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Família Geral

Inteligência Emocional na Infância: Por Que Poupar a Criança de Tudo Também Prejudica

A SBP separa estresse positivo, tolerável e tóxico — e afirma que crianças excessivamente poupadas não aprendem a lidar com conflito. O que define o limite entre um e outro é o adulto ao lado.

Escrito por

Redação Blog com Saúde

Equipe editorial

Publicado em ·Atualizado em ·6 min de leitura

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Pai abraçando a filha em contraluz
Pai abraçando a filha em contraluz

A conversa sobre inteligência emocional na infância costuma ir toda para um lado: acolher, validar, nomear sentimentos, não reprimir. Está tudo certo — e está faltando metade.

A metade que falta aparece num manual da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre estresse na infância, numa frase que contraria a intuição de boa parte dos pais bem-intencionados:

"Crianças excessivamente poupadas e protegidas não saberão lidar com situações conflitantes que enfrentarão ao longo da vida."

Ou seja: proteger demais também prejudica. E o manual explica por quê.

Os três tipos de estresse#

A SBP classifica o estresse infantil em três categorias, e a distinção entre elas é o que organiza todo o resto.

Estresse positivo — e ele é bom#

O manual define: é quando a criança é submetida a estresse "de baixa intensidade e limitado a curtos períodos de tempo". E a avaliação é explícita: "esse tipo de estresse é saudável na vida da criança".

Os exemplos que a SBP dá são deliciosamente cotidianos: "a incapacidade de verbalizar bem seus desejos antes dos 15 meses, inserção escolar, vacinas e lidar com frustrações habituais".

Sobre esses momentos, o manual diz: "todas essas são boas experiências para que os pais possam ensinar os seus filhos com afeto, diálogo, limites e respeito para a formação de uma personalidade sólida a longo prazo".

E o resultado esperado: esse tipo de estresse "resulta em habilidades de planejamento, motivação e resiliência, além de propiciar a estimulação de sinapses neuronais".

Vale reler a lista de ferramentas dos pais nessa frase: afeto, diálogo, limites e respeito. Limite está lá, junto com afeto, não contra ele.

Estresse tolerável — e o que o torna tolerável#

Aqui a intensidade sobe. O manual descreve situações "por período sustentável de tempo, o suficiente para elevar o risco de alterações na arquitetura cerebral".

Mas há um amortecedor: "relacionamentos sólidos que envolvem a criança no seu ambiente amortecem e tamponam o risco de toxicidade biológica".

O exemplo do próprio manual é preciso: quando há doença em um familiar próximo e existe suporte familiar "que nutre a criança com apoio positivo, ouvindo, acolhendo e orientando a criança".

Repare no que fez a diferença. Não foi evitar a doença na família — isso não estava no controle de ninguém. Foi a presença de alguém que ouviu, acolheu e orientou.

Estresse tóxico#

A definição da SBP: "um estresse elevado e contínuo, que pode gerar danos irreversíveis ao desenvolvimento neuropsicomotor da criança, além de aumentar os riscos para doenças orgânicas ao longo dos anos".

Acontece quando "a criança é submetida a um nível superior de estresse à sua capacidade de autorregulação, por um período demasiadamente mantido de tempo".

A entidade registra que é "um problema universal que afeta crianças de todas as classes sociais e, apesar de sua elevada prevalência, o ET é muito pouco conhecido e estudado". E uma neuropediatra da SBP resume o efeito: "o estresse tóxico prejudica o potencial mental e até reduz o volume cerebral".

As consequências descritas vão "desde comportamentos não adaptativos e déficits emocionais, até transtornos mentais graves, como: comportamento impulsivo, transtorno de hiperatividade, problemas de aprendizado escolar, bem como transtornos da conduta e abuso de substâncias psicoativas, na adolescência".

O que decide de que lado a experiência cai#

Este é o ponto central, e a frase da SBP merece ser lida devagar:

"A presença ou não de estresse tóxico na infância pode ser determinada pela forma como os adultos responsáveis pelas crianças lidam com os problemas e adversidades da vida, além da forma como eles as ensinam a conduzir determinadas situações."

O mesmo evento — a mudança de cidade, o nascimento do irmão, a separação dos pais, a internação da avó — pode ser tolerável ou tóxico. O que decide não é o evento em si. É o que os adultos fazem em volta dele.

O manual acrescenta que todas as crianças serão inevitavelmente expostas a situações estressoras, e que o que importa é a proporção: o evento "deve ser, necessariamente, proporcional à sua habilidade de lidar com ele, à sua maturidade e ao seu estágio de desenvolvimento".

Dois erros são possíveis a partir daí, e o manual nomeia os dois. Expor a criança desproporcionalmente faz com que ela seja "incapaz de construir gradualmente estratégias de enfrentamento lógicas". E poupá-la em excesso produz um adulto sem repertório para conflito.

O trabalho da criação não é eliminar o estresse. É calibrá-lo — e estar presente enquanto ele acontece.

Na prática#

Deixe a frustração acontecer, mas fique junto. Não conseguir o brinquedo, esperar a vez, perder o jogo, dividir a atenção com o irmão: a SBP classifica "lidar com frustrações habituais" como estresse positivo, saudável. O que transforma isso em aprendizado é o adulto ao lado — não a ausência da frustração.

Nomeie o que está acontecendo. "Você está com raiva porque queria continuar brincando." Nomear é o que permite à criança reconhecer o estado por dentro em vez de só senti-lo por fora. É também a habilidade que a pesquisa sobre esgotamento adulto associa a melhor enfrentamento, e que falta em quem não consegue identificar as próprias emoções.

Limite não é o oposto de afeto. Na lista de ferramentas do manual, "afeto, diálogo, limites e respeito" aparecem juntos, na mesma frase. Criança sem limite não está sendo poupada de sofrimento — está sendo privada de previsibilidade.

Seja o relacionamento sólido. É a expressão que o manual usa para o que amortece o estresse tolerável. Na prática: estar disponível, ouvir sem corrigir imediatamente, acolher antes de orientar.

Cuide da própria regulação. É a parte mais desconfortável e a mais determinante. Se o que define o desfecho é "a forma como os adultos responsáveis lidam com os problemas e adversidades da vida", então o adulto que grita "fique calmo" não está ensinando calma — está demonstrando o contrário do que pede.

Modele reparação. Errar com o filho e voltar para pedir desculpas ensina duas coisas ao mesmo tempo: que o adulto também erra, e que erro tem conserto. É provavelmente a lição mais útil dessa lista.

Quando procurar ajuda#

A SBP estima que "uma em cada quatro a cinco crianças e adolescentes tenha algum transtorno mental". Não é raridade.

Vale procurar avaliação quando aparecem mudanças persistentes de comportamento, sono ou apetite; regressão de habilidades já conquistadas; queda no rendimento escolar; retraimento social; ou irritabilidade e tristeza que não passam.

E vale conhecer a definição de negligência que a pediatria usa, porque ela é mais ampla do que a do senso comum: "qualquer ato ou omissão notável, suspeitado ou confirmado por um cuidador da criança ou um dos pais, que a privam das necessidades básicas adequadas à idade". A definição inclui explicitamente "a falta de garantia das necessidades emocionais ou psicológicas".

O resumo#

Inteligência emocional não se ensina protegendo a criança de toda emoção difícil. Ela se constrói na dose certa de dificuldade, com um adulto disponível ao lado — e essa combinação, não a ausência de problemas, é o que a Sociedade Brasileira de Pediatria descreve como base de planejamento, motivação e resiliência.

Para a parte mais concreta dessa conversa, os conflitos do dia a dia, veja birra e limites: regras sem gritar. E, se o desgaste do adulto é o que está no limite, burnout parental.

Perguntas frequentes

Frustrar a criança faz mal?

Não, quando a frustração é proporcional à idade e há um adulto ao lado. A SBP classifica "lidar com frustrações habituais" como estresse positivo, "saudável na vida da criança", e afirma que esse tipo de estresse "resulta em habilidades de planejamento, motivação e resiliência". O manual acrescenta que crianças "excessivamente poupadas e protegidas não saberão lidar com situações conflitantes que enfrentarão ao longo da vida".

Qual a diferença entre estresse tolerável e tóxico?

Segundo a SBP, no estresse tolerável a criança enfrenta um fator estressante intenso o suficiente para elevar o risco de alterações na arquitetura cerebral — mas "relacionamentos sólidos que envolvem a criança no seu ambiente amortecem e tamponam o risco de toxicidade biológica". O estresse tóxico é definido como "um estresse elevado e contínuo, que pode gerar danos irreversíveis ao desenvolvimento neuropsicomotor da criança". A presença do adulto acolhedor é o que move o evento de uma categoria para a outra.

Então o problema é o evento ou a reação do adulto?

A SBP é direta: "a presença ou não de estresse tóxico na infância pode ser determinada pela forma como os adultos responsáveis pelas crianças lidam com os problemas e adversidades da vida, além da forma como eles as ensinam a conduzir determinadas situações". O mesmo acontecimento — mudança de casa, nascimento de um irmão, doença na família — pode ser tolerável ou tóxico dependendo do que acontece em volta.

Quantas crianças têm transtorno mental?

Segundo material da SBP, estima-se que "uma em cada quatro a cinco crianças e adolescentes tenha algum transtorno mental". Uma neuropediatra da entidade também registra que "o estresse tóxico prejudica o potencial mental e até reduz o volume cerebral".

Tem idade certa para começar?

Quanto antes, melhor. A SBP registra que "a formação da arquitetura cerebral ocorre nos primeiros anos de vida" e serve de alicerce para as aquisições seguintes. Mas o manual também descreve como estresse positivo a dificuldade de verbalizar desejos antes dos 15 meses — ou seja, mesmo antes de a criança falar, a resposta do adulto já está ensinando alguma coisa.

O que é negligência, na definição da pediatria?

A SBP define negligência infantil como "qualquer ato ou omissão notável, suspeitado ou confirmado por um cuidador da criança ou um dos pais, que a privam das necessidades básicas adequadas à idade". A definição inclui explicitamente a "falta de garantia das necessidades emocionais ou psicológicas" — ou seja, não é só sobre comida, escola e consulta médica.

Fontes consultadas

  1. 1.O papel do pediatra na prevenção do estresse tóxico na infância — Manual de Orientação, Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e ComportamentoSBP — Sociedade Brasileira de Pediatria
  2. 2.Saúde mental infantil: como cuidar do bem-estar emocional das criançasSBP — Sociedade Brasileira de Pediatria