Intoxicação alimentar: sintomas, o que fazer e quando ir ao pronto-socorro
Na maioria dos casos, os sintomas aparecem de 24 a 72 horas depois da refeição, segundo a OMS. Veja o que fazer em casa, quanto soro oferecer após cada evacuação e os sinais que pedem atendimento.
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Quase todo mundo já passou por isso: algumas horas ou um dia depois de uma refeição, vêm a náusea, a dor de barriga e a diarreia. Na maioria das vezes, o quadro passa sozinho em poucos dias. O risco está na desidratação, que é a complicação principal segundo o Ministério da Saúde, e em alguns sinais que indicam algo mais sério.
O problema é comum no mundo todo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou, para 2021, 866 milhões de casos de doenças transmitidas por alimentos e 1,52 milhão de mortes. Crianças menores de 5 anos concentraram 29% dessa carga, com 143 mil mortes. O que chamamos de "intoxicação alimentar" o Ministério da Saúde chama de doença de transmissão hídrica e alimentar (DTHA). Segundo o Ministério, existem mais de 250 tipos, causados por bactérias e suas toxinas, vírus, parasitas ou substâncias químicas.
Quais são os sintomas?#
O Ministério da Saúde explica que não há um quadro único, porque cada agente causa sintomas diferentes. Os sinais mais comuns são:
- náusea;
- vômito;
- dor abdominal;
- diarreia;
- falta de apetite;
- febre.
Diarreia e vômito não aparecem sempre. O Ministério marca como mito a ideia de que toda DTHA inclui os dois. Algumas causas atingem outros órgãos, como os rins, o sistema nervoso no botulismo e o bebê em gestação na toxoplasmose.
Quanto tempo leva para aparecer. O manual Cinco Chaves para uma Alimentação mais Segura, da OMS, diz que os sintomas podem surgir logo após a refeição ou levar dias ou semanas. Na maioria dos casos, aparecem de 24 a 72 horas depois de comer. Ou seja, o culpado nem sempre é a última refeição.
Quem corre mais risco. O Ministério da Saúde aponta idosos, crianças, gestantes e pessoas com imunidade baixa como os grupos com mais chance de adoecer e de ter quadros graves. A OMS acrescenta que, nesses grupos, as consequências costumam ser mais graves e mais vezes fatais.
O que fazer em casa?#
Para quem está consciente, bebendo e sem sinais de desidratação, o Ministério da Saúde descreve o chamado Plano A, feito em casa:
- Beber mais líquido que o habitual. Água, soro caseiro, chá, suco, sopa, água de arroz ou solução de reidratação oral (SRO), principalmente após cada evacuação diarreica.
- Não usar refrigerante e não adoçar o chá ou o suco, como pede o cartaz Manejo do Paciente com Diarreia.
- Manter a alimentação habitual, em crianças e adultos, e continuar o aleitamento materno. A alimentação previne a desnutrição.
- Saber reconhecer os sinais de desidratação (veja a tabela abaixo).
- Voltar ao serviço de saúde se não melhorar em 2 dias ou se aparecer qualquer sinal de perigo.
Quanto líquido oferecer após cada evacuação, segundo o cartaz do Ministério da Saúde:
| Idade | Após cada evacuação diarreica |
|---|---|
| Menores de 1 ano | 50 a 100 mL |
| De 1 a 10 anos | 100 a 200 mL |
| Maiores de 10 anos | A quantidade que a pessoa aceitar |
A SRO vem em envelopes de sais para diluir em água e deve ser preparada exatamente como diz a embalagem. O cartaz do Ministério da Saúde orienta a equipe de saúde a ensinar o paciente a preparar e oferecer a solução. Na dúvida sobre o preparo, pergunte na unidade de saúde. Para ver a sua necessidade de água fora da crise, use a calculadora de ingestão de água.

Posso tomar remédio?#
Não por conta própria. O cartaz Manejo do Paciente com Diarreia, do Ministério da Saúde, é taxativo: antidiarreicos e antieméticos não devem ser usados. O antibiótico fica reservado para a diarreia com sangue ou muco e comprometimento do estado geral, ou para a cólera com desidratação grave, sempre com acompanhamento médico. O Ministério alerta que o uso excessivo e indevido de antibióticos espalha bactérias resistentes. Para crianças, o Plano A prevê zinco uma vez ao dia, por 10 a 14 dias, com dose definida pelo profissional. A prescrição de qualquer remédio é da equipe de saúde.
Como saber se é desidratação?#
O cartaz do Ministério da Saúde usa uma tabela que a família também pode observar:
| Sinal | Sem desidratação | Com desidratação | Desidratação grave |
|---|---|---|---|
| Estado geral | Bem, alerta | Irritado, intranquilo | Desacordado ou muito mole* |
| Olhos | Normais | Fundos | Muito fundos e secos |
| Lágrimas | Presentes | Ausentes | Ausentes |
| Sede | Bebe normal | Sedento, bebe rápido e com avidez | Bebe mal ou não consegue beber* |
Pelo cartaz, dois ou mais sinais da coluna do meio indicam desidratação. Nesse caso, a reidratação é feita com SRO na unidade de saúde, onde a pessoa fica até se reidratar (Plano B). Dois ou mais sinais da última coluna, com pelo menos um dos marcados com asterisco, indicam desidratação grave, que exige soro na veia em hospital (Plano C). O cartaz inclui ainda sinais que o profissional examina, como o pulso e a prega da pele. O Ministério reforça que crianças e idosos com diarreia correm risco de desidratação grave e devem ser levados ao serviço de saúde com urgência. Para a criança com febre, veja também o texto sobre febre em criança e bebê.
Botulismo: o sinal que não é de barriga#
O botulismo é raro, mas grave. O Ministério da Saúde o descreve como doença neuroparalítica causada pela toxina do Clostridium botulinum, que pode matar por paralisia da musculatura respiratória. No Brasil, a maioria dos casos vem de alimentos. Os mais citados são conservas caseiras (palmito, picles, pequi), carnes conservadas na gordura ("carne de lata"), embutidos e defumados artesanais, peixes salgados ou fermentados e queijos. Raramente, enlatados industrializados.
A incubação vai de 2 horas a 10 dias, com média de 12 a 36 horas. Os sintomas podem começar pela barriga, com náusea, vômito e diarreia. Depois vêm os sinais neurológicos: visão turva ou dupla, pálpebra caída, dificuldade para engolir, boca seca e fraqueza que desce para o tronco e os membros. Qualquer um desses sinais é emergência. O Ministério diz que o tratamento é feito em hospital com UTI e que o soro antibotulínico é fornecido só pelo SUS.
Para prevenir, o Ministério orienta não consumir conservas de latas estufadas, vidros embaçados, embalagens danificadas, vencidas ou com cheiro e aspecto alterados. Também orienta não dar mel a crianças menores de 2 anos, cuidado que entra na introdução alimentar.
Como evitar: as cinco chaves da OMS#
A OMS resume a prevenção em cinco chaves. O Ministério da Saúde acrescenta números próprios.
- Mantenha a limpeza. Lave as mãos antes e durante o preparo e depois de ir ao banheiro, e higienize superfícies e utensílios.
- Separe crus de cozidos. Na geladeira, carne e peixe crus ficam abaixo dos alimentos prontos. Tábuas e facas usadas em carne crua devem ser lavadas antes de outro uso.
- Cozinhe bem, sobretudo carnes, ovos e peixes. A OMS cita 70 °C como temperatura segura. O Ministério da Saúde orienta ferver ovos por no mínimo 7 minutos e marca como mito que comer massa de bolo crua não oferece risco.
- Mantenha temperaturas seguras. A OMS orienta não deixar comida pronta mais de 2 horas em temperatura ambiente e guardar sobras na geladeira por no máximo 3 dias, reaquecendo só uma vez. A zona de perigo fica entre 5 °C e 60 °C. O Ministério da Saúde orienta comer em até 60 minutos o alimento cozido mantido abaixo de 60 °C e descongelar na geladeira ou no micro-ondas. A OMS reforça: nunca em temperatura ambiente.
- Use água e matérias-primas seguras. Água tratada, leite pasteurizado ou fervido, alimentos dentro da validade e frutas e verduras bem higienizadas, como mostra o texto sobre como higienizar frutas, verduras e legumes.
Quem ficou doente deve evitar preparar comida para os outros durante os sintomas e até 48 horas depois que eles passarem, segundo a OMS. Se não for possível, deve lavar as mãos com água e sabão antes e durante o preparo.
Quando procurar atendimento#
Volte imediatamente ao serviço de saúde, como orienta o Ministério da Saúde, se houver:
- piora da diarreia;
- vômitos repetidos;
- muita sede;
- recusa de alimentos;
- sangue nas fezes;
- diminuição da urina;
- falta de melhora em 2 dias.
A OMS acrescenta procurar o médico quando a diarreia for muito frequente, líquida ou com sangue, ou durar mais de três dias. Procure o pronto-socorro ou acione o Samu (192) em caso de:
- sinais de desidratação grave: pessoa desacordada ou muito mole, olhos muito fundos e secos, incapacidade de beber;
- visão dupla, pálpebra caída, dificuldade para engolir ou falar, ou fraqueza que avança, que podem ser botulismo;
- bebês, crianças pequenas e idosos com diarreia e vômitos, que o Ministério da Saúde manda levar ao serviço de saúde com urgência.
Se duas ou mais pessoas passaram mal depois da mesma comida, conte isso no atendimento. O Ministério da Saúde trata o caso como possível surto, que deve ser investigado pela vigilância.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. Diagnóstico, exames e remédios são decisão da equipe de saúde que avaliar você.
Perguntas frequentes
Quanto tempo depois de comer aparecem os sintomas de intoxicação alimentar?
Depende da causa. O manual Cinco Chaves para uma Alimentação mais Segura, da Organização Mundial da Saúde, diz que os sintomas podem surgir logo após a refeição ou levar dias ou semanas, mas que na maioria dos casos aparecem de 24 a 72 horas depois de comer. O Ministério da Saúde afirma que o período de incubação varia de horas a semanas, mas costuma ser curto. No botulismo de origem alimentar, vai de 2 horas a 10 dias, com média de 12 a 36 horas.
Quanto tempo dura uma intoxicação alimentar?
Em geral, pouco. O Ministério da Saúde diz que as doenças transmitidas por alimentos costumam ser autolimitadas e que os sinais tendem a desaparecer em alguns dias. As doenças diarreicas agudas duram até 14 dias. No tratamento em casa, a orientação é voltar ao serviço de saúde se não houver melhora em 2 dias.
Quanto soro tomar depois de cada evacuação?
O cartaz Manejo do Paciente com Diarreia, do Ministério da Saúde, orienta oferecer líquidos ou solução de reidratação oral após cada evacuação diarreica: de 50 a 100 mL para menores de 1 ano, de 100 a 200 mL de 1 a 10 anos e a quantidade que a pessoa aceitar acima de 10 anos. O mesmo cartaz pede para não usar refrigerante e não adoçar chá ou suco.
Posso tomar remédio para parar a diarreia ou o vômito?
Não por conta própria. O cartaz Manejo do Paciente com Diarreia, do Ministério da Saúde, afirma que antidiarreicos e antieméticos não devem ser usados no manejo da diarreia. Antibiótico é reservado para diarreia com sangue e comprometimento do estado geral ou para cólera grave, sempre com acompanhamento médico. Qualquer remédio, inclusive o zinco que o cartaz prevê para crianças, tem dose definida pelo profissional.
Posso comer normalmente durante a intoxicação alimentar?
Sim, se conseguir. O Ministério da Saúde orienta manter a alimentação habitual de crianças e adultos e continuar o aleitamento materno, para prevenir a desnutrição, desde que a pessoa esteja consciente e sem dificuldade para engolir. O foco é aumentar a ingestão de líquidos, especialmente de água.
Quando a intoxicação alimentar é emergência?
O Ministério da Saúde lista como sinais para voltar imediatamente ao serviço de saúde: piora da diarreia, vômitos repetidos, muita sede, recusa de alimentos, sangue nas fezes e diminuição da urina. Visão dupla, pálpebra caída, dificuldade para engolir ou falar e fraqueza que avança são sinais de botulismo, que o Ministério da Saúde trata como emergência médica: procure atendimento na hora ou acione o Samu pelo 192.
Quando várias pessoas passam mal depois da mesma comida, o que fazer?
O Ministério da Saúde considera surto quando duas ou mais pessoas têm sintomas parecidos depois de consumir água ou alimentos da mesma origem. Nesse caso, a orientação é procurar imediatamente um estabelecimento de saúde e contar o que foi observado, para que a vigilância confirme o surto e investigue a causa.
Fontes consultadas
- 1.Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA): sinais, tratamento, prevenção, mitos e verdades e perguntas frequentes — Ministério da Saúde
- 2.Doenças diarreicas agudas (DDA): sinais, complicações e planos de tratamento A, B e C — Ministério da Saúde
- 3.Manejo do paciente com diarreia (cartaz) — Ministério da Saúde
- 4.Botulismo: transmissão, sintomas e prevenção — Ministério da Saúde
- 5.Food safety (fact sheet): carga global das doenças transmitidas por alimentos — Organização Mundial da Saúde
- 6.Cinco Chaves para uma Alimentação mais Segura: manual — Organização Mundial da Saúde


