Chás e Remédios para Dormir: O Que Tem Evidência
A diretriz de 2023 da Associação Brasileira do Sono votou contra valeriana, maracujá, camomila, mulungu e ashwagandha como tratamento de insônia, e contra antialérgicos e benzodiazepínicos como remédio para dormir. O que a Anvisa diz de cada chá, os riscos e o que de fato trata a insônia.
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Uma xícara quente antes de deitar é um ritual gostoso, e ninguém precisa abrir mão dele. O problema começa quando o chá vira tratamento para meses de noites mal dormidas. Em 2023, a Associação Brasileira do Sono pôs em votação cinco plantas usadas para dormir. Nenhuma foi recomendada para tratar insônia.
Chá para dormir funciona?#
Para relaxar, talvez. Para tratar insônia, as fontes não sustentam.
A diretriz de 2023 da Associação Brasileira do Sono avaliou cinco fitoterápicos. Valeriana, maracujá (Passiflora incarnata), camomila, ashwagandha e mulungu receberam a mesma resposta dos especialistas: não recomendado, tanto para quem demora a pegar no sono quanto para quem acorda no meio da noite. O consenso variou de 76% a 94%.
Uma meta-análise publicada em 2015 na Sleep Medicine Reviews foi na mesma direção. Ela reuniu 14 ensaios clínicos, com 1.602 pessoas com insônia, que testaram valeriana, camomila, kava e wuling, cada um sozinho. Nenhuma planta se saiu melhor que o placebo, ou que o tratamento de comparação, em nenhuma das 13 medidas de eficácia. A conclusão dos autores: não há evidência suficiente para apoiar o uso de plantas no tratamento da insônia.
| Planta | O que a Anvisa registra | O que os estudos mostram | Diretriz brasileira 2023 |
|---|---|---|---|
| Valeriana | Auxiliar como sedativo leve e indutor do sono | Resultados inconsistentes | Não recomendada |
| Maracujá (Passiflora incarnata) | Auxiliar na ansiedade e na insônia leves | Um ensaio de duas semanas com melhora no tempo de sono | Não recomendado |
| Camomila | Queixas digestivas leves, resfriado, pele e boca | Um ensaio sem diferença do placebo | Não recomendada |
| Melissa | Auxiliar na ansiedade e na insônia leves | Não avaliada pela diretriz | Não votada |
| Mulungu | Auxiliar na ansiedade e na insônia leves | Nenhum estudo sobre sono, segundo a diretriz | Não recomendado |
A coluna da Anvisa vem do Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, que reúne as fórmulas oficiais que farmácias de manipulação podem preparar e que servem de referência para a notificação de produtos na agência. Repare na palavra que se repete: leve. O Formulário não fala em tratar insônia crônica.
O que a evidência diz de cada planta#
Camomila#
Para o sono, a evidência da camomila é fraca. A diretriz brasileira cita um ensaio controlado em que a camomila não teve efeito diferente do placebo. A versão atual do Formulário da Anvisa lista o chá de camomila para queixas digestivas leves, como distensão abdominal e espasmos, e não inclui o sono entre as indicações. O Memento Fitoterápico da Anvisa, de 2016, guia de consulta para quem prescreve, a descreve como antiespasmódico, ansiolítico e sedativo leve.
Uma meta-análise de 2019 na Phytotherapy Research encontrou um único ensaio que mediu insônia, sem mudança na gravidade. Viu melhora em questionários de qualidade do sono. Uma revisão de 2024 na Complementary Therapies in Medicine, com dez estudos, chegou a algo parecido: menos despertares em alguns estudos, mas sem aumento do tempo de sono nem melhora no funcionamento durante o dia.

Maracujá (passiflora)#
O Formulário da Anvisa lista a Passiflora incarnata como auxiliar no alívio da ansiedade e da insônia leves. A diretriz brasileira cita um ensaio duplo-cego em que o extrato, tomado por duas semanas, aumentou o tempo total de sono medido em polissonografia. Um estudo só não basta: os especialistas votaram contra o uso para insônia, com 94% de consenso.
Um detalhe: a 2ª edição do Formulário excluiu as fórmulas de outras duas espécies de maracujá, Passiflora alata e Passiflora edulis, que estavam na edição anterior. Hoje a monografia é só da P. incarnata.
Valeriana#
Quem espera um efeito claro se decepciona. Segundo a diretriz brasileira, a meta-análise disponível mostrou efeitos inconsistentes, talvez porque a qualidade dos extratos varia muito. A Academia Americana de Medicina do Sono, na diretriz de 2017 sobre remédios para insônia, sugere que os profissionais não usem a valeriana, nem para pegar no sono nem para manter o sono, com evidência de baixa qualidade.
O Formulário da Anvisa admite a raiz de valeriana como auxiliar sedativo leve e indutor do sono, com uma ressalva que quase ninguém lê: o efeito tem início gradual e só aparece após duas a quatro semanas de uso contínuo. Uma xícara de vez em quando, numa noite ruim, não é o uso que o Formulário descreve.
Melissa, mulungu e a confusão da erva-cidreira#
O Formulário lista a melissa (Melissa officinalis) e o mulungu como auxiliares na ansiedade e na insônia leves. Para o mulungu, a diretriz brasileira é seca: nenhum estudo avaliou o efeito sobre o sono. O uso é só para adultos, por no máximo 30 dias seguidos, e não deve ser feito por quem tem insuficiência cardíaca ou arritmia.
Cuidado com o nome popular. A planta que o Formulário chama de "erva-cidreira de arbusto" é outra espécie, a Lippia alba, indicada para ansiedade leve. O capim-santo, também chamado de capim-cidreira, é uma terceira. A cartilha da Anvisa avisa que plantas diferentes podem ter o mesmo nome popular, o que pode levar a intoxicação ou à falta de efeito.
Chá do mercado, planta da ervanaria e fitoterápico: qual é a diferença?#
"Nem todo chá de planta é medicamento ou medicinal!", diz a cartilha da Anvisa de 2022. No Brasil, o chá pode estar regularizado como alimento ou como fitoterápico, e só o segundo pode ter alegação de uso medicinal.
- Chá alimentício: sachê ou granel de supermercado, ou bebida pronta. É alimento, sem promessa de tratamento.
- Planta medicinal seca: vendida embalada, com o nome botânico, em farmácias e ervanarias. Não pode ter alegação terapêutica nem bula.
- Chá medicinal ou fitoterápico: regularizado como medicamento, vendido em farmácias e drogarias, com bula ou folheto.
A mesma cartilha manda desconfiar de produto que promete cura e lista frases que não cabem em medicamento, como "Não é medicamento, é um chá" e "100% Natural".
Natural tem risco? Interações e contraindicações#
A cartilha da Anvisa diz que a crença de que um produto natural, "se bem não fizer, mal não vai fazer", não é verdadeira. Os documentos da agência trazem alertas concretos:
- Álcool e calmantes: o Formulário diz que a valeriana não deve ser usada com bebida alcoólica ou sedativos sintéticos e que se deve evitar associá-la a benzodiazepínicos, porque pode potencializar a depressão do sistema nervoso. O maracujá não deve ser usado por quem trata com sedativos nem junto com bebida alcoólica.
- Anticoagulantes: o maracujá possivelmente interage com a varfarina, e a camomila não deve ser tomada com anticoagulantes.
- Direção: valeriana, maracujá, melissa e lavanda podem comprometer a capacidade de dirigir e operar máquinas.
- Cirurgia: o uso de valeriana deve ser suspenso 15 dias antes de cirurgias. A cartilha pede que o médico seja informado de qualquer planta em uso.
- Alergia: quem tem alergia a plantas da família Asteraceae, a mesma da margarida, não deve usar camomila.
- Fígado: o Memento registra vários casos de toxicidade hepática na Europa com produtos à base de kava-kava e contraindica o uso em quem tem doença no fígado ou toma remédios que podem lesar o fígado.
A diretriz brasileira acrescenta que a kava pode interagir com benzodiazepínicos. Quem usa remédio controlado, para ansiedade ou depressão, deve conversar com o médico antes de qualquer chá "calmante". Se a ansiedade é o que tira o sono, o texto sobre crise de ansiedade ajuda a reconhecer o quadro.
Gravidez, amamentação e crianças#
Aqui as fontes são diretas. O Formulário da Anvisa contraindica valeriana, maracujá, melissa e lavanda durante a gestação, a lactação e para menores de 12 anos, por falta de dados que comprovem a segurança. O mulungu é contraindicado na gestação, na lactação e para menores de 18 anos. O Memento contraindica a camomila para gestantes e a kava na gravidez e na amamentação.
A diretriz da Associação Brasileira do Sono votou contra todos os fitoterápicos e todos os remédios avaliados para insônia na gravidez e na amamentação. Só foram recomendadas abordagens sem medicamento, como a TCC-I. O texto sobre alimentação e medicamentos na amamentação detalha o que vale para chás nessa fase.
E os remédios para dormir?#
As diretrizes não falam de marcas nem de doses para o leitor escolher. Falam de classes, e o recado é parecido com o dos chás: o que se compra sem receita para dormir não tem evidência.
Antialérgicos sem receita. A diretriz brasileira afirma que o efeito sedativo dos antialérgicos de primeira geração fez deles remédio popular para dormir, vendido sem receita, apesar da falta de evidência científica de eficácia e segurança. Votou contra prometazina, hidroxizina e dimenidrinato para insônia. Eles podem deixar sonolência, falta de atenção e reflexos piores no dia seguinte, inclusive ao volante, e somam sedação com álcool. A Academia Americana sugere não usar difenidramina.
Benzodiazepínicos. Os calmantes dessa classe não são medicamentos de escolha para insônia, diz a diretriz brasileira, pelos riscos de abuso, dependência, abstinência, intoxicação, acidentes e morte. Ela não recomenda usá-los por mais de quatro semanas, porque quase metade de quem os toma todo dia por mais de um mês pode desenvolver dependência. Em idosos, há risco de quedas e fraturas.
Remédios "Z". Zolpidem, zopiclona e eszopiclona são aprovados no Brasil para insônia e foram recomendados pela diretriz brasileira para casos específicos. Mesmo assim, ela pede uso por curto prazo, de preferência intermitente, e associa o zolpidem a parassonias, como comportamentos complexos durante o sono, e a síndrome de dependência. Parassonias e mudanças de comportamento são mais comuns quando há álcool junto. Na diretriz americana, todas as recomendações a favor de remédios foram fracas.
Triptofano, GABA e melatonina. A diretriz brasileira votou contra triptofano e GABA como tratamento de insônia, e a Academia Americana sugere não usar triptofano nem melatonina para insônia crônica. A melatonina tem regras próprias, explicadas no texto sobre melatonina, a regra da Anvisa e a higiene do sono.
Qual remédio, se algum, e por quanto tempo é decisão do profissional que acompanha o caso. Começar ou parar por conta própria, inclusive um chá, não é o caminho.
Então o que funciona para insônia?#
Para insônia crônica, o primeiro tratamento é a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I). A diretriz brasileira a destaca como terapia de escolha para a maioria dos pacientes e lamenta que, na prática, ela seja pouco oferecida, enquanto o tratamento se apoia em remédio sem plano de duração. O texto sobre insônia e o tratamento de primeira linha explica como funciona a TCC-I e quando a dificuldade para dormir vira insônia crônica.
O chá pode continuar no ritual da noite, desde que sem cafeína e sem a expectativa de que resolva o problema. O guia de qualidade do sono reúne o que tem evidência nos hábitos do dia a dia.
Quando procurar atendimento#
Procure a unidade básica de saúde ou um médico se:
- a dificuldade para dormir se repete três ou mais vezes por semana e já atrapalha o dia;
- você usa chá, fitoterápico ou remédio para dormir toda noite e não consegue dormir sem ele;
- você toma remédio controlado, anticoagulante ou qualquer remédio de uso contínuo e quer usar uma planta;
- está grávida ou amamentando e não consegue dormir;
- apareceu qualquer reação depois de um chá ou produto "natural": o Formulário da Anvisa orienta suspender o uso e consultar um médico;
- há ronco alto, sonolência forte durante o dia ou tristeza persistente junto com a insônia.
Leve à consulta o nome e a embalagem de tudo o que você usa, inclusive chás. Este texto é informativo e não substitui a consulta. O diagnóstico de insônia e a escolha do tratamento cabem ao profissional de saúde.
Perguntas frequentes
Qual chá é melhor para dormir?
Nenhum tem evidência suficiente para tratar insônia. A diretriz de 2023 da Associação Brasileira do Sono votou contra o uso de valeriana, maracujá (Passiflora incarnata), camomila, ashwagandha e mulungu no tratamento da insônia. Uma meta-análise publicada em 2015 na Sleep Medicine Reviews reuniu 14 ensaios clínicos com 1.602 pessoas e não encontrou diferença entre as plantas testadas e o placebo em nenhuma das 13 medidas de eficácia.
Chá de camomila ajuda a dormir?
A evidência é fraca. A diretriz da Associação Brasileira do Sono cita um ensaio clínico em que a camomila não teve efeito diferente do placebo e não a recomenda para insônia. O Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, da Anvisa, lista a camomila para queixas digestivas leves, resfriado, pele e boca, e não para o sono. Revisões mais recentes viram melhora em questionários de qualidade do sono, mas não em quanto tempo a pessoa dorme.
Valeriana funciona para insônia?
Os estudos são inconsistentes. A diretriz da Associação Brasileira do Sono atribui isso à variação na qualidade dos extratos e não recomenda a valeriana para insônia. A Academia Americana de Medicina do Sono também sugere que os profissionais não a usem, com evidência de baixa qualidade. O Formulário da Anvisa admite a valeriana como auxiliar sedativo leve e indutor do sono e avisa que o efeito só aparece após duas a quatro semanas de uso.
Chá para dormir pode fazer mal?
Pode, principalmente em quem já usa outros remédios. O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa diz que valeriana não deve ser usada com bebida alcoólica ou sedativos, que o maracujá (Passiflora incarnata) não deve ser usado com sedativos e pode interagir com a varfarina, e que valeriana, maracujá e melissa podem atrapalhar a capacidade de dirigir. O Memento Fitoterápico da Anvisa registra casos de toxicidade no fígado com produtos à base de kava-kava.
Grávida ou quem amamenta pode tomar chá para dormir?
As fontes oficiais dizem que não para as plantas mais usadas. O Formulário de Fitoterápicos da Anvisa contraindica valeriana, maracujá (Passiflora incarnata), melissa e mulungu durante a gestação e a lactação, por falta de dados de segurança. O Memento Fitoterápico contraindica a camomila para gestantes. A diretriz da Associação Brasileira do Sono não recomenda nenhum fitoterápico nem remédio para insônia na gravidez e na amamentação, só tratamentos sem medicamento, como a TCC-I.
Antialérgico serve como remédio para dormir?
Não é recomendado. A diretriz da Associação Brasileira do Sono afirma que os antialérgicos de primeira geração se popularizaram como remédio para dormir sem receita apesar da falta de evidência de eficácia e segurança, e votou contra prometazina, hidroxizina e dimenidrinato para insônia. Eles podem deixar sono, falta de atenção e piora dos reflexos no dia seguinte. A Academia Americana de Medicina do Sono também sugere não usar difenidramina.
Qual é o tratamento que funciona para insônia crônica?
A terapia cognitivo-comportamental para insônia, a TCC-I. A diretriz de 2023 da Associação Brasileira do Sono a coloca como terapia de escolha para a maioria dos pacientes, e ela está entre as poucas abordagens, todas sem remédio, recomendadas também na gravidez e na amamentação. Quando há remédio, a escolha, a dose e o tempo de uso são decisão do profissional que acompanha o caso.
Fontes consultadas
- 1.2023 Guidelines on the Diagnosis and Treatment of Insomnia in Adults — Brazilian Sleep Association — Sleep Science, 2023 (Drager LF e col., Associação Brasileira do Sono, PMID 38370879)
- 2.Clinical Practice Guideline for the Pharmacologic Treatment of Chronic Insomnia in Adults: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline — Journal of Clinical Sleep Medicine, 2017 (Sateia MJ e col., PMID 27998379)
- 3.Herbal medicine for insomnia: A systematic review and meta-analysis — Sleep Medicine Reviews, 2015 (Leach MJ, Page AT, PMID 25644982)
- 4.Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 2ª edição (versão com alterações até a RDC nº 952/2024) — Anvisa
- 5.Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira, 1ª edição (2016) — Anvisa
- 6.Cartilha de orientações sobre o uso de fitoterápicos e plantas medicinais (2022) — Anvisa


