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Alimentação Geral

Doença celíaca: sintomas, diagnóstico e dieta sem glúten

Para cada celíaco diagnosticado pelos sintomas, de três a sete seguem sem diagnóstico, diz o protocolo do Ministério da Saúde. Veja os sintomas, por que o exame tem de ser feito comendo glúten e como funciona a dieta.

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Redação Blog com Saúde

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Plantação de trigo maduro, com espigas douradas até o horizonte sob céu azul limpo
Plantação de trigo maduro, com espigas douradas até o horizonte sob céu azul limpo

A doença celíaca tem fama de doença de criança magrinha com diarreia. O protocolo do Ministério da Saúde mostra outro retrato. Ela aparece em adultos, pode se manifestar só como anemia ou cansaço, e muita gente não tem sintoma nenhum. O mesmo documento estima que, para cada pessoa diagnosticada por causa dos sintomas, existam de três a sete com poucos ou nenhum sintoma e sem diagnóstico.

Este texto segue o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Doença Celíaca, atualizado pelo Ministério da Saúde em junho de 2025, e as regras de rótulo da Lei nº 10.674/2003 e da Anvisa.

O que é a doença celíaca?#

O PCDT define a doença celíaca como uma doença crônica do intestino delgado. Ela é desencadeada por uma resposta do sistema imune ao glúten, a principal proteína do trigo, do centeio e da cevada, em pessoas com predisposição genética. A maioria dos afetados tem os genes HLA-DQ2 ou HLA-DQ8. A inflamação lesa a mucosa do intestino e o corpo passa a produzir anticorpos, como o antitransglutaminase IgA, que aparecem no sangue.

Quantas pessoas têm? O protocolo cita uma meta-análise com soroprevalência mundial de 1,4% e prevalência confirmada por biópsia de 0,7%. No Brasil, os estudos citados variam por região. Em São Paulo, a estimativa foi de 1 caso a cada 214 a 286 pessoas. Em Ribeirão Preto, 1 a cada 273. No Sul, 1 a cada 417, e em Brasília, 1 a cada 681. O documento afirma que a doença é subdiagnosticada no país.

Não é alergia ao trigo. O próprio PCDT avisa que não trata da alergia ao trigo nem da sensibilidade ao glúten não celíaca. São condições diferentes, com investigação diferente.

Quais são os sintomas?#

O protocolo descreve três formas de apresentação. Uma mesma pessoa pode ter sinais de mais de uma.

FormaO que aparece, segundo o PCDT
Intestinal (clássica)Diarreia crônica, barriga distendida, dor abdominal sem causa aparente, gases, vômitos, prisão de ventre, falta de apetite, perda de peso, irritabilidade ou apatia, anemia
Extraintestinal (não clássica)Anemia por falta de ferro, baixa estatura, osteoporose, artrite, dor de cabeça, cansaço, alteração no fígado, dor muscular, ciclo menstrual irregular, infertilidade, defeitos no esmalte dos dentes, puberdade atrasada, dermatite herpetiforme
AssintomáticaExames de sangue e biópsia alterados, sem sintomas. Mesmo assim, o PCDT registra pior qualidade de vida, cansaço e falta de ferro

A dermatite herpetiforme merece nota à parte. É uma manifestação de pele ligada ao glúten, com bolhas pequenas que coçam muito, sobretudo em cotovelos, joelhos, nádegas e costas. Quem cuida dela é o dermatologista, e o PCDT inclui esse especialista na equipe.

Na criança pequena, o protocolo descreve uma complicação rara e grave, a crise celíaca. Costuma ser desencadeada por uma infecção quando o diagnóstico atrasa, em especial entre o primeiro e o segundo ano de vida. Traz diarreia com desidratação grave e barriga muito distendida e pode exigir internação. A anemia é um dos sinais que se repetem nas três formas. O texto sobre anemia em crianças mostra como ela costuma aparecer na infância.

Quem deve ser investigado?#

O PCDT indica o exame de sangue para quem tem os sintomas acima e também para grupos de risco, mesmo sem queixa:

  • parentes de primeiro grau de pessoas com doença celíaca (pais, irmãos e filhos);
  • pessoas com doenças autoimunes, como diabetes tipo 1, tireoidite autoimune, deficiência seletiva de IgA, hepatite autoimune e síndrome de Sjögren;
  • pessoas com síndrome de Down, Turner ou Williams;
  • pessoas com síndrome do intestino irritável.

O protocolo também lista situações sem os sintomas típicos em que o rastreamento é indicado. Entre elas estão a elevação de enzimas do fígado sem explicação, a osteopenia ou osteoporose, as aftas recorrentes, a infertilidade, os abortamentos de repetição, a menarca tardia, a menopausa precoce, a enxaqueca e a psoríase. Se você se encaixa em um desses grupos, leve a questão à consulta. O texto sobre exames preventivos por faixa etária ajuda a organizar o que pedir em cada fase.

Tigela de madeira vista de cima com arroz branco, frango grelhado fatiado, grão-de-bico, feijão e salada sobre tecido de juta
Arroz, feijão e grão-de-bico não vêm do trigo, do centeio nem da cevada, os cereais com glúten citados pelo Ministério da Saúde. O cuidado maior está na contaminação no preparo e nos industrializados, que devem informar no rótulo se contêm glúten. · Foto: Unsplash

Como é feito o diagnóstico?#

Aqui está a orientação que mais faz diferença na prática. O PCDT afirma que o rastreamento e o diagnóstico devem ser feitos enquanto a pessoa ainda come glúten. Os anticorpos dependem do glúten e a lesão do intestino regride com a dieta. Por isso, quem corta o glúten "para testar" antes dos exames pode ficar com resultados normais e sem diagnóstico. Antes de mudar a alimentação, converse com o médico.

O caminho descrito no protocolo tem três etapas.

1. Exame de sangue. O teste indicado é o antitransglutaminase IgA (tTG IgA), dosado junto com a IgA total. O PCDT atribui ao tTG IgA sensibilidade de 92% a 100% e especificidade de 91% a 100%. A IgA total entra porque quem tem deficiência de IgA pode ter falso negativo. Em crianças de até 2 anos com suspeita, o SUS incorporou em 2023 o anticorpo antigliadina deaminada IgG (DGP-IgG). Já o teste genético HLA-DQ2/DQ8 não foi incorporado ao SUS, porque não dá diagnóstico conclusivo, e o protocolo não o recomenda.

2. Endoscopia com biópsia. Com o exame de sangue positivo, o próximo passo é a endoscopia digestiva alta com biópsia do duodeno. O PCDT chama essa biópsia de "padrão-ouro" e pede ao menos seis fragmentos: dois do bulbo duodenal e quatro da segunda porção do duodeno. A biópsia também é indicada mesmo com o sangue negativo quando a suspeita é forte. Isso vale para diarreia crônica, anemia por falta de ferro sem outra causa, baixa estatura em crianças e dermatite herpetiforme confirmada.

3. Confirmação. O diagnóstico é confirmado quando o exame de sangue é positivo e a biópsia mostra lesão compatível, com coleta feita durante a dieta com glúten. As exceções citadas são pessoas com distúrbio de coagulação e gestantes, que não podem passar pela sedação. Nelas, o médico considera a história clínica, os exames de sangue e a resposta à dieta.

Como é a dieta sem glúten?#

O PCDT é claro: hoje, a única terapia comprovadamente eficaz é a dieta isenta de glúten, mantida por toda a vida. Isso significa excluir alimentos com trigo, centeio e cevada e seus derivados. O documento reconhece que a dieta é "restritiva, difícil e permanente" e muda a rotina da família. Ainda assim, deve ser rigorosa, porque a falta de tratamento pode levar à doença refratária.

Na prática, o protocolo traz alguns pontos que costumam gerar dúvida:

  • Aveia. Deve ser evitada quando pode ter sido contaminada na cadeia produtiva. A aveia não contaminada é segura para a maioria, exceto para uma pequena parcela de pacientes sensíveis a ela.
  • Utensílios. A orientação é separar apenas os utensílios de cozinha e os aparelhos de cozimento difíceis de lavar, para evitar contaminação. O resto pode ser compartilhado, desde que bem lavado.
  • Contato cruzado. O PCDT cita estudo em que a contaminação com glúten apareceu em 13,2% dos produtos industrializados e em 41,5% dos não industrializados. Para o protocolo, isso mostra que os industrializados rotulados "não contém glúten" têm menos contato cruzado que os produtos não industrializados.
  • Fibra. A dieta sem glúten costuma ter pouca fibra, o que pode causar prisão de ventre. O texto sobre alimentos ricos em fibras mostra onde buscar fibra fora do trigo.
  • Lactose. Com a lesão do intestino, pode haver intolerância temporária à lactose e à sacarose. Segundo o PCDT, ela costuma reverter em cerca de dois meses de tratamento.

Quem não é celíaco não precisa cortar o glúten. O PCDT afirma que "não há comprovação de que o glúten faça mal a crianças e adultos sem doença celíaca". A retirada é recomendada só para quem tem o diagnóstico ou outra condição relacionada ao glúten. Se o objetivo é perder peso, o caminho está no texto sobre como emagrecer de forma saudável, não na exclusão do glúten.

Seguir a dieta é difícil, e o protocolo admite isso. Um estudo com crianças em São Paulo, citado no PCDT, mostrou que 20% não seguiam a dieta por completo. Os motivos apontados foram custo alto, sabor, falta de produtos, eventos sociais e falta de orientação. O protocolo recomenda equipe com nutricionista, apoio psicológico e participação em grupos de apoio, que se associa a maior adesão.

Como ler o rótulo#

Desde a Lei nº 10.674/2003, todos os alimentos industrializados devem trazer no rótulo a inscrição "contém glúten" ou "não contém glúten", em destaque e de fácil leitura.

A RDC nº 727/2022 da Anvisa, que regula o rótulo dos alimentos embalados, soma outras informações:

  • a lista dos principais alimentos que causam alergias começa por "trigo, centeio, cevada, aveia e suas estirpes hibridizadas";
  • quando o produto contém esses cereais, o rótulo traz "ALÉRGICOS: CONTÉM...";
  • quando o fabricante não consegue garantir a ausência de contaminação, o rótulo traz "ALÉRGICOS: PODE CONTER...";
  • essas advertências ficam logo abaixo da lista de ingredientes, em caixa alta e negrito;
  • se a presença ou ausência de glúten mudar, o produto deve exibir "NOVA FÓRMULA", "NOVA COMPOSIÇÃO" ou "NOVA RECEITA" por pelo menos 90 dias.

A regra pode mudar. Em maio de 2025, a Anvisa abriu um diálogo setorial sobre a rotulagem de glúten, com comparação de limites e critérios de outros países. Até a publicação de uma norma nova, valem as regras acima. Por isso, vale reler o rótulo mesmo de um produto que você já conhece.

Como é o acompanhamento depois do diagnóstico?#

O PCDT orienta consultas com médico e nutricionista a cada três a seis meses no primeiro ano e anualmente depois que os exames se estabilizam. No diagnóstico, pede exames como hemograma, ferritina, vitamina B12, glicemia, função da tireoide, enzimas do fígado, cálcio, fósforo e densitometria óssea. Deficiências encontradas, como a de ferro, são tratadas pelo médico, sempre junto com a dieta.

O anticorpo tTG IgA deve ser repetido seis meses depois do início da dieta. Ele pode ser medido no diagnóstico, aos três meses, aos seis meses e com um ano, e depois anualmente. Como ele depende do glúten, deve cair com a dieta. Se não cair, o protocolo levanta a suspeita de contaminação. A biópsia de controle não é de rotina para todos. É aconselhada de um a dois anos após o início da dieta, sobretudo em quem tem mais de 40 anos ou começou com sintomas mais graves.

Quando os sintomas continuam, o PCDT diz que o principal motivo é a dieta não estar sendo seguida por completo. A conduta é revisar a alimentação com o nutricionista antes de pensar em outras causas.

Quando procurar atendimento#

Procure a unidade básica de saúde ou o médico que acompanha você se houver:

  • diarreia que dura semanas, barriga distendida ou perda de peso sem explicação;
  • anemia por falta de ferro que volta ou não melhora com o tratamento;
  • criança com baixa estatura ou que parou de ganhar peso;
  • parente de primeiro grau com doença celíaca, ou diagnóstico de diabetes tipo 1, tireoidite autoimune ou síndrome de Down na família;
  • lesões de pele com bolhas pequenas e muita coceira em cotovelos, joelhos e nádegas;
  • sintomas que voltam ou persistem mesmo seguindo a dieta sem glúten.

Procure um serviço de urgência, ou acione o Samu pelo 192, se uma criança pequena tiver diarreia intensa com sinais de desidratação, como muita sede, pouca urina, olhos fundos ou criança muito mole, sinais listados pelo Ministério da Saúde no cartaz de manejo da diarreia. O PCDT descreve a crise celíaca como complicação potencialmente fatal, com diarreia, desidratação grave e barriga muito distendida.

Este texto é informativo e não substitui a consulta. O diagnóstico de doença celíaca e o plano de dieta são definidos pela equipe de saúde, de preferência com acompanhamento de nutricionista.

Perguntas frequentes

Quais são os primeiros sintomas da doença celíaca?

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca, do Ministério da Saúde, descreve três formas. Na intestinal, a clássica, aparecem diarreia crônica, barriga distendida, dor abdominal, gases, vômitos, falta de apetite e perda de peso. Na extraintestinal, os sintomas digestivos ficam em segundo plano e predominam anemia por falta de ferro, cansaço, dor de cabeça, baixa estatura, osteoporose, aftas recorrentes ou alterações no ciclo menstrual. Há ainda a forma sem sintomas, descoberta por exames.

Posso cortar o glúten antes de fazer o exame?

Não é o recomendado. O protocolo do Ministério da Saúde afirma que o rastreamento sorológico e o diagnóstico devem ser feitos enquanto a pessoa ainda come glúten, porque os anticorpos dependem dele e a lesão do intestino regride com a dieta. Quem corta o glúten por conta própria pode ter exames normais mesmo tendo a doença. Converse com o médico antes de mudar a alimentação.

Qual exame de sangue detecta a doença celíaca?

O protocolo do Ministério da Saúde indica dosar ao mesmo tempo o anticorpo antitransglutaminase IgA (tTG IgA) e a IgA total, porque a deficiência de IgA pode dar falso negativo. Segundo o documento, o tTG IgA tem sensibilidade de 92% a 100% e especificidade de 91% a 100%. Em crianças de até 2 anos com suspeita, o SUS incorporou o anticorpo antigliadina deaminada IgG (DGP-IgG). O teste genético HLA-DQ2/DQ8 não foi incorporado ao SUS.

Precisa de biópsia para confirmar a doença celíaca?

Na regra do protocolo do Ministério da Saúde, sim: o exame de sangue indica quem deve fazer endoscopia, e o diagnóstico é confirmado pela biópsia do duodeno, com pelo menos seis fragmentos. As exceções citadas são pessoas com distúrbio de coagulação e gestantes, que não podem passar pela sedação; nelas, contam a história clínica, os exames de sangue e a resposta à dieta.

Aveia tem glúten?

O protocolo do Ministério da Saúde orienta celíacos a evitar alimentos que podem ser contaminados por glúten na cadeia produtiva, como a aveia. O mesmo documento ressalva que a aveia não contaminada é segura para a maioria, exceto para uma pequena parcela de pacientes sensíveis a ela. Na rotulagem, a Anvisa inclui a aveia, junto com trigo, centeio e cevada, na lista dos principais alimentos que causam alergias.

Dieta sem glúten faz bem para quem não é celíaco?

O protocolo do Ministério da Saúde é direto: não há comprovação de que o glúten faça mal a crianças e adultos sem doença celíaca, e a retirada do glúten é recomendação só para quem tem diagnóstico de doença celíaca ou outra condição relacionada ao glúten. O documento lembra ainda que a dieta sem glúten costuma ter pouca fibra, o que pode causar prisão de ventre.

Como saber se um produto tem glúten no Brasil?

A Lei nº 10.674, de 2003, obriga todos os alimentos industrializados a trazer no rótulo a inscrição "contém glúten" ou "não contém glúten". A RDC nº 727/2022, da Anvisa, exige ainda a advertência de alergênicos, como "ALÉRGICOS: CONTÉM TRIGO" ou "PODE CONTER", logo abaixo da lista de ingredientes. O protocolo do Ministério da Saúde cita estudo em que o contato cruzado com glúten apareceu em 13,2% dos produtos industrializados e em 41,5% dos não industrializados.

Fontes consultadas

  1. 1.Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8, de 23/06/2025) — Ministério da Saúde / Conitec
  2. 2.Lei nº 10.674, de 16 de maio de 2003: obriga os rótulos a informar "contém glúten" ou "não contém glúten" — Presidência da República
  3. 3.Resolução RDC nº 727, de 1º de julho de 2022: rotulagem dos alimentos embalados (advertências de alergênicos e glúten) — Anvisa / Diário Oficial da União
  4. 4.Diálogo setorial virtual: rotulagem de glúten em alimentos (09/05/2025) — Anvisa
  5. 5.Manejo do paciente com diarreia (cartaz): sinais de desidratação — Ministério da Saúde
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