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Bem-Estar Geral

Apneia do Sono: Sinais, Diagnóstico e Tratamento

Ronco alto, pausas na respiração que outra pessoa vê e sono durante o dia são os sinais clássicos. Questionário não fecha diagnóstico: quem confirma é a polissonografia ou o exame domiciliar. O CPAP é o tratamento de referência, mas no SUS a espera média chegou a 11 meses pelo diagnóstico e a mais 8 meses pelo início do tratamento.

Escrito por

Redação Blog com Saúde

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Publicado em ·10 min de leitura

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Casal dormindo numa cama de lençóis brancos, visto de cima: o homem de barba curta, de barriga para cima e boca entreaberta, abraça a mulher de cabelo castanho-claro, que dorme encostada no peito dele
Casal dormindo numa cama de lençóis brancos, visto de cima: o homem de barba curta, de barriga para cima e boca entreaberta, abraça a mulher de cabelo castanho-claro, que dorme encostada no peito dele

Quem tem apneia do sono raramente é quem percebe primeiro. Quem percebe é quem dorme ao lado: o ronco que para, o silêncio que dura demais, o engasgo e o ronco que volta. A pessoa com apneia sente, no dia seguinte, o cansaço. Este texto mostra o que fazer com essa suspeita, do primeiro sinal ao tratamento, e onde o acesso pelo SUS emperra.

O que é a apneia obstrutiva do sono?#

É um distúrbio da respiração durante o sono. A diretriz de diagnóstico da Academia Americana de Medicina do Sono (AASM, na sigla em inglês) a descreve como um estreitamento da via aérea superior que atrapalha a ventilação enquanto a pessoa dorme. A garganta se fecha em parte (hipopneia) ou por completo (apneia), o oxigênio cai e o sono se fragmenta.

A gravidade é medida pelo índice de apneia e hipopneia (IAH), o número de eventos por hora de sono registrados no exame. O protocolo de hipertensão do Ministério da Saúde, de 2025, usa esta classificação:

IAH (eventos por hora)Classificação
Menos de 5Sem apneia obstrutiva
5 a 14,9Leve
15 a 29,9Moderada
30 ou maisGrave

Não é raro. O estudo EPISONO, que fez polissonografia em 769 adultos de São Paulo, encontrou apneia em 37% deles. Os detalhes desse estudo estão no guia de qualidade do sono.

Quais são os sinais de apneia do sono?#

A AASM lista os sintomas típicos que, junto com o exame, definem a apneia:

  • ronco alto;
  • pausas na respiração que outra pessoa vê, ou acordar engasgado ou com sensação de sufocamento;
  • sonolência durante o dia;
  • sono que não descansa, cansaço e até insônia.

O protocolo do Ministério da Saúde acrescenta dor de cabeça ao acordar, levantar à noite para urinar (noctúria) e sono fragmentado.

Para a atenção primária, a Linha de Cuidado de hipertensão do Ministério da Saúde dá uma regra simples: a suspeita deve ser considerada quando há dois de três sinais, ronco, sonolência diurna excessiva e pausas na respiração presenciadas por outra pessoa.

Apneia e insônia andam juntas com frequência, segundo a AASM. O que fazer com a insônia está em não consigo dormir: causas e tratamento.

Quem tem mais risco?#

No EPISONO, três fatores se associaram à apneia: idade, índice de massa corporal e sexo masculino. Os homens tiveram quase três vezes mais chance de ter o diagnóstico do que as mulheres, e cada ponto a mais de IMC aumentou o risco. A prevalência ajustada foi de 10,8% entre 20 e 29 anos, 39,4% entre 40 e 49 anos e 58,4% entre 70 e 80 anos.

O protocolo do Ministério da Saúde lista, entre as características que levantam a suspeita, pós-menopausa, obesidade e síndrome metabólica. A AASM registra taxas muito mais altas em alguns grupos: de 70% a 80% entre pessoas avaliadas para cirurgia bariátrica e de 60% a 70% depois de um AVC ou ataque isquêmico transitório. Os autores do EPISONO apontam o excesso de peso e o cigarro como fatores de risco que podem ser mudados.

O que a apneia não tratada faz com a saúde?#

A AASM resume: a pessoa acorda sem se sentir descansada e passa o dia sonolenta, com atenção, concentração e raciocínio piores. Isso se traduz em mais acidentes de trabalho e de trânsito. A apneia não tratada também se associa a pressão difícil de controlar, doença coronariana, insuficiência cardíaca, arritmias, AVC e piora do controle da glicose.

Homem idoso de boina e camisa listrada ao volante de um carro, apoiando a cabeça na mão sobre os olhos, visto pela janela do motorista
A sonolência de dia é o sintoma central da apneia, e a diretriz americana de diagnóstico a liga a mais acidentes de trânsito. Segundo o mesmo texto, tratar a apneia reduz esse risco. · Foto: Unsplash

A ligação com a pressão alta é reconhecida no protocolo de hipertensão do Ministério da Saúde de 2025. Ele põe a apneia obstrutiva entre os fatores de risco para hipertensão e entre as causas de hipertensão secundária, aquela que tem uma causa identificável e pode melhorar quando ela é tratada. Na consulta de quem tem pressão alta, o protocolo manda perguntar por ronco e sonolência diurna. O que mais muda o controle da pressão está no texto sobre pressão alta.

Um questionário na internet resolve?#

Não. A AASM recomenda, com força, que questionários, escores e algoritmos não sejam usados para diagnosticar apneia sem polissonografia ou exame domiciliar. Ela revisou 48 estudos e concluiu que essas ferramentas têm baixa acurácia.

O STOP-Bang, um dos mais conhecidos, junta perguntas sobre ronco, cansaço, pausas observadas e pressão alta com IMC, idade, circunferência do pescoço e sexo. Nos estudos revisados, ele quase não deixou passar quem tinha apneia (sensibilidade de 0,93), mas a especificidade foi de só 0,36: muita gente sem apneia sai marcada como "de risco". O protocolo do Ministério da Saúde vai na mesma linha: os questionários têm "baixa a moderada acurácia para triagem".

Na unidade básica, a Linha de Cuidado do Ministério usa a escala de sonolência de Epworth e o STOP-Bang como investigação adicional: eles ajudam o profissional a decidir quem vai para o exame, não substituem o exame.

Como é feito o diagnóstico?#

A AASM considera a polissonografia o exame padrão. É uma noite inteira de registro do sono e da respiração no laboratório, que também identifica outros distúrbios do sono.

Existe uma opção mais simples, o exame domiciliar (poligrafia ou monitor portátil), feito na cama de casa com menos sensores. A AASM o aceita em adultos "sem complicações" e com alta suspeita de apneia moderada a grave, definida como sonolência diurna excessiva mais dois de três: ronco alto habitual, pausas ou engasgos testemunhados, ou hipertensão diagnosticada.

PolissonografiaExame domiciliar
OndeLaboratório do sono, com técnicoEm casa, sem acompanhamento
O que medeSono, respiração, oxigênio, movimentosRespiração e oxigênio, em geral sem medir o sono
Para quemQualquer suspeita; obrigatório em casos complexosAdultos sem outras doenças importantes e com alta suspeita
Se der negativoPode ser repetida se a suspeita continuarA AASM recomenda fazer a polissonografia

A diretriz prefere a polissonografia para quem tem doença cardíaca ou pulmonar importante, doença neuromuscular, AVC prévio, insônia grave ou usa opioides de forma contínua. Como o exame domiciliar não mede o sono, ele tende a subestimar o IAH.

Qual é o tratamento para apneia do sono?#

O tratamento de referência é o CPAP, um aparelho que sopra ar por uma máscara no nariz ou no rosto e mantém a garganta aberta durante a noite. A diretriz de 2019 da AASM recomenda, com força, o CPAP para adultos com apneia e sonolência excessiva. Em 38 ensaios clínicos, ele melhorou a sonolência de forma clinicamente relevante, com evidência de alta qualidade.

A diretriz também sugere o aparelho para quem tem apneia com qualidade de vida prejudicada pelo sono e para quem tem apneia e pressão alta: em cinco ensaios, a pressão caiu, sobretudo à noite.

A ressalva que precisa vir junto. A mesma diretriz não encontrou evidência suficiente para dizer que o CPAP reduz infarto, AVC ou mortes em quem não tem sonolência. Os estudos observacionais sugeriam benefício, mas os ensaios randomizados não confirmaram. O CPAP trata os sintomas e ajuda a pressão; a promessa de proteger o coração ainda não está provada.

Os efeitos colaterais descritos (nariz e boca secos, dor de garganta, sinusite, perda de intimidade do casal) podem ser contornados ou passam ao parar o uso. A diretriz recomenda orientação ao começar e acompanhamento nas primeiras semanas, porque a adesão dos primeiros dias prevê a de longo prazo. A máscara só nasal teve adesão melhor que a de nariz e boca, e o uso deve ser conferido pelos dados do aparelho: o paciente costuma superestimar quanto usa.

O CPAP não cura. A diretriz descreve a apneia como doença crônica que raramente se resolve, a não ser com perda de peso importante ou cirurgia corretiva bem-sucedida.

E quem não se adapta ao CPAP?#

Há alternativas, cada uma com seu lugar:

  • Aparelho intraoral. Puxa a mandíbula para a frente durante o sono. Na revisão Cochrane (17 estudos, 831 participantes), ele melhorou a sonolência e o IAH em relação a um aparelho inativo. Contra o CPAP, os sintomas não diferiram, mas o CPAP reduziu mais as pausas. A conclusão é indicar o aparelho na apneia leve com sintomas e para quem não quer ou não consegue usar o CPAP. A diretriz de 2015 da AASM prefere aparelho sob medida e ajustável, feito por dentista qualificado, com exame de controle depois.
  • Terapia posicional. Para quem só tem apneia de barriga para cima, há travesseiros, cintas e alarmes que mantêm a pessoa de lado. A revisão Cochrane de 2019 encontrou melhora da sonolência e do IAH em relação a nada, mas efeito menor que o do CPAP, em estudos curtos e pequenos.
  • Perda de peso. A diretriz de 2018 da American Thoracic Society recomenda, com força, que pessoas com apneia e sobrepeso ou obesidade recebam um programa que junte dieta com menos calorias, atividade física e acompanhamento do comportamento. Remédio para emagrecer e cirurgia bariátrica ficam para casos selecionados, por decisão médica. O que funciona para emagrecer está em como emagrecer com saúde.
  • Cirurgia. A diretriz de 2021 da AASM recomenda discutir o encaminhamento ao cirurgião de via aérea para quem não tolera ou não aceita o CPAP e tem IMC abaixo de 40, e ao cirurgião bariátrico para quem tem IMC de 35 ou mais nas mesmas condições.

A escolha depende da gravidade, do corpo e da preferência de cada um, e é feita com o médico.

Dá para fazer o exame e o tratamento pelo SUS?#

Dá, mas este é o gargalo. Os autores do EPISONO registram que a polissonografia entrou na lista de procedimentos do SUS em 2021, e que a desigualdade regional ainda dificulta o acesso.

Um levantamento publicado em 2024 no Journal of Clinical Sleep Medicine mapeou os serviços de apneia que atendem pelo SUS, com dados de 2018 e 2019. Encontrou 47 centros, concentrados em capitais. Dez das 27 unidades da federação não tinham nenhum, e o Norte era a região mais desassistida. A espera média foi de 11 meses da primeira consulta ao diagnóstico e de 8 meses do diagnóstico ao início do tratamento. Só 46% dos tratamentos com CPAP eram pagos com recurso público; 32% dos pacientes ficavam sem tratamento e 22% pagavam do próprio bolso. Em mais da metade dos centros com recurso público, o aparelho dependia de ação judicial ou processo administrativo.

Uma ressalva de transparência: o estudo foi financiado pela fundação de uma fabricante de CPAP e pela Associação Brasileira do Sono, e parte dos autores tinha vínculo com a empresa, como eles mesmos declaram. Os números vêm de questionário respondido pelos centros.

Na prática, o caminho começa na unidade básica de saúde, que avalia os sinais e encaminha para o exame.

Em criança, a revisão Cochrane sobre terapia posicional cita problemas na escola e agitação, mas a avaliação é outra, com o pediatra. Este texto trata de adultos.

Quando procurar atendimento#

Procure a unidade básica de saúde ou um médico se:

  • outra pessoa percebe pausas na respiração ou engasgos enquanto você dorme;
  • o ronco é alto e vem com sono durante o dia;
  • você tem pressão alta, sobretudo se ela é difícil de controlar, e também ronca;
  • você acorda com dor de cabeça ou levanta várias vezes para urinar sem outra explicação;
  • você já tem o diagnóstico e não consegue usar o CPAP: há alternativas a discutir.

Se você cochila dirigindo ou sente que vai dormir ao volante, diga isso ao médico logo na primeira consulta. A diretriz de diagnóstico da AASM liga a sonolência da apneia a mais acidentes de trânsito e registra que o tratamento reduz esse risco.

Os hábitos que ajudam qualquer pessoa a dormir melhor, e o que a melatonina faz ou não faz, estão em melatonina e higiene do sono.

Este texto é informativo e não substitui a consulta. O diagnóstico de apneia do sono e a escolha do tratamento cabem ao profissional de saúde.

Perguntas frequentes

Quais são os sinais de apneia do sono?

Os mais típicos são ronco alto, pausas na respiração ou engasgos durante o sono que outra pessoa percebe e sonolência exagerada durante o dia. A diretriz de diagnóstico da Academia Americana de Medicina do Sono lista também sono que não descansa, cansaço, insônia e acordar com sensação de sufocamento. O protocolo de hipertensão do Ministério da Saúde acrescenta dor de cabeça ao acordar e levantar várias vezes à noite para urinar.

Todo mundo que ronca tem apneia?

Não. O ronco pode existir sem apneia, e a diretriz de 2015 da Academia Americana de Medicina do Sono trata o ronco primário, sem apneia, como situação à parte. O que pesa é o conjunto: a Linha de Cuidado de hipertensão do Ministério da Saúde manda suspeitar de apneia quando há dois de três sinais, ronco, sonolência de dia e pausas na respiração vistas por outra pessoa. Quem confirma ou descarta é o exame do sono.

Questionário como o STOP-Bang serve para saber se eu tenho apneia?

Não serve para diagnosticar. A Academia Americana de Medicina do Sono recomenda, com força, que questionários e escores não sejam usados para diagnosticar apneia sem polissonografia ou exame domiciliar. No STOP-Bang, a sensibilidade foi alta, mas a especificidade ficou em 0,36, o que gera muitos falsos positivos. O protocolo de hipertensão do Ministério da Saúde também diz que os questionários têm acurácia baixa a moderada para triagem.

Como é feito o exame para apneia do sono?

O exame de referência é a polissonografia, uma noite inteira de registro do sono e da respiração, em geral num laboratório do sono. A Academia Americana de Medicina do Sono aceita o exame domiciliar, com aparelho portátil, para adultos sem outras doenças importantes e com alta suspeita de apneia moderada a grave. Se o exame domiciliar der negativo ou inconclusivo, a recomendação é fazer a polissonografia.

O CPAP cura a apneia?

Não cura: controla enquanto é usado. A diretriz de 2019 da Academia Americana de Medicina do Sono descreve a apneia como doença crônica que raramente se resolve, a não ser com perda de peso importante ou cirurgia corretiva bem-sucedida. O CPAP mantém a garganta aberta com um fluxo de ar e, em 38 ensaios clínicos, reduziu a sonolência de forma relevante. Por isso o acompanhamento nas primeiras semanas é parte do tratamento.

Existe alternativa ao CPAP?

Existe, em casos selecionados. A revisão Cochrane sobre aparelhos intraorais concluiu que eles melhoram a sonolência e a respiração em relação a um aparelho inativo e podem ser indicados na apneia leve com sintomas ou para quem não tolera o CPAP, embora o CPAP seja mais eficaz para reduzir as pausas. Terapia posicional, perda de peso e cirurgia também entram, conforme avaliação do médico e, no caso do aparelho, do dentista.

Apneia do sono aumenta a pressão?

Pode aumentar. O protocolo de hipertensão do Ministério da Saúde, de 2025, inclui a apneia obstrutiva entre os fatores de risco para pressão alta e entre as causas de hipertensão secundária a investigar. A diretriz de 2019 da Academia Americana de Medicina do Sono sugere o CPAP para quem tem apneia e hipertensão, com base em cinco ensaios que mostraram queda da pressão, maior nas medidas noturnas.

O SUS faz exame e dá CPAP para apneia?

Faz, mas o acesso é desigual. Os autores do EPISONO registram que a polissonografia entrou na lista de procedimentos do SUS em 2021. Um levantamento publicado em 2024 encontrou 47 centros atendendo pelo SUS, nenhum serviço em 10 das 27 unidades da federação, espera média de 11 meses pelo diagnóstico e de 8 meses pelo início do tratamento, e só 46% dos tratamentos com CPAP pagos com recurso público. O caminho começa na unidade básica de saúde.

Fontes consultadas

  1. 1.Prevalence and Risk Factors for Obstructive Sleep Apnea in São Paulo: Findings From the 4th Edition of the EPISONO Study — Journal of Sleep Research, 2026 (Tufik S e col., PMID 41589358)
  2. 2.Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica (Portaria SECTICS/MS nº 49, de 23 de julho de 2025) — Ministério da Saúde / Conitec
  3. 3.Clinical Practice Guideline for Diagnostic Testing for Adult Obstructive Sleep Apnea: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline — Journal of Clinical Sleep Medicine, 2017 (Kapur VK e col., PMID 28162150)
  4. 4.Treatment of Adult Obstructive Sleep Apnea with Positive Airway Pressure: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline — Journal of Clinical Sleep Medicine, 2019 (Patil SP e col., PMID 30736887)
  5. 5.Inequalities in the access to diagnosis and treatment of obstructive sleep apnea in Brazil: a cross-sectional study — Journal of Clinical Sleep Medicine, 2024 (Drager LF e col., PMID 38169439)
  6. 6.Oral appliances for obstructive sleep apnoea (revisão Cochrane CD004435) — Cochrane Database of Systematic Reviews (Lim J e col.)
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