Olheiras: Tipos, Causas e Como Tratar de Verdade
Olheira vascular, pigmentada e estrutural têm causas diferentes e tratamentos diferentes — e dormir mais resolve só uma parte. Veja como identificar o seu tipo e o que a Sociedade Brasileira de Dermatologia indica para cada um.
Publicado em ·Atualizado em ·6 min de leitura

Você dormiu oito horas, acordou descansado e ainda assim tem duas manchas escuras embaixo dos olhos. Alguém no trabalho comenta que você parece cansado. E lá vai você comprar o quinto creme de olheira do ano.
O problema é que "olheira" é uma palavra guarda-chuva. Debaixo dela existem pelo menos três condições distintas, com causas distintas e tratamentos que não se substituem. Usar clareador numa olheira que é sombra anatômica é como pintar a parede para consertar uma rachadura.
Por que a olheira existe#
A pele abaixo dos olhos é fina, e o que passa por baixo dela aparece por cima.
Em reportagem da própria Sociedade Brasileira de Dermatologia sobre o assunto, Flávia Addor, então vice-presidente da SBD Regional São Paulo, resume o ponto que mais frustra quem tenta resolver o problema com hábitos: "As olheiras têm um componente constitucional. Se a pessoa tem predisposição, terá o problema por mais que durma bem."
O mesmo material descreve o mecanismo. A vasodilatação local faz o sangue extravasar e depositar pigmentos que dão a coloração azulada; o ferro presente nesse sangue oxida e escurece a região. Em paralelo, algumas pessoas têm tendência à hiperpigmentação, produzindo melanina em excesso que se acumula ali.
Traduzindo: parte da olheira é sangue visível através de uma pele fina, parte é pigmento de verdade. E, na maioria das pessoas, é um pouco de cada.
Os três tipos#
Vascular — a azulada ou arroxeada#
A cor tende ao azul ou ao roxo e vem dos vasos e do sangue que extravasa na região, como descreve a SBD. Noite mal dormida costuma acentuá-la.
Alergia também entra na conta: uma revisão de 2014 lista alergia, dermatite, distúrbios do sono e deficiências nutricionais entre as condições que podem estar por trás da olheira. Se a causa é uma alergia, nenhum creme resolve enquanto ela não for tratada.
Pigmentada — a acastanhada#
Aqui a cor vem de melanina depositada na pele, não de vasos. A revisão de 2014 registra que a olheira é mais vista em peles mais escuras. Entre as causas de hiperpigmentação, a SBD cita exposição ao sol e trauma na pele — e esfregar os olhos todos os dias é um trauma repetido.
O raciocínio é o mesmo de outras manchas na pele: a SBD cita cremes com ativos que reduzem a formação de melanina, filtro solar, peelings químicos e lasers. A diferença é a cautela, porque a pele da região é delicada.
Estrutural — a sombra#
Esta não é uma questão de cor. É relevo: com o envelhecimento, o rosto perde gordura e sustentação na região, como descreve a SBD, e forma-se um sulco entre a pálpebra inferior e a bochecha. Esse sulco cria sombra — e sombra escurece qualquer pele, independentemente de pigmento ou vaso.
O teste é fácil de fazer em casa. Olhe-se no espelho com a luz vindo de cima: a olheira parece profunda. Agora traga a luz para a frente do rosto: se ela quase some, o componente estrutural predomina. É a variedade que mais resiste a creme e a que mais responde a procedimento.
E a mistura, que é a regra#
A revisão sistemática de 2021 inclui as causas mistas entre as origens da olheira: muita gente tem dois componentes, às vezes os três. Por isso a resposta honesta a "qual creme usar" quase sempre começa com "depende de qual é a sua" — e por isso o diagnóstico vale mais do que a prateleira da farmácia.
O que fazer em cada caso#
Na vascular, tratar a causa vem primeiro: sono e, quando existe, alergia. Para os vasos, a reportagem da SBD descreve o laser, em média de três a seis sessões com intervalo de um mês, segundo o cirurgião plástico ouvido; a região pode ficar avermelhada e inchada por cerca de dois dias. A revisão sistemática de 2021 classifica o benefício do laser como leve a moderado.
Na pigmentada, o caminho é o mesmo de qualquer hiperpigmentação: ativo clareador com constância e fotoproteção sem falha. A reportagem da SBD cita soluções à base de hidroquinona ou de alguns ácidos que retiram a pigmentação da pele — sempre sob prescrição, dada a delicadeza da área — e a luz pulsada para a hiperpigmentação, mais suave que o laser usado nos vasinhos. O clareamento dura algum tempo, mas a olheira pode voltar. Antes de sair aplicando ativo na região, vale conhecer os ingredientes que costumam irritar, porque irritação ali gera mais pigmento, não menos.
Na estrutural, o tratamento é volumétrico. A SBD lista o "tratamento de olheiras" entre as indicações do preenchimento, e informa que "o ácido hialurônico é o principal preenchedor utilizado hoje" — a mesma substância que o corpo produz naturalmente e cuja produção cai com o envelhecimento. Na revisão sistemática de 2021, o preenchimento e o enxerto de gordura foram os tratamentos mais eficazes para a olheira causada por perda de volume. A execução é delicada: região vascularizada, pouca margem para erro de técnica. Se você está considerando, pergunte antes quem executa e com qual registro no CRM, qual substância será usada e o que acontece se o resultado não vier.
O que o estilo de vida realmente muda#
Não resolve a genética. Muda o quanto ela aparece.
Sono é o fator mais direto: a própria reportagem da SBD fala do "estrago da noite maldormida", e a revisão de 2014 inclui os distúrbios do sono entre as causas da olheira. Se o seu sono anda irregular, regularizá-lo é a base de qualquer tratamento.
E esfregar os olhos — hábito de quem tem alergia ou passa o dia na tela — é agressão mecânica repetida, e trauma na pele está entre as causas de hiperpigmentação citadas pela SBD.
A SBD sintetiza a manutenção em uma frase que dispensa tradução: dormir bem e usar protetor solar são as garantias para quem não quer acordar com cara de urso panda.
Maquiagem: o alívio imediato#
Enquanto o tratamento faz efeito — e ele leva meses —, o corretivo resolve o dia.
Duas regras evitam o efeito contrário. A primeira é o subtom: olheira azulada pede corretivo com fundo alaranjado ou pêssego, olheira acastanhada pede fundo mais rosado. Corretivo mais claro que a pele, sem correção de subtom, costuma deixar a região acinzentada em vez de disfarçada.
A segunda é a quantidade. Produto demais marca as linhas e envelhece o olhar. Camada fina, esfumada com o dedo, aproveitando o calor da pele. Vale também preparar a área antes com hidratante leve — é essa etapa, e não a base, que muda o resultado final.
Para outras técnicas e para saber o que a Anvisa regula nos produtos de maquiagem, veja o guia completo de maquiagem.
Quando procurar atendimento#
A revisão de 2014 lembra que a olheira pode ser o ponto de chegada de dermatite, alergia, distúrbios do sono, deficiências nutricionais ou doenças sistêmicas, e recomenda história clínica e exame antes de tratar o lado estético. Procure um médico se:
- a mancha escura estiver crescendo ou não melhorar, sinal que a SBD destaca nas hiperpigmentações;
- a olheira vier com coceira, descamação, espirros ou nariz entupido, que apontam para dermatite ou alergia;
- houver cansaço, sono ruim ou outros sintomas junto com a olheira;
- você pensar em procedimento (laser, peeling, preenchimento): confirme que quem executa é médico e qual o registro no CRM.
E vale marcar também, simplesmente, se ela incomoda. Olheira tem tratamento; ele só precisa começar pelo tipo certo.
Este texto é informativo e não substitui a consulta. O diagnóstico do tipo de olheira e a escolha do tratamento cabem ao dermatologista.
Perguntas frequentes
Dormir bem faz a olheira sumir?
Melhora, mas raramente resolve. Segundo a SBD, a olheira tem um componente constitucional: quem tem predisposição vai ter o problema por mais que durma bem. O sono ruim piora a olheira que já existe — dilata os vasos, deixa o rosto inchado, acentua a sombra —, então dormir bem é a base do tratamento, não o tratamento inteiro.
Como sei qual é o meu tipo de olheira?
A cor dá uma pista: azulada ou arroxeada sugere componente vascular; acastanhada, pigmentar. Se a olheira quase some quando a luz vem de frente, e não de cima, é provável que seja sombra, ou seja, estrutural. Como os tipos costumam se misturar, o diagnóstico é do dermatologista, que examina a região antes de indicar tratamento.
Creme de olheira funciona?
Depende do tipo. Uma revisão sistemática de 2021 concluiu que cremes tópicos e peelings químicos são úteis na olheira pigmentada, que o laser tem benefício leve a moderado nos tipos vascular e pigmentado e que o preenchimento é o mais eficaz quando a causa é perda de volume. Em olheira estrutural, nenhum creme resolve, porque o problema não é cor: é relevo. Os próprios autores avisam que faltam estudos de alta qualidade.
Preenchimento para olheira é seguro?
É um procedimento estabelecido — a SBD lista o tratamento de olheiras entre as indicações do preenchimento com ácido hialurônico. Mas a região é delicada, vascularizada e pouco tolerante a erro de técnica, então deve ser feita por médico habilitado. Segundo a SBD, a área pode ficar levemente avermelhada e inchada após a aplicação, e o risco de alergia é raro.
Protetor solar melhora olheira?
Na pigmentada, sim, e bastante. O sol estimula a melanina, e a pele sob os olhos é fina e frequentemente esquecida na hora de passar o filtro. A SBD resume a manutenção em duas frases: dormir bem e usar protetor solar.
Olheira em criança é normal?
Pode aparecer em qualquer idade. Uma revisão de 2014 sobre o tema lista alergia, dermatite, distúrbios do sono e deficiências nutricionais entre as condições que podem estar por trás da olheira, e recomenda avaliação médica antes de qualquer tratamento estético. Em criança, o caminho é conversar com o pediatra antes de qualquer creme.
Fontes consultadas
- 1.Escolha suas armas para combater ou disfarçar olheiras — Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD)
- 2.Preenchimento — indicações, substâncias e cuidados — Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD)
- 3.Hiperpigmentação — o que é, causas e tratamento — Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD)
- 4.Treatments of Periorbital Hyperpigmentation: A Systematic Review — Dermatologic Surgery, 2021 (Michelle L e col., PMID 32740208)
- 5.Periorbital hyperpigmentation: review of etiology, medical evaluation, and aesthetic treatment — Journal of Drugs in Dermatology, 2014 (Roberts WE, PMID 24719068)


