Unha Encravada: O Que Fazer em Casa e Quando É Cirurgia
Unha encravada costuma nascer do corte arredondado e do sapato apertado. Nos casos leves, sem pus, dá para tratar sem cirurgia. Com pus, carne esponjosa ou diabetes, é consulta. E na cirurgia, arrancar a unha inteira faz o problema voltar: o que funciona é retirar só o canto e tratar a raiz.
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Ela começa como uma dor chata na lateral do dedão quando o sapato aperta. Dias depois, a pele está vermelha, inchada e qualquer toque incomoda. A unha encravada é um problema comum nos pés, e boa parte do que se faz em casa para "resolver" é justamente o que a faz voltar. A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) é direta: o erro está no corte que muita gente aprendeu como certo.
O que é unha encravada e por que ela aparece?#
A SBD define a unha encravada, ou onicocriptose, como uma inflamação causada pelo crescimento de parte da unha em direção à pele, que acaba machucada. Costuma surgir no primeiro dedo, o dedão. Pode aparecer em qualquer idade, mas é muito mais frequente dos 10 aos 30 anos e em homens, que praticam mais esportes como corrida e futebol, atividades que causam trauma nas unhas dos pés.
As causas que a SBD e uma revisão de 2024 publicada na revista Cureus apontam:
- Corte arredondado. "A forma correta de cortar as unhas é o corte reto, sem arredondar os cantos, mas muitas pessoas fazem justamente o contrário", escreve a SBD.
- Sapato e meia apertados. A SBD cita sapatos apertados e meias sintéticas. A revisão da Cureus inclui o salto alto entre os calçados que pressionam a unha.
- Suor nos pés. O excesso de suor deixa a pele úmida e mais fácil de machucar ao redor da unha. A mesma umidade favorece a frieira, explicada no texto sobre micose de pele.
- Formato da unha. Unhas naturalmente mais curvas encravam com mais facilidade.
- Outros fatores listados pela revisão: trauma, dedos longos, alterações na raiz da unha, predisposição genética e alguns remédios, como antirretrovirais, inibidores de EGFR (usados no tratamento de câncer) e retinoides por via oral.
Em que estágio está a minha unha encravada?#
A revisão da Cureus descreve a classificação de Mozena, que separa o problema em fases. Em linguagem simples:
| Fase | O que se vê | Caminho mais comum |
|---|---|---|
| I. Inflamação | Dor ao apertar a lateral do dedo, inchaço leve e vermelhidão | Tratamento conservador, sem cirurgia |
| II. Infecção | Mais dor, inchaço e vermelhidão, pele sensível, pode sair secreção ou pus | Avaliação médica; muitas vezes procedimento |
| III. Carne esponjosa | A pele da lateral cresce sobre a unha e forma tecido vermelho que sangra fácil | Tratamento no consultório ou cirurgia |
| IV. Deformidade crônica | O tecido cobre também a ponta da unha | Cirurgia |
A carne esponjosa é o que a SBD chama de granuloma piogênico, uma complicação que dói e sangra com facilidade. Segundo a entidade, ela deve ser tratada pelo dermatologista no consultório, com aplicação de ácidos fortes ou crioterapia e antibiótico de uso local em casa, prescrito pelo médico. Se isso não resolver, a indicação é cirurgia.
O que fazer em casa quando a unha encravada está no começo?#
Só vale para a fase inicial: dor e vermelhidão, sem pus, sem carne esponjosa e em quem não tem diabetes ou má circulação. Nesse cenário, a SBD diz que o tratamento pode ser feito sem cirurgia.
- Tire a pressão do dedo. Troque o sapato apertado por um que deixe os dedos livres e prefira meias que mantenham o pé seco.
- Separe a ponta da unha da pele. A SBD cita órteses e chumaços de algodão para separar a espícula, a ponta da unha que espeta a pele. A revisão da Cureus descreve variações da mesma ideia: fita adesiva puxando a pele para longe da unha (a técnica menos invasiva), fio dental sob o canto e pequenos tubos plásticos encaixados na lateral. O ideal é aprender a técnica com o médico ou enfermeiro na primeira consulta, para não forçar a pele inflamada.
- Imersão do pé. "Água quente e sal também podem ajudar a reduzir a inflamação", diz a SBD. Morna, nunca escaldante. Banhos com antisséptico, como o permanganato de potássio, também aparecem na orientação da entidade, mas como indicação do médico.
- Deixe a unha crescer. O canto precisa passar da pele. Nada de cortar mais fundo.
Se aparecer pus, a vermelhidão aumentar ou a dor não ceder, pare por aqui e procure atendimento.
O que não fazer com a unha encravada#
- Não corte o canto em "V" nem cave a lateral. A revisão da Cureus alerta que cortar as bordas laterais da unha pode perpetuar um ciclo prejudicial: o pedaço volta a crescer pontiagudo e encrava de novo, às vezes mais fundo.
- Não faça "cirurgia de banheiro". Alicate, tesoura, palito ou agulha em pele já aberta são porta de entrada para bactérias. A revisão lembra que a infecção ao redor da unha, a paroníquia, é uma complicação comum da unha encravada e pode ser causada por estafilococos.
- Não arranque a unha inteira. A SBD é clara: "A extração completa da unha deve ser evitada, pois ela, certamente, encravará de novo quando crescer."
- Não tome antibiótico por conta própria. Antibiótico, quando necessário, é decisão do médico. Na revisão Cochrane, nem o antibiótico usado depois da cirurgia reduziu infecção, dor ou tempo de cicatrização.
- Não trate sozinho se você tem diabetes. A explicação vem mais abaixo.
Unha que engrossa, amarela e descola, sem estar encravada, pode ser fungo: o guia completo de unhas mostra como a SBD descreve a onicomicose e por que o tratamento é longo.
Quando a unha encravada vira caso de cirurgia?#
A revisão da Cureus resume a divisão: tratamento conservador nos casos leves e moderados, sem infecção nem abscesso; cirurgia nos casos graves, com dor intensa, inflamação e infecção, quando o tratamento sem cirurgia falhou ou quando a unha volta a encravar.
A cirurgia não é arrancar a unha. Segundo a SBD, ela serve para desobstruir a passagem da unha, retirando o canto que encrava e a parte correspondente da matriz, a raiz de onde a unha cresce. "Há diversas técnicas, utilizando o fenol ou não, com ou sem pontos para fechar o defeito criado." É feita com anestesia local no dedo, e a escolha da técnica depende de cada caso.
O que dizem os estudos sobre fenol e recidiva#
A revisão Cochrane de 2012 reuniu 24 estudos com 2.826 participantes e concluiu que as intervenções cirúrgicas previnem a volta da unha encravada melhor que as não cirúrgicas, como a calha plástica na lateral da unha. Provavelmente também superam o aparelho que corrige a curvatura da unha.
E o fenol, a substância que destrói a raiz do canto retirado? Em 12 estudos que compararam cirurgia com e sem esse tipo de produto químico, 4 mostraram menos recidiva com ele. Só que as cirurgias comparadas não eram iguais. No único estudo em que eram, com 117 participantes, a unha voltou a encravar em 14% de quem recebeu fenol e em 41% de quem não recebeu. A conclusão dos autores: o fenol provavelmente reduz a recidiva, mas, com um estudo só, mais pesquisas precisam confirmar.
A ressalva prática vem da revisão da Cureus: o fenol pode lesar o tecido em volta e atrasar a cicatrização, por isso o tempo de aplicação é controlado pelo profissional. A SBD acrescenta a condição que vale para qualquer técnica: as taxas de recidiva são baixas quando a cirurgia é bem indicada, "desde que o paciente evite os hábitos que o levaram a desenvolver o problema".
Diabetes, má circulação e falta de sensibilidade: por que a regra muda?#
Para quem tem diabetes, a unha encravada não é só uma dor chata. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes lista unhas encravadas entre os sinais pré-ulcerativos, que podem prever uma úlcera no pé, e recomenda que pessoas com pé em risco tenham essas lesões tratadas por profissional, junto com calos, bolhas e micoses. A mesma diretriz estima que de 19% a 34% das pessoas com diabetes terão úlcera no pé ao longo da vida.
O Ministério da Saúde, na linha de cuidado do diabetes tipo 2, também põe as unhas encravadas entre as condições pré-ulcerativas ligadas à polineuropatia diabética, que tira a sensibilidade do pé, e à doença arterial periférica, que reduz a circulação. Por isso orienta avaliar os pés em todas as consultas. Sem sensibilidade, a pessoa pode não sentir a unha machucando. A revisão da Cureus lembra que, em casos raros, a infecção da unha encravada avança para celulite e osteomielite, com risco de amputação maior justamente em quem tem diabetes.
O que a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda no autocuidado diário: olhar os pés e o interior dos calçados todos os dias, lavar e secar bem entre os dedos, hidratar a pele seca, cortar as unhas de forma reta e evitar produtos químicos, emplastros e técnicas caseiras para remover calos. Quem tem diabetes e quer se exercitar encontra os cuidados com tênis, meia e inspeção dos pés no texto sobre exercício para quem tem pressão alta e diabetes.
Como cortar a unha para não encravar e outros cuidados de prevenção#

- Corte reto. Sem arredondar e sem aprofundar os cantos. É a orientação da SBD e do quadro de autocuidado da diretriz de diabetes.
- Sapato do tamanho do pé. O Ministério da Saúde descreve o calçado adequado para quem tem diabetes, e a descrição serve de régua para todo mundo: fechado, de couro ou tecido, ajustado ao pé e sem pontos de pressão, com bico quadrado ou levemente arredondado, fechamento em velcro ou cadarço, forrado e sem costuras internas.
- Pés secos. Suor e umidade ajudam a machucar a pele ao redor da unha, segundo a SBD. A entidade cita as meias sintéticas entre os fatores que favorecem o problema.
- Atenção no esporte. A SBD lembra que corrida e futebol causam trauma nas unhas dos pés; quem pratica precisa redobrar o cuidado com o corte e com o calçado.
- Mudar o hábito depois do tratamento. A SBD condiciona o bom resultado da cirurgia a abandonar o corte arredondado e o sapato apertado.
Quando procurar atendimento#
Procure uma unidade básica de saúde, um dermatologista ou outro médico se houver:
- pus ou secreção saindo da lateral da unha, sinal de infecção, segundo a revisão da Cureus;
- carne esponjosa, o tecido vermelho que cresce sobre a unha e sangra fácil;
- vermelhidão e inchaço que se espalham pelo dedo ou pelo pé, ou calor e endurecimento da pele ao redor, sinais de inflamação que a diretriz de infecção no pé da Sociedade Brasileira de Diabetes usa para classificar a gravidade;
- dor forte ou que piora mesmo com sapato folgado;
- unha que encrava de novo, depois de já ter sido tratada;
- diabetes, má circulação nas pernas ou perda de sensibilidade nos pés: nesses casos, procure atendimento já no primeiro sinal, sem tentar resolver em casa.
Vá a um pronto atendimento no mesmo dia se, em quem tem diabetes, a vermelhidão avançar rápido ou vier com febre acima de 38 °C, que a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes inclui entre os sinais de infecção grave no pé, com repercussão no corpo todo.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. O diagnóstico e a escolha do tratamento da unha encravada cabem ao profissional de saúde.
Perguntas frequentes
O que causa unha encravada?
Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, o erro mais comum é cortar a unha arredondando os cantos, quando o certo é o corte reto. Também contribuem o formato da própria unha, o suor excessivo nos pés, sapatos apertados, meias sintéticas e esportes que machucam a ponta dos dedos, como corrida e futebol. É mais frequente dos 10 aos 30 anos e em homens, e costuma atingir o dedão.
Unha encravada inflamada, sem pus: o que fazer em casa?
Quando o quadro é bem inicial, a Sociedade Brasileira de Dermatologia diz que o tratamento pode ser feito sem cirurgia: um chumaço de algodão ou uma órtese que afaste a ponta da unha da pele, e imersão do pé em água quente com sal, que ajuda a reduzir a inflamação. Junto com isso, sapato folgado e nada de cortar o canto. Se aparecer pus, a dor aumentar ou não houver melhora, é hora de consulta. Quem tem diabetes deve procurar atendimento desde o início.
Posso cortar o canto da unha encravada sozinho?
Não é recomendado. A revisão publicada na Cureus em 2024 aponta que cortar as bordas laterais da unha pode perpetuar o ciclo: o canto volta a crescer pontiagudo e encrava de novo. Cavar com alicate, tesoura ou palito em pele já machucada abre caminho para bactérias, e a infecção ao redor da unha é uma complicação comum da unha encravada.
Quando a unha encravada precisa de cirurgia?
Quando há infecção com pus, o tecido da lateral da unha cresceu e formou a carne esponjosa (granuloma), o tratamento conservador não resolveu ou a unha encrava de novo. A Sociedade Brasileira de Dermatologia orienta evitar a retirada da unha inteira, porque ela vai encravar quando crescer. A cirurgia indicada retira só o canto que encrava e a parte correspondente da raiz (matriz), com ou sem fenol, sob anestesia local.
A cirurgia de unha encravada com fenol funciona?
A revisão Cochrane de 2012 encontrou que a cirurgia previne a volta do problema melhor que os tratamentos sem cirurgia. No único estudo que comparou a mesma operação com e sem fenol, com 117 participantes, a unha voltou a encravar em 14% de quem recebeu fenol e em 41% de quem não recebeu. Os autores ressalvam que é um estudo só e que mais pesquisas são necessárias para confirmar.
Quem tem diabetes pode tratar unha encravada em casa?
Não. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes inclui a unha encravada entre as lesões que antecedem a úlcera no pé e recomenda que seja tratada por profissional em quem tem pé em risco. O Ministério da Saúde lista unhas encravadas entre as condições pré-ulcerativas ligadas à perda de sensibilidade e à má circulação. Como a pessoa pode não sentir dor, a lesão avança sem aviso.
Como cortar a unha do pé para não encravar?
Em linha reta, sem arredondar nem aprofundar os cantos. É a orientação da Sociedade Brasileira de Dermatologia e também do quadro de autocuidado da diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes. Complete com sapato que não aperte os dedos e meias que deixem o pé seco.
Fontes consultadas
- 1.Unha encravada — Sociedade Brasileira de Dermatologia
- 2.Interventions for ingrowing toenails (revisão Cochrane, atualização de 'Surgical treatments for ingrowing toenails') — Cochrane Database of Systematic Reviews, 2012 (Eekhof JA e col., PMID 22513901)
- 3.Surgical Strategies for Ingrown Toenails: A Comprehensive Review of Techniques, Outcomes, and Advancements — Cureus, 2024 (Hassan RE e col., PMID 38371148)
- 4.Diagnóstico e prevenção de úlceras no pé diabético — Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (Sacco ICN e col.)
- 5.Diagnóstico e tratamento da infecção no pé de pessoas com diabetes — Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (Macedo GMC e col.)
- 6.Linha de cuidado do diabetes mellitus tipo 2 no adulto: cuidado com os pés — Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção Primária à Saúde


