respondem melhor, depois o tronco; mãos e pés repigmentam pouco. O laser e a lâmpada excimer (308 nm) servem para áreas menores.
- Cirurgia e transplante de melanócitos. Indicados para vitiligo estável que não respondeu ao tratamento clínico, em geral com cerca de 12 meses de estabilidade, e para o tipo segmentar.
O consenso também registrava que medicamentos da classe dos inibidores de JAK, em creme e por via oral, estavam em teste, com resultados promissores. Pergunte ao dermatologista o que está disponível hoje e se faz sentido no seu caso.
A escolha do tratamento, a dose e o tempo de uso são definidos pelo dermatologista. E vale o alerta da própria SBD: muito cuidado com medicamentos ditos milagrosos, fórmulas ditas naturais e receitas dadas por leigos, que podem levar à frustração e a reações adversas graves.
Como cuidar da pele no sol?#
Aqui está o ponto prático que mais confunde: se a fototerapia usa luz ultravioleta, tomar sol ajudaria? Não é a mesma coisa. Na fototerapia, a dose de radiação é medida e aplicada em consultório. No sol, não há controle, e o Consenso Brasileiro de Fotoproteção, da SBD, inclui o vitiligo entre as doenças agravadas pela luz solar.

O que o consenso recomenda:
- Protetor solar é obrigatório. A pele despigmentada é sensível aos raios UVA e UVB e queima com facilidade. A recomendação é protetor de amplo espectro, com FPS alto e proteção UVA equilibrada.
- Proteja a pele toda, não só a mancha. O protetor deve ir em toda a pele exposta. Há um benefício a mais: ao reduzir o bronzeado da pele ao redor, o contraste com as manchas fica menor.
- Barreira física. Roupas e chapéu fazem parte da proteção, e a SBD orienta diminuir a exposição solar.
- Atenção depois da fototerapia. O consenso pede cuidado especial com a proteção após as sessões.
- Camuflagem é permitida. Produtos com pigmento podem ser usados para disfarçar as manchas.
O mesmo consenso traz um dado curioso: pessoas com vitiligo parecem ter risco menor de câncer de pele, possivelmente porque, sabendo que a pele queima fácil, se protegem mais. Isso não é motivo para relaxar; é sinal de que a proteção funciona. Para escolher o produto e aplicar do jeito certo, veja o texto sobre protetor solar.
Dá para prevenir o vitiligo?#
O Ministério da Saúde afirma que não existem formas de prevenção do vitiligo. Como cerca de 30% dos casos têm histórico familiar, a orientação é que parentes façam vigilância periódica da pele e procurem o dermatologista se surgirem manchas claras, para começar cedo o tratamento.
Para quem já tem o diagnóstico, a SBD e o Ministério da Saúde orientam evitar o que pode provocar manchas novas ou aumentar as existentes:
- roupas apertadas ou que causem atrito e pressão na pele;
- exposição ao sol sem proteção;
- estresse sem controle.
O lado emocional também é tratamento#
A SBD diz que uma grande preocupação dos dermatologistas são os sintomas emocionais que podem surgir por causa da doença, e que o acompanhamento psicológico, na maioria dos casos, é recomendado e pode ter efeitos positivos até nos resultados do tratamento. Vergonha de mostrar as mãos, evitar praia ou fotos e comentários de desconhecidos pesam.
Se o desânimo for persistente, vale conhecer os sinais descritos no texto sobre depressão. Em sofrimento intenso, o Ministério da Saúde orienta procurar o CAPS ou a unidade básica de saúde, e o CVV atende pelo 188, com ligação gratuita, 24 horas, de qualquer telefone. Em risco imediato, ligue para o SAMU 192.
Quando procurar atendimento#
Procure a unidade básica de saúde ou um dermatologista se:
- surgir mancha branca ou clara nova, principalmente se houver casos de vitiligo na família;
- a mancha vier com dormência, formigamento ou perda de sensibilidade ao toque, calor ou dor, porque o Ministério da Saúde inclui a hanseníase entre as manchas claras a diferenciar;
- as manchas aumentarem rápido ou aparecerem em locais novos, sinal de doença ativa, que pede tratamento diferente;
- houver queimadura solar frequente nas áreas sem pigmento;
- aparecerem sinais de outras doenças autoimunes, como alterações da tireoide, que a SBD recomenda investigar;
- o vitiligo estiver afetando o sono, o trabalho, as relações ou a vontade de sair de casa.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. O diagnóstico e o tratamento do vitiligo são definidos pelo dermatologista que acompanha você.
Perguntas frequentes
Vitiligo pega?
Não. A Sociedade Brasileira de Dermatologia e o Ministério da Saúde afirmam que o vitiligo não é contagioso e não traz prejuízos à saúde física. Ele não passa por toque, abraço, beijo, piscina, toalha ou objeto compartilhado. A mancha surge porque o próprio organismo reduz ou elimina os melanócitos daquela área.
Qual é a causa do vitiligo?
A causa ainda não está totalmente esclarecida. O consenso de tratamento da Sociedade Brasileira de Dermatologia descreve o vitiligo como uma doença desencadeada por autoimunidade contra os melanócitos, com influência genética bem determinada. A SBD e o Ministério da Saúde acrescentam que alterações ou traumas emocionais podem desencadear ou agravar a doença, e cerca de 30% das pessoas têm um parente com vitiligo.
Vitiligo tem cura?
Não se fala em cura, mas em controle. Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, o tratamento busca parar o aumento das manchas e repigmentar a pele, e a doença pode ter excelente controle, com repigmentação completa em alguns casos. O resultado varia muito de pessoa para pessoa, e a escolha do tratamento é do dermatologista.
Quem tem vitiligo pode tomar sol?
Com proteção. O Consenso Brasileiro de Fotoproteção, da SBD, diz que a pele despigmentada é sensível aos raios UVA e UVB e queima com facilidade, por isso o protetor solar de amplo espectro é obrigatório, em toda a pele exposta e não só nas manchas, junto com roupas e chapéu. A SBD também orienta diminuir a exposição solar. A luz ultravioleta usada no tratamento é outra coisa: é dose medida, aplicada em consultório.
Qual o melhor tratamento para vitiligo?
Depende do tipo, da extensão e de a doença estar ativa ou estável. O consenso da Sociedade Brasileira de Dermatologia define como tratamentos padrão os corticoides e os inibidores de calcineurina em creme ou pomada para casos localizados e instáveis, o minipulso de corticoide oral no vitiligo generalizado em progressão, a fototerapia UVB de banda estreita para as formas extensas e a cirurgia para o vitiligo segmentar e o generalizado estável. A indicação e a dose são do dermatologista.
Mancha branca na pele é sempre vitiligo?
Não. O manual de Dermatologia na Atenção Básica, do Ministério da Saúde, lista o vitiligo ao lado de outras causas de mancha clara, como a pitiríase versicolor (pano branco), a pitiríase alba e a hanseníase, que tem como critério lesão de pele com alteração de sensibilidade. A lâmpada de Wood ajuda a diferenciar. Mancha clara nova deve ser avaliada na unidade de saúde ou pelo dermatologista.
O vitiligo afeta o emocional?
Muitas vezes, sim. A Sociedade Brasileira de Dermatologia diz que as lesões costumam ter impacto importante na qualidade de vida e na autoestima e que o acompanhamento psicológico pode melhorar até os resultados do tratamento. Em sofrimento intenso, o Ministério da Saúde orienta procurar o CAPS ou a unidade básica de saúde; o CVV atende pelo 188, de graça, 24 horas.
Fontes consultadas
- 1.Vitiligo: o que é, sintomas, tratamento e prevenção — Sociedade Brasileira de Dermatologia
- 2.Vitiligo (Dicas em Saúde) — Ministério da Saúde (Biblioteca Virtual em Saúde)
- 3.Consensus on the treatment of vitiligo – Brazilian Society of Dermatology (An Bras Dermatol, 2020) — Anais Brasileiros de Dermatologia (PubMed Central)
- 4.Brazilian consensus on photoprotection (An Bras Dermatol, 2014): vitiligo e fotodermatoses — Anais Brasileiros de Dermatologia (PubMed Central)
- 5.Dermatologia na Atenção Básica de Saúde (Cadernos de Atenção Básica nº 9): hanseníase e pitiríase alba — Ministério da Saúde
- 6.Suicídio: prevenção e onde buscar ajuda (CVV 188, CAPS, UBS, SAMU 192) — Ministério da Saúde


