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Estrias: Por Que Aparecem, Quem Tem Mais Risco e o Que Funciona no Tratamento

Estrias são cicatrizes da pele esticada e aparecem em 50% a 90% das gestantes. A Cochrane não encontrou creme que previna estria na gravidez. Veja quem tem mais risco, o que a evidência mostra sobre ácido retinoico e laser e o que não usar na gestação.

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Redação Blog com Saúde

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Publicado em ·10 min de leitura

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Mulher sentada sobre um edredom cinza espalhando creme branco na perna, com um pote vermelho na outra mão
Mulher sentada sobre um edredom cinza espalhando creme branco na perna, com um pote vermelho na outra mão

Estria é das queixas de pele mais comuns e das mais cercadas de promessa. Na prateleira há creme "antiestrias" para cada fase da vida, e nas redes sobra receita caseira. A pergunta que importa é outra: o que a ciência mostrou que funciona? A resposta da maior revisão sobre o tema na gravidez, feita pela Cochrane, é desconfortável para quem vende creme: nenhum preparado aplicado na pele provou prevenir estria. Este texto explica por que ela aparece, quem tem mais risco, o que pode melhorar o aspecto e o que a gestante deve deixar para depois do parto.

O que é estria?#

A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) define a estria como uma "atrofia tegumentar adquirida": ela surge quando as fibras elásticas e de colágeno, que dão firmeza à pele, se rompem e formam cicatrizes. Na prática, a estria é uma cicatriz por dentro da pele, sem corte por fora.

Ela muda de cara com o tempo. Segundo a SBD, no início as estrias são linhas rosadas ou da cor da pele, afundadas ou levemente elevadas. Na fase tardia, ficam brancas, com espessura e largura variáveis. Os locais mais comuns são nádegas, coxas, abdome e costas, e a revisão de Farahnik e colaboradores, sobre estrias da gravidez, acrescenta mamas e quadris.

Essa diferença de fase importa para o tratamento, como você vai ver adiante: a estria rosada ainda está em atividade, e a branca já é cicatriz madura.

Por que as estrias aparecem?#

A causa exata não é conhecida. O que a SBD descreve é o mecanismo mais aceito: uma distensão excessiva ou abrupta da pele provoca inflamação e, depois, o rompimento das fibras elásticas e de colágeno. A entidade lista as situações em que isso costuma acontecer:

  • crescimento rápido na puberdade;
  • aumento exagerado de músculos com exercício físico excessivo;
  • colocação de expansores de pele ou próteses, como as de mama;
  • gravidez;
  • obesidade;
  • uso prolongado de corticoide, seja em pomada, comprimido ou injeção;
  • anorexia nervosa.

O item do corticoide merece atenção porque muita gente usa pomada por conta própria. O caderno Dermatologia na Atenção Básica, do Ministério da Saúde, lista as estrias entre os efeitos colaterais dos corticoides tópicos, junto com afinamento da pele e vasinhos aparentes, e diz que esses efeitos aparecem mais rápido em pele fina, como rosto, dobras e região genital. O mesmo documento lembra que o corticoide na pele facilita infecções por fungos, assunto do texto sobre micose de pele.

Na gravidez, os hormônios também entram na conta. A revisão de Farahnik e colaboradores descreve que a pele com estria tem o dobro de receptores de estrogênio e mais receptores de androgênio e de glicocorticoide do que a pele saudável, e que o ambiente hormonal da gestação parece deixar o tecido mais vulnerável quando é esticado.

Quem tem mais risco?#

A SBD afirma que as estrias são mais frequentes em mulheres. Na gestação, elas são a regra, não a exceção: a revisão da Cochrane estima que apareçam em 50% a 90% das grávidas, em geral no terceiro trimestre. Um estudo citado na revisão de Farahnik e colaboradores encontrou 43% das mulheres com estrias antes da 24ª semana, o que mostra que nem sempre elas esperam o fim da gravidez.

Os fatores de risco mais consistentes, segundo essa revisão, que analisou 28 estudos publicados até agosto de 2016, são:

FatorO que os estudos mostraram
Idade mais jovemMais estrias em mães mais novas. Num estudo com 309 mães de primeiro filho, 20% das adolescentes tinham estrias graves, quadro que não apareceu acima dos 30 anos
História pessoalQuem já tinha estrias nas mamas ou coxas teve mais estrias na gestação
História familiarMãe, irmãs ou outras parentes com estrias na gravidez aumentam o risco
PesoPeso mais alto antes da gravidez e no fim dela, e maior ganho de peso na gestação
Bebê maiorMaior peso do bebê ao nascer

A ressalva vem dos próprios autores: os estudos são pequenos, alguns não confirmaram o peso nem a idade como fator, e há fatores de confusão, como renda e escolaridade. A genética parece pesar tanto quanto o quilo a mais, o que ajuda a explicar por que duas gestantes com o mesmo ganho de peso terminam a gravidez com pele tão diferente.

Creme previne estria na gravidez?#

Aqui está o achado que muda a conversa. A revisão sistemática da Cochrane sobre preparados tópicos para prevenir estrias na gestação reuniu seis estudos com 800 mulheres. Os produtos testados incluíam cremes com vitamina E, ácido hialurônico, azeite de oliva e manteiga de cacau. Conclusão: aplicar o preparado nas áreas de risco não preveniu as estrias. Os três estudos que mediram a gravidade (461 mulheres) também não mostraram diferença clara. A revisão é de 2012, os estudos eram pequenos (quatro deles com menos de 100 mulheres cada) e a própria Cochrane diz que a causa exata das estrias ainda é incerta.

A revisão de Farahnik e colaboradores, de 2017, olhou os mesmos e outros estudos e chegou a um retrato parecido. Azeite, óleo de amêndoa e manteiga de cacau falharam de forma consistente em reduzir as estrias em comparação com placebo. Os dois estudos em que esses óleos pareceram ajudar usavam massagem diária, e os autores dizem que o resultado pode refletir só o efeito da massagem. Dois cremes com extrato de centela asiática e dois com ácido hialurônico mostraram algum benefício, mas os cremes com ácido hialurônico também eram aplicados com massagem, e os autores pedem estudos maiores antes de qualquer recomendação firme.

Gestante de suéter branco de tricô e calça jeans sentada perto da janela, com as duas mãos apoiadas na barriga
Estrias aparecem em 50% a 90% das gestantes, segundo a Cochrane. Hidratar faz bem à pele, mas nenhum creme provou evitar as marcas. · Foto: Unsplash

Isso não quer dizer que hidratar a barriga seja inútil. A SBD resume bem: o uso de hidratantes, "embora não haja evidência científica de correlação com a prevenção de estrias na gestação", é prática comum e benéfica para a qualidade da pele. Hidratar alivia a coceira e o ressecamento. Só não vale pagar caro esperando que o pote impeça a estria.

O que não usar na gravidez#

A gestante que quer tratar estria precisa saber de três limites, todos com base em fonte:

  1. Ácido retinoico. É um dos cremes que a SBD lista para tratar estrias, mas o Manual de Gestação de Alto Risco, do Ministério da Saúde (2022, capítulo 69), cita o ácido retinoico entre as substâncias teratogênicas, isto é, que aumentam o risco de malformação do bebê. A revisão de Farahnik e colaboradores registra que a categoria de risco na gravidez limita o uso da tretinoína, nome do ácido retinoico em medicamento.
  2. Laser e luz intensa pulsada com finalidade estética. A revisão de Trivedi e colaboradores, sobre a segurança de procedimentos estéticos na gravidez e na amamentação, conclui que laser e luz intensa pulsada não são indicados para fins cosméticos na gestação, por falta de dados de segurança.
  3. Outros ativos com segurança incerta. A mesma revisão diz que a gestante costuma ser orientada a evitar tazaroteno e hidroquinona, e que tratar mudanças próprias da gravidez, como melasma e estrias, durante a gestação não é recomendado.

Na prática, a gestação é fase de hidratar e de cuidar do ganho de peso junto com a equipe do pré-natal. O tratamento ativo fica para depois do parto. Se você vai amamentar, conte isso ao médico antes de começar qualquer creme ou procedimento.

Quais tratamentos melhoram a estria?#

A SBD é franca: o tratamento das estrias "representa um desafio e os resultados nem sempre são satisfatórios". O ideal é começar logo que elas surgem, na fase rosada. As opções que a entidade lista, isoladas ou combinadas e sempre com acompanhamento médico, são:

  • cremes com ácido retinoico, ácido glicólico ou vitamina C;
  • microdermoabrasão;
  • radiofrequência;
  • microagulhamento;
  • luzes e lasers, como laser corante pulsado, excimer laser, luz intensa pulsada, Nd:YAG e lasers fracionados não ablativos e ablativos (érbio e CO2).

O que os estudos mostraram, segundo a revisão de Farahnik e colaboradores:

TratamentoResultado nos estudosRessalva
Tretinoína (ácido retinoico) em cremeMelhora global de até 47% com 0,05% associada a ácido glicólico; em outro estudo, com 0,1% por 3 meses, redução de 20% no comprimento e 23% na largura das estriasEstudos com 10 e 26 mulheres; concentração abaixo de 0,05% não mostrou efeito; irritação, vermelhidão e descamação são comuns
Laser fracionado não ablativoMelhora média de 50% a 75% das lesões em estrias em geral, após 2 a 6 sessõesEm estrias da gravidez, um estudo pequeno mostrou melhora de 1% a 24%
Laser de CO2 fracionadoMelhora de 50% a 75%, em especial na estria brancaOutros estudos tiveram resultados inconsistentes; mais dor e recuperação mais longa
Microagulhamento e microdermoabrasãoMelhora em vários estudos, a microdermoabrasão em especial na estria rosadaEstudos em estrias que não são da gravidez
Luz ultravioletaRepigmenta a estria brancaResultado temporário, exige manutenção

Duas lições saem dessa tabela. Primeiro, nenhum tratamento apaga a estria: todos falam em melhora parcial. Segundo, não há estudo comparando um tratamento diretamente com outro, então ninguém pode garantir que o laser vale mais que o creme no seu caso. A indicação é do dermatologista, que avalia a fase da estria, o tipo de pele e o risco de manchas, porque alguns lasers e luzes podem escurecer a pele, sobretudo a pele mais morena.

Dá para prevenir?#

Em parte. A SBD diz que as estrias "devem e podem ser evitadas antes de se instalarem permanentemente" e aponta como cuidado importante controlar o ganho de peso, para que a pele não sofra grandes distensões. Na gravidez, o ganho de peso é acompanhado no pré-natal e não deve ser restringido por conta própria. Fora dela, emagrecer ou ganhar massa muscular de forma gradual é melhor para a pele do que mudanças bruscas. O texto sobre como emagrecer de forma saudável ajuda a planejar isso.

Outras medidas com lógica e fonte:

  • Corticoide só com receita. Pomadas com corticoide têm lugar em várias doenças de pele, inclusive na psoríase, onde o protocolo do Ministério da Saúde limita o uso a períodos restritos. O uso prolongado e sem acompanhamento é uma das causas de estria.
  • Hidratação. Não previne estria, mas mantém a pele confortável. A rotina básica está no guia de cuidados com o corpo.
  • Tratar cedo. Se a estria apareceu e ainda está rosada, essa é a melhor janela para conversar com o dermatologista.

Quando procurar atendimento#

Estria não é perigosa, mas alguns sinais pedem consulta:

  1. Estrias que surgiram durante o uso de corticoide, em pomada, comprimido ou injeção. O caderno do Ministério da Saúde descreve, entre os efeitos do corticoide em comprimido, ganho de peso, rosto arredondado ("em lua cheia") e acúmulo de gordura no alto das costas. Não interrompa o remédio sozinho: converse com quem prescreveu.
  2. Estrias que aparecem sem nenhuma das situações listadas pela SBD, ou seja, sem gravidez, sem estirão, sem mudança de peso ou de massa muscular e sem uso de corticoide.
  3. Estrias que acompanham perda de peso importante ou restrição alimentar, já que a anorexia nervosa está entre as causas listadas pela SBD.
  4. Desejo de tratar: o dermatologista indica a técnica certa para a fase da estria. Na gravidez, converse antes com a equipe do pré-natal.

Este texto é informativo e não substitui a consulta. O diagnóstico e o tratamento das estrias são definidos por um profissional de saúde.

Perguntas frequentes

Estria tem cura?

Estria é uma cicatriz, e cicatriz não some por completo. A Sociedade Brasileira de Dermatologia diz que o tratamento é um desafio, que os resultados nem sempre são satisfatórios e que variam de melhora importante a pouca mudança. As chances são maiores quando a estria ainda está rosada, na fase recente.

Creme ou óleo previne estria na gravidez?

Não há prova de que previna. A revisão da Cochrane reuniu seis estudos com 800 gestantes que usaram cremes e óleos, incluindo azeite e manteiga de cacau, e não encontrou prevenção das estrias. A SBD acrescenta que o hidratante, embora sem evidência para prevenir estria na gestação, faz bem para a qualidade da pele.

Posso usar ácido retinoico para estria na gravidez?

Não use sem falar com o médico do pré-natal. O Manual de Gestação de Alto Risco, do Ministério da Saúde, cita o ácido retinoico entre as substâncias teratogênicas, ou seja, que aumentam o risco de malformação do bebê. A revisão de Farahnik e colaboradores registra que a categoria de risco na gravidez limita o uso da tretinoína, e o tratamento costuma ficar para depois do parto.

Por que a estria começa vermelha e depois fica branca?

Segundo a SBD, a estria inicial é rosada ou da cor da pele, às vezes um pouco elevada, e na fase tardia fica branca. A fase rosada corresponde ao período de inflamação, e é nela que o tratamento tem mais chance de resultado. A estria branca já é uma cicatriz madura.

Quem tem mais chance de ter estria na gravidez?

A revisão de Farahnik e colaboradores, publicada em 2017, apontou como principais fatores de risco a idade materna mais jovem, já ter tido estrias, ter mãe ou outros parentes com estrias na gestação, o peso mais alto antes da gravidez e no fim dela e o bebê maior. A ressalva dos autores: os estudos são pequenos e nem todos confirmam o peso como fator.

Laser tira estria?

Pode melhorar, mas não apaga. A revisão de Farahnik e colaboradores cita estudos com laser fracionado não ablativo e laser de CO2 com melhora média de 50% a 75% das lesões, mas também resultados inconsistentes e estudos pequenos. A SBD lista vários lasers e luzes entre as opções e diz que os resultados são variáveis. Na gravidez, laser com finalidade estética não é indicado.

Pomada de corticoide pode causar estria?

Pode. O caderno Dermatologia na Atenção Básica, do Ministério da Saúde, lista estrias entre os efeitos colaterais dos corticoides tópicos, ao lado de afinamento da pele e vasinhos, e a SBD inclui o uso prolongado de corticoide em pomada, comprimido ou injeção entre as situações que favorecem estrias. Use só com prescrição e pelo tempo indicado.

Fontes consultadas

  1. 1.Estrias: o que é, sintomas, tratamento e prevenção — Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD)
  2. 2.Topical preparations for preventing stretch marks in pregnancy (revisão sistemática, 2012) — Cochrane
  3. 3.Striae gravidarum: risk factors, prevention, and management (Farahnik e colaboradores, 2017) — International Journal of Women's Dermatology (PMC)
  4. 4.A review of the safety of cosmetic procedures during pregnancy and lactation (Trivedi e colaboradores, 2017) — International Journal of Women's Dermatology (PMC)
  5. 5.Manual de Gestação de Alto Risco (2022), capítulo 69: malformações fetais e aconselhamento pré-natal — Ministério da Saúde
  6. 6.Dermatologia na Atenção Básica de Saúde (Cadernos de Atenção Básica nº 9): uso de corticosteroides — Ministério da Saúde
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