Sífilis: Sintomas de Cada Fase, Teste Rápido e Tratamento
O Brasil registrou 256.830 casos de sífilis adquirida e 24.443 de sífilis congênita em 2024, segundo o Ministério da Saúde. Veja os sintomas de cada fase, como funciona o teste rápido no SUS, o tratamento com penicilina e por que a parceria também precisa ser tratada.
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A sífilis engana. A ferida do começo costuma não doer e desaparece sozinha; as manchas da fase seguinte também somem em algumas semanas. Quem não sabe disso conclui que melhorou, e a bactéria segue no corpo, podendo passar para outras pessoas e, na gravidez, para o bebê. O Boletim Epidemiológico de Sífilis 2025, do Ministério da Saúde, mostra o tamanho do problema: em 2024 o Brasil registrou 256.830 casos de sífilis adquirida, 89.724 casos em gestantes e 24.443 casos de sífilis congênita, com 183 mortes de bebês menores de 1 ano. Este texto explica as fases, o teste, o tratamento e o que muda na gestação.
O que é a sífilis e como ela é transmitida?#
É uma infecção sexualmente transmissível causada pela bactéria Treponema pallidum, exclusiva do ser humano e curável. Segundo o Ministério da Saúde, a transmissão acontece por relação sexual sem camisinha com uma pessoa infectada e da mãe para o bebê durante a gestação ou o parto. A OMS acrescenta que o contágio pode ocorrer no sexo oral, vaginal e anal, pelo contato com as lesões, e por transfusão de sangue.
A chance de transmitir é maior nas fases primária e secundária, quando as lesões estão cheias de bactérias, e diminui com o tempo. O PCDT-IST, protocolo do Ministério da Saúde, faz um alerta: a maioria das pessoas com sífilis não tem sintomas, ou não percebe ou não valoriza os que tem, e pode transmitir a infecção sem saber. A sífilis faz parte de um grupo maior, explicado no texto sobre IST, sintomas e prevenção.
Quais são as fases e os sintomas da sífilis?#
O protocolo divide a doença em sífilis recente (até um ano de infecção: primária, secundária e latente recente) e sífilis tardia (mais de um ano: latente tardia e terciária). A divisão importa porque define o tratamento.
| Fase | Quando aparece | O que se observa |
|---|---|---|
| Primária | De 10 a 90 dias após o contágio (média de três semanas) | Ferida geralmente única, indolor, de base endurecida ("cancro duro"), no local de entrada da bactéria; ínguas próximas. Dura de três a oito semanas e some sozinha |
| Secundária | Entre seis semanas e seis meses depois da ferida | Manchas no corpo que em geral não coçam, inclusive nas palmas das mãos e plantas dos pés; febre baixa, mal-estar, dor de cabeça, ínguas pelo corpo. Também somem sozinhas |
| Latente | Sem prazo fixo | Nenhum sintoma. É a fase em que a maioria dos diagnósticos é feita, só pelos exames de sangue |
| Terciária | De 1 a 40 anos após a infecção, em 15% a 25% dos casos não tratados | Lesões na pele, nos ossos, no coração e no sistema nervoso, que podem causar incapacidade e morte |
Fonte: Ministério da Saúde (página de sífilis e PCDT-IST 2022, Quadro 11).
Dois recados do protocolo ajudam a reconhecer a doença. Primeiro: toda mancha na pele sem causa definida deve ser investigada com teste de sífilis. Segundo: a sífilis pode atingir os olhos e o sistema nervoso já na fase secundária, e não só anos depois. Visão alterada ou sintomas neurológicos em quem teve ferida ou manchas pedem avaliação rápida.
Como é o teste rápido de sífilis no SUS?#
O teste rápido está disponível nos serviços do SUS, usa sangue da ponta do dedo e dá o resultado em no máximo 30 minutos, sem precisar de laboratório. Ele é um teste treponêmico, que procura anticorpos contra a bactéria e é o primeiro a ficar positivo. Por isso o PCDT-IST recomenda começar a investigação por ele.
Se o resultado for reagente, colhe-se sangue para um teste não treponêmico, como o VDRL ou o RPR. A combinação dos dois confirma o diagnóstico. O motivo de precisar dos dois é um detalhe que pouca gente conhece: o teste treponêmico continua positivo por toda a vida em 85% das pessoas, mesmo depois do tratamento. Quem já teve sífilis e foi tratado pode ter o teste rápido reagente para sempre; quem mostra se há infecção ativa e se o tratamento funcionou é o VDRL ou o RPR, que é expresso em títulos (1:2, 1:4, 1:8 e assim por diante).
Pela situação da epidemia no país, o protocolo manda tratar logo após um único teste reagente, sem esperar o segundo, nestes casos: gestantes, vítimas de violência sexual, pessoas com sinais de sífilis primária ou secundária, pessoas sem diagnóstico anterior de sífilis e pessoas com risco de não voltar ao serviço. O segundo exame continua sendo feito, para confirmar e para acompanhar.
E se o teste der não reagente logo depois de uma situação de risco? Pode ser a janela imunológica. O protocolo orienta repetir a coleta em 30 dias quando há suspeita, sem atrasar o tratamento se houver uma ferida típica.
Qual é o tratamento da sífilis?#
O remédio de escolha é a benzilpenicilina benzatina (penicilina benzatina), aplicada por via intramuscular. O PCDT-IST afirma que não há evidência de resistência da bactéria à penicilina no Brasil nem no mundo, e que ela é a única droga com eficácia documentada na gestação. O esquema depende da fase: na sífilis recente, dose única; na sífilis tardia ou de tempo desconhecido, uma aplicação por semana durante três semanas. A dose e o esquema são definidos pelo profissional, de acordo com a fase.

Três pontos do protocolo que fazem diferença na prática:
- O intervalo entre as doses importa. Fora da gestação, se passar de 14 dias entre uma aplicação e outra, o esquema recomeça; na gestação, o limite é de sete dias.
- A reação depois da primeira dose não é alergia. Nas primeiras 24 horas pode surgir a reação de Jarisch-Herxheimer, com febre, mal-estar, dor de cabeça, dor nas articulações e piora das lesões de pele, que passa sozinha em 12 a 24 horas e não exige parar o tratamento.
- Anafilaxia é raríssima. O protocolo cita probabilidade de 0,002% com a penicilina benzatina e afirma que ela pode ser aplicada com segurança na Atenção Primária, inclusive pela enfermagem. O medo de reação não deve atrasar o tratamento.
Doxiciclina e ceftriaxona existem como alternativa para quem não está grávida, mas só com acompanhamento clínico e laboratorial rigoroso. Para gestantes, qualquer tratamento que não seja penicilina benzatina é considerado inadequado.
Como saber se a sífilis foi curada?#
Com o VDRL ou o RPR repetidos depois do tratamento: a cada três meses até completar um ano (3, 6, 9 e 12 meses) e, na gestação, todo mês. O protocolo considera boa resposta a queda de duas diluições no título (por exemplo, de 1:16 para 1:4) em até seis meses na sífilis recente, ou o teste ficar não reagente. Às vezes o título fica baixo e estável depois de um tratamento bem feito; isso se chama cicatriz sorológica e não é falha. E um alerta do Ministério da Saúde: a sífilis não deixa imunidade, então é possível pegar de novo.
Por que a parceria também precisa ser tratada?#
Porque, sem isso, a pessoa tratada volta a se infectar. O PCDT-IST informa que um terço das parcerias de quem tem sífilis recente desenvolve a infecção em até 30 dias. Por isso recomenda oferecer tratamento a quem teve contato sexual com a pessoa nos 90 dias anteriores, mesmo sem sintomas, e testar todas as parcerias. "Nunca se está diante de apenas um caso de sífilis – são sempre pelo menos duas pessoas infectadas", diz o protocolo.
Esse é o elo mais frágil hoje. O Boletim de Sífilis 2025 mostra que, em 2024, apenas 34,6% das parcerias de gestantes com sífilis foram tratadas.
Sífilis na gestação e sífilis congênita#
A sífilis congênita é a infecção que passa da mãe para o bebê, principalmente pela placenta. O PCDT-IST informa que a transmissão para o feto chega a 80% dentro do útero e que a infecção fetal provoca entre 30% e 50% de morte intrauterina, parto prematuro ou morte do recém-nascido. A maioria dos bebês infectados não tem sintomas ao nascer; segundo o Ministério da Saúde, as manifestações podem aparecer nos primeiros meses ou depois dos dois anos, e incluem surdez, cegueira, alterações ósseas e deficiência intelectual.
A boa notícia é que dá para evitar. O que o Ministério da Saúde recomenda:
- Testar a gestante pelo menos três vezes: na primeira consulta do pré-natal, no início do terceiro trimestre e no parto (ou em caso de aborto). O roteiro completo de exames está no texto sobre o primeiro trimestre de gravidez.
- Tratar na hora, com penicilina benzatina, o único medicamento que atravessa a placenta e trata o feto.
- Começar o tratamento pelo menos 30 dias antes do parto, com o esquema completo para a fase da doença. Fora disso, o tratamento é considerado inadequado e o bebê passa por exames e, muitas vezes, internação.
- Tratar a parceria, para evitar que a gestante se reinfecte. O pré-natal do parceiro é a estratégia do SUS para isso.
Os números de 2024 mostram onde o Brasil ainda falha. O boletim usa um indicador que chama de percentual de evitabilidade da sífilis congênita: ele compara o número de casos de sífilis congênita em menores de 1 ano com o número de casos de sífilis em gestantes no mesmo ano. Em 2024, esse percentual foi de 72,8% no Brasil (24.443 casos de sífilis congênita para 89.724 em gestantes), e o Nordeste teve o menor valor, 61,6%. O boletim também mostra que 27,4% das gestantes só foram diagnosticadas no terceiro trimestre de gestação ou no momento do parto, tarde para proteger o bebê. Houve avanço: o diagnóstico no primeiro trimestre passou de 28,9% em 2014 para 49,3% em 2024, e desde 2022 os casos de sífilis congênita vêm caindo.
Como prevenir a sífilis#
O uso correto e regular da camisinha masculina ou feminina é a principal medida, segundo o Ministério da Saúde, e a comparação com os outros métodos está no guia de métodos contraceptivos. A OMS faz uma ressalva: a sífilis também pode passar pelo contato com áreas que o preservativo não cobre. Por isso a testagem regular completa a prevenção. O PCDT-IST recomenda teste de sífilis uma vez por ano para toda pessoa de até 30 anos com vida sexual ativa, faixa em que as notificações mais cresceram; o boletim de 2025 confirma que as maiores taxas estão entre 20 e 29 anos.
Quando procurar atendimento#
Procure a Unidade Básica de Saúde ou um Centro de Testagem e Aconselhamento se:
- aparecer uma ferida nos genitais, no ânus, na boca ou na pele, mesmo que não doa e mesmo que tenha sumido;
- surgirem manchas no corpo, especialmente nas palmas das mãos e nas plantas dos pés, com ou sem febre e ínguas;
- você teve relação sem camisinha ou soube que uma parceria teve sífilis nos últimos três meses;
- você está grávida ou planejando engravidar e ainda não fez o teste;
- o teste deu reagente e você ainda não começou o tratamento ou perdeu o intervalo entre as doses.
Procure atendimento com urgência se, depois de ferida ou manchas, surgirem alteração na visão, dor de cabeça forte, confusão ou outros sinais neurológicos, porque a sífilis pode atingir os olhos e o sistema nervoso.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. O diagnóstico, a escolha do esquema e a dose do tratamento são definidos pela equipe de saúde.
Perguntas frequentes
Quais são os primeiros sintomas da sífilis?
Segundo o Ministério da Saúde, o primeiro sinal é uma ferida, geralmente única, no local por onde a bactéria entrou (pênis, vulva, vagina, colo do útero, ânus, boca ou pele). Ela aparece de 10 a 90 dias após o contágio, normalmente não dói, não coça, não arde e não tem pus, e pode vir com ínguas na virilha. Some sozinha mesmo sem tratamento, o que não significa cura.
A sífilis tem cura?
Tem. O Ministério da Saúde define a sífilis como uma infecção curável, tratada com penicilina benzatina, disponível no SUS. A cura é confirmada com exames de sangue (VDRL ou RPR) repetidos depois do tratamento. A sífilis não deixa imunidade: quem se cura pode pegar de novo se tiver novo contato com a bactéria.
Como é feito o teste de sífilis no SUS?
O teste rápido de sífilis está disponível nos serviços do SUS, usa uma gota de sangue e dá o resultado em no máximo 30 minutos, segundo o Ministério da Saúde. Se for reagente, colhe-se sangue para um teste laboratorial (como o VDRL) que confirma o diagnóstico e serve de base para acompanhar o tratamento.
Teste rápido de sífilis positivo significa que estou com sífilis?
Nem sempre. O teste rápido detecta anticorpos que, segundo o PCDT-IST, continuam reagentes por toda a vida em 85% das pessoas, mesmo depois de tratadas. Por isso ele é complementado por um teste não treponêmico, como o VDRL. Ainda assim, gestantes, vítimas de violência sexual, pessoas com sintomas e pessoas sem diagnóstico anterior devem começar o tratamento já após o primeiro teste reagente.
Meu parceiro ou minha parceira também precisa tratar?
Precisa. O PCDT-IST informa que um terço das parcerias de pessoas com sífilis recente desenvolve a infecção em até 30 dias, e recomenda oferecer tratamento a quem teve contato sexual nos 90 dias anteriores, mesmo sem sintomas, além de testar todas as parcerias. Em 2024, só 34,6% das parcerias de gestantes com sífilis foram tratadas, segundo o Boletim Epidemiológico de Sífilis 2025.
Sífilis na gravidez passa para o bebê?
Pode passar em qualquer fase da gestação. O PCDT-IST informa que a transmissão para o feto chega a 80% dentro do útero e que a infecção fetal provoca entre 30% e 50% de morte intrauterina, parto prematuro ou morte do recém-nascido. A penicilina benzatina é o único remédio que trata a mãe e o feto ao mesmo tempo, e o tratamento precisa começar pelo menos 30 dias antes do parto.
Quanto tempo depois da relação o teste de sífilis detecta a infecção?
O PCDT-IST explica que um teste não reagente pode significar ausência de infecção ou período de janela da sífilis recente. Havendo suspeita, o protocolo orienta colher nova amostra em 30 dias; na profilaxia pós-exposição, o Ministério da Saúde recomenda repetir o teste de 4 a 6 semanas depois. Se houver ferida, o tratamento não deve esperar o resultado.
Fontes consultadas
- 1.Sífilis: transmissão, sinais e sintomas, diagnóstico, tratamento e sífilis congênita — Ministério da Saúde
- 2.Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com IST (PCDT-IST, 2022): capítulos 5 (sífilis adquirida) e 6 (sífilis congênita) — Ministério da Saúde
- 3.Boletim Epidemiológico de Sífilis 2025 (número especial, outubro de 2025) — Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente
- 4.Syphilis: fact sheet — OMS — Organização Mundial da Saúde


