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Unha Encravada: O Que Fazer em Casa e Quando É Cirurgia

Unha encravada costuma nascer do corte arredondado e do sapato apertado. Nos casos leves, sem pus, dá para tratar sem cirurgia. Com pus, carne esponjosa ou diabetes, é consulta. E na cirurgia, arrancar a unha inteira faz o problema voltar: o que funciona é retirar só o canto e tratar a raiz.

Escrito por

Redação Blog com Saúde

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Publicado em ·10 min de leitura

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Cortador de unhas de aço inox com lâmina reta, aberto, sobre fundo branco
Cortador de unhas de aço inox com lâmina reta, aberto, sobre fundo branco

Ela começa como uma dor chata na lateral do dedão quando o sapato aperta. Dias depois, a pele está vermelha, inchada e qualquer toque incomoda. A unha encravada é um problema comum nos pés, e boa parte do que se faz em casa para "resolver" é justamente o que a faz voltar. A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) é direta: o erro está no corte que muita gente aprendeu como certo.

O que é unha encravada e por que ela aparece?#

A SBD define a unha encravada, ou onicocriptose, como uma inflamação causada pelo crescimento de parte da unha em direção à pele, que acaba machucada. Costuma surgir no primeiro dedo, o dedão. Pode aparecer em qualquer idade, mas é muito mais frequente dos 10 aos 30 anos e em homens, que praticam mais esportes como corrida e futebol, atividades que causam trauma nas unhas dos pés.

As causas que a SBD e uma revisão de 2024 publicada na revista Cureus apontam:

  • Corte arredondado. "A forma correta de cortar as unhas é o corte reto, sem arredondar os cantos, mas muitas pessoas fazem justamente o contrário", escreve a SBD.
  • Sapato e meia apertados. A SBD cita sapatos apertados e meias sintéticas. A revisão da Cureus inclui o salto alto entre os calçados que pressionam a unha.
  • Suor nos pés. O excesso de suor deixa a pele úmida e mais fácil de machucar ao redor da unha. A mesma umidade favorece a frieira, explicada no texto sobre micose de pele.
  • Formato da unha. Unhas naturalmente mais curvas encravam com mais facilidade.
  • Outros fatores listados pela revisão: trauma, dedos longos, alterações na raiz da unha, predisposição genética e alguns remédios, como antirretrovirais, inibidores de EGFR (usados no tratamento de câncer) e retinoides por via oral.

Em que estágio está a minha unha encravada?#

A revisão da Cureus descreve a classificação de Mozena, que separa o problema em fases. Em linguagem simples:

FaseO que se vêCaminho mais comum
I. InflamaçãoDor ao apertar a lateral do dedo, inchaço leve e vermelhidãoTratamento conservador, sem cirurgia
II. InfecçãoMais dor, inchaço e vermelhidão, pele sensível, pode sair secreção ou pusAvaliação médica; muitas vezes procedimento
III. Carne esponjosaA pele da lateral cresce sobre a unha e forma tecido vermelho que sangra fácilTratamento no consultório ou cirurgia
IV. Deformidade crônicaO tecido cobre também a ponta da unhaCirurgia

A carne esponjosa é o que a SBD chama de granuloma piogênico, uma complicação que dói e sangra com facilidade. Segundo a entidade, ela deve ser tratada pelo dermatologista no consultório, com aplicação de ácidos fortes ou crioterapia e antibiótico de uso local em casa, prescrito pelo médico. Se isso não resolver, a indicação é cirurgia.

O que fazer em casa quando a unha encravada está no começo?#

Só vale para a fase inicial: dor e vermelhidão, sem pus, sem carne esponjosa e em quem não tem diabetes ou má circulação. Nesse cenário, a SBD diz que o tratamento pode ser feito sem cirurgia.

  1. Tire a pressão do dedo. Troque o sapato apertado por um que deixe os dedos livres e prefira meias que mantenham o pé seco.
  2. Separe a ponta da unha da pele. A SBD cita órteses e chumaços de algodão para separar a espícula, a ponta da unha que espeta a pele. A revisão da Cureus descreve variações da mesma ideia: fita adesiva puxando a pele para longe da unha (a técnica menos invasiva), fio dental sob o canto e pequenos tubos plásticos encaixados na lateral. O ideal é aprender a técnica com o médico ou enfermeiro na primeira consulta, para não forçar a pele inflamada.
  3. Imersão do pé. "Água quente e sal também podem ajudar a reduzir a inflamação", diz a SBD. Morna, nunca escaldante. Banhos com antisséptico, como o permanganato de potássio, também aparecem na orientação da entidade, mas como indicação do médico.
  4. Deixe a unha crescer. O canto precisa passar da pele. Nada de cortar mais fundo.

Se aparecer pus, a vermelhidão aumentar ou a dor não ceder, pare por aqui e procure atendimento.

O que não fazer com a unha encravada#

  • Não corte o canto em "V" nem cave a lateral. A revisão da Cureus alerta que cortar as bordas laterais da unha pode perpetuar um ciclo prejudicial: o pedaço volta a crescer pontiagudo e encrava de novo, às vezes mais fundo.
  • Não faça "cirurgia de banheiro". Alicate, tesoura, palito ou agulha em pele já aberta são porta de entrada para bactérias. A revisão lembra que a infecção ao redor da unha, a paroníquia, é uma complicação comum da unha encravada e pode ser causada por estafilococos.
  • Não arranque a unha inteira. A SBD é clara: "A extração completa da unha deve ser evitada, pois ela, certamente, encravará de novo quando crescer."
  • Não tome antibiótico por conta própria. Antibiótico, quando necessário, é decisão do médico. Na revisão Cochrane, nem o antibiótico usado depois da cirurgia reduziu infecção, dor ou tempo de cicatrização.
  • Não trate sozinho se você tem diabetes. A explicação vem mais abaixo.

Unha que engrossa, amarela e descola, sem estar encravada, pode ser fungo: o guia completo de unhas mostra como a SBD descreve a onicomicose e por que o tratamento é longo.

Quando a unha encravada vira caso de cirurgia?#

A revisão da Cureus resume a divisão: tratamento conservador nos casos leves e moderados, sem infecção nem abscesso; cirurgia nos casos graves, com dor intensa, inflamação e infecção, quando o tratamento sem cirurgia falhou ou quando a unha volta a encravar.

A cirurgia não é arrancar a unha. Segundo a SBD, ela serve para desobstruir a passagem da unha, retirando o canto que encrava e a parte correspondente da matriz, a raiz de onde a unha cresce. "Há diversas técnicas, utilizando o fenol ou não, com ou sem pontos para fechar o defeito criado." É feita com anestesia local no dedo, e a escolha da técnica depende de cada caso.

O que dizem os estudos sobre fenol e recidiva#

A revisão Cochrane de 2012 reuniu 24 estudos com 2.826 participantes e concluiu que as intervenções cirúrgicas previnem a volta da unha encravada melhor que as não cirúrgicas, como a calha plástica na lateral da unha. Provavelmente também superam o aparelho que corrige a curvatura da unha.

E o fenol, a substância que destrói a raiz do canto retirado? Em 12 estudos que compararam cirurgia com e sem esse tipo de produto químico, 4 mostraram menos recidiva com ele. Só que as cirurgias comparadas não eram iguais. No único estudo em que eram, com 117 participantes, a unha voltou a encravar em 14% de quem recebeu fenol e em 41% de quem não recebeu. A conclusão dos autores: o fenol provavelmente reduz a recidiva, mas, com um estudo só, mais pesquisas precisam confirmar.

A ressalva prática vem da revisão da Cureus: o fenol pode lesar o tecido em volta e atrasar a cicatrização, por isso o tempo de aplicação é controlado pelo profissional. A SBD acrescenta a condição que vale para qualquer técnica: as taxas de recidiva são baixas quando a cirurgia é bem indicada, "desde que o paciente evite os hábitos que o levaram a desenvolver o problema".

Diabetes, má circulação e falta de sensibilidade: por que a regra muda?#

Para quem tem diabetes, a unha encravada não é só uma dor chata. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes lista unhas encravadas entre os sinais pré-ulcerativos, que podem prever uma úlcera no pé, e recomenda que pessoas com pé em risco tenham essas lesões tratadas por profissional, junto com calos, bolhas e micoses. A mesma diretriz estima que de 19% a 34% das pessoas com diabetes terão úlcera no pé ao longo da vida.

O Ministério da Saúde, na linha de cuidado do diabetes tipo 2, também põe as unhas encravadas entre as condições pré-ulcerativas ligadas à polineuropatia diabética, que tira a sensibilidade do pé, e à doença arterial periférica, que reduz a circulação. Por isso orienta avaliar os pés em todas as consultas. Sem sensibilidade, a pessoa pode não sentir a unha machucando. A revisão da Cureus lembra que, em casos raros, a infecção da unha encravada avança para celulite e osteomielite, com risco de amputação maior justamente em quem tem diabetes.

O que a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda no autocuidado diário: olhar os pés e o interior dos calçados todos os dias, lavar e secar bem entre os dedos, hidratar a pele seca, cortar as unhas de forma reta e evitar produtos químicos, emplastros e técnicas caseiras para remover calos. Quem tem diabetes e quer se exercitar encontra os cuidados com tênis, meia e inspeção dos pés no texto sobre exercício para quem tem pressão alta e diabetes.

Como cortar a unha para não encravar e outros cuidados de prevenção#

Mulher de unhas vermelhas segurando um sapato de salto alto e bico fino coberto de glitter prateado diante de prateleiras de uma loja de calçados
Sapato de bico fino e salto alto aperta a frente do pé. A Sociedade Brasileira de Dermatologia cita sapatos apertados entre as causas da unha encravada, e a revisão da Cureus inclui o salto alto. · Foto: Unsplash
  • Corte reto. Sem arredondar e sem aprofundar os cantos. É a orientação da SBD e do quadro de autocuidado da diretriz de diabetes.
  • Sapato do tamanho do pé. O Ministério da Saúde descreve o calçado adequado para quem tem diabetes, e a descrição serve de régua para todo mundo: fechado, de couro ou tecido, ajustado ao pé e sem pontos de pressão, com bico quadrado ou levemente arredondado, fechamento em velcro ou cadarço, forrado e sem costuras internas.
  • Pés secos. Suor e umidade ajudam a machucar a pele ao redor da unha, segundo a SBD. A entidade cita as meias sintéticas entre os fatores que favorecem o problema.
  • Atenção no esporte. A SBD lembra que corrida e futebol causam trauma nas unhas dos pés; quem pratica precisa redobrar o cuidado com o corte e com o calçado.
  • Mudar o hábito depois do tratamento. A SBD condiciona o bom resultado da cirurgia a abandonar o corte arredondado e o sapato apertado.

Quando procurar atendimento#

Procure uma unidade básica de saúde, um dermatologista ou outro médico se houver:

  • pus ou secreção saindo da lateral da unha, sinal de infecção, segundo a revisão da Cureus;
  • carne esponjosa, o tecido vermelho que cresce sobre a unha e sangra fácil;
  • vermelhidão e inchaço que se espalham pelo dedo ou pelo pé, ou calor e endurecimento da pele ao redor, sinais de inflamação que a diretriz de infecção no pé da Sociedade Brasileira de Diabetes usa para classificar a gravidade;
  • dor forte ou que piora mesmo com sapato folgado;
  • unha que encrava de novo, depois de já ter sido tratada;
  • diabetes, má circulação nas pernas ou perda de sensibilidade nos pés: nesses casos, procure atendimento já no primeiro sinal, sem tentar resolver em casa.

Vá a um pronto atendimento no mesmo dia se, em quem tem diabetes, a vermelhidão avançar rápido ou vier com febre acima de 38 °C, que a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes inclui entre os sinais de infecção grave no pé, com repercussão no corpo todo.

Este texto é informativo e não substitui a consulta. O diagnóstico e a escolha do tratamento da unha encravada cabem ao profissional de saúde.

Perguntas frequentes

O que causa unha encravada?

Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, o erro mais comum é cortar a unha arredondando os cantos, quando o certo é o corte reto. Também contribuem o formato da própria unha, o suor excessivo nos pés, sapatos apertados, meias sintéticas e esportes que machucam a ponta dos dedos, como corrida e futebol. É mais frequente dos 10 aos 30 anos e em homens, e costuma atingir o dedão.

Unha encravada inflamada, sem pus: o que fazer em casa?

Quando o quadro é bem inicial, a Sociedade Brasileira de Dermatologia diz que o tratamento pode ser feito sem cirurgia: um chumaço de algodão ou uma órtese que afaste a ponta da unha da pele, e imersão do pé em água quente com sal, que ajuda a reduzir a inflamação. Junto com isso, sapato folgado e nada de cortar o canto. Se aparecer pus, a dor aumentar ou não houver melhora, é hora de consulta. Quem tem diabetes deve procurar atendimento desde o início.

Posso cortar o canto da unha encravada sozinho?

Não é recomendado. A revisão publicada na Cureus em 2024 aponta que cortar as bordas laterais da unha pode perpetuar o ciclo: o canto volta a crescer pontiagudo e encrava de novo. Cavar com alicate, tesoura ou palito em pele já machucada abre caminho para bactérias, e a infecção ao redor da unha é uma complicação comum da unha encravada.

Quando a unha encravada precisa de cirurgia?

Quando há infecção com pus, o tecido da lateral da unha cresceu e formou a carne esponjosa (granuloma), o tratamento conservador não resolveu ou a unha encrava de novo. A Sociedade Brasileira de Dermatologia orienta evitar a retirada da unha inteira, porque ela vai encravar quando crescer. A cirurgia indicada retira só o canto que encrava e a parte correspondente da raiz (matriz), com ou sem fenol, sob anestesia local.

A cirurgia de unha encravada com fenol funciona?

A revisão Cochrane de 2012 encontrou que a cirurgia previne a volta do problema melhor que os tratamentos sem cirurgia. No único estudo que comparou a mesma operação com e sem fenol, com 117 participantes, a unha voltou a encravar em 14% de quem recebeu fenol e em 41% de quem não recebeu. Os autores ressalvam que é um estudo só e que mais pesquisas são necessárias para confirmar.

Quem tem diabetes pode tratar unha encravada em casa?

Não. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes inclui a unha encravada entre as lesões que antecedem a úlcera no pé e recomenda que seja tratada por profissional em quem tem pé em risco. O Ministério da Saúde lista unhas encravadas entre as condições pré-ulcerativas ligadas à perda de sensibilidade e à má circulação. Como a pessoa pode não sentir dor, a lesão avança sem aviso.

Como cortar a unha do pé para não encravar?

Em linha reta, sem arredondar nem aprofundar os cantos. É a orientação da Sociedade Brasileira de Dermatologia e também do quadro de autocuidado da diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes. Complete com sapato que não aperte os dedos e meias que deixem o pé seco.

Fontes consultadas

  1. 1.Unha encravada — Sociedade Brasileira de Dermatologia
  2. 2.Interventions for ingrowing toenails (revisão Cochrane, atualização de 'Surgical treatments for ingrowing toenails') — Cochrane Database of Systematic Reviews, 2012 (Eekhof JA e col., PMID 22513901)
  3. 3.Surgical Strategies for Ingrown Toenails: A Comprehensive Review of Techniques, Outcomes, and Advancements — Cureus, 2024 (Hassan RE e col., PMID 38371148)
  4. 4.Diagnóstico e prevenção de úlceras no pé diabético — Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (Sacco ICN e col.)
  5. 5.Diagnóstico e tratamento da infecção no pé de pessoas com diabetes — Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (Macedo GMC e col.)
  6. 6.Linha de cuidado do diabetes mellitus tipo 2 no adulto: cuidado com os pés — Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção Primária à Saúde
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