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Alimentação Infantil

Açúcar na Infância: Quanto é Demais, Onde Ele se Esconde e o Que é Mito

Nada de açúcar nos 2 primeiros anos, segundo o Ministério da Saúde, e menos de 10% das calorias depois disso, segundo a OMS. Veja onde ler a quantidade no rótulo — e por que a história do açúcar que deixa a criança agitada não se confirma.

Escrito por

Redação Blog com Saúde

Equipe editorial

Publicado em ·Atualizado em ·7 min de leitura

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Crianças de mãos dadas formando uma roda num gramado
Crianças de mãos dadas formando uma roda num gramado

Antes de falar em quantidade, uma regra que não tem meio-termo: nos dois primeiros anos de vida, a recomendação oficial é açúcar nenhum.

O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, escreve assim: "Não ofertar açúcar e produtos que contenham esse ingrediente nos 2 primeiros anos de vida contribui para a formação de hábitos alimentares mais saudáveis."

Não é "pouco". É nenhum, e vale até o segundo aniversário — não até o primeiro, como se costuma repetir.

Por que zero, e não pouco#

O motivo mais conhecido é a cárie. Mas o guia dá outro, que interessa mais a quem briga com o filho para ele comer legume:

"Como a criança já tem preferência pelo sabor doce desde o nascimento, se ela for acostumada com preparações açucaradas, poderá ter dificuldade em aceitar verduras, legumes e outros alimentos saudáveis."

A preferência pelo doce já vem de fábrica. O que se decide nos dois primeiros anos não é se a criança vai gostar de doce — vai — mas contra o que o resto da comida vai ter que competir. Um paladar calibrado por iogurte adoçado torna a abobrinha uma proposta pior do que ela seria.

O guia acrescenta o efeito de longo prazo: "o consumo precoce de açúcar aumenta a chance de ganho de peso excessivo durante a infância e, consequentemente, o desenvolvimento de obesidade e outras doenças na vida adulta".

E o mel entra na mesma regra, por dois motivos. O guia explica que o mel "contém os mesmos componentes do açúcar, o que já justifica evitá-lo", e que além disso há risco de contaminação por uma bactéria associada ao botulismo, à qual a criança menor de 1 ano é menos resistente. Quem conhece só o segundo motivo libera o mel no primeiro aniversário. O guia não libera.

Depois dos 2 anos: o limite da OMS#

A partir daí a referência é a diretriz da Organização Mundial da Saúde, que vale "ao longo de todo o curso de vida" — adultos e crianças:

  • Menos de 10% da ingestão energética diária total vinda de açúcares livres
  • Menos de 5% traz benefícios adicionais à saúde

Para dar escala, a OMS calcula que 10% correspondem a cerca de 50 g, ou aproximadamente 12 colheres de chá, para uma pessoa de peso saudável consumindo cerca de 2.000 calorias por dia. Uma criança come bem menos que isso, então o limite proporcional dela é bem menor — para uma criança pequena, o teto prático fica na casa de meia dúzia de colheres de chá por dia, considerando tudo.

O detalhe que muda a conta#

"Açúcares livres" não é a mesma coisa que "açúcar do açucareiro". A definição da OMS:

"Açúcares livres incluem monossacarídeos e dissacarídeos (por exemplo, sacarose, frutose, glicose) adicionados a alimentos e bebidas pelo fabricante, cozinheiro ou consumidor, e açúcares naturalmente presentes em mel, xaropes, sucos de fruta e concentrados de suco de fruta."

Ou seja: o suco de laranja espremido na hora entra na conta. O mel entra. O xarope de agave entra. A laranja inteira não entra — a diferença está na fibra e na estrutura da fruta, que mudam a velocidade com que o açúcar chega ao sangue e o quanto a criança se sente satisfeita.

É por isso que substituir refrigerante por suco natural resolve menos do que parece. Reduz aditivos e ganha vitamina, mas o açúcar livre continua ali.

Onde ele se esconde — e como ver#

Aqui está a ferramenta que a maioria das famílias ainda não usa, e que existe desde 9 de outubro de 2022.

A Anvisa passou a exigir rotulagem nutricional frontal: um símbolo de lupa na frente da embalagem, com o aviso "ALTO EM", para três nutrientes críticos — açúcares adicionados, gorduras saturadas e sódio. Nas palavras da agência, "a ideia é esclarecer o consumidor, de forma clara e simples, sobre o alto conteúdo de nutrientes que têm relevância para a saúde".

Os limites que disparam a lupa de açúcar:

Tipo de produtoLimite para o selo
Sólidos e semissólidos15 g ou mais de açúcares adicionados por 100 g
Líquidos7,5 g ou mais de açúcares adicionados por 100 ml

E a tabela nutricional também mudou: passou a ser obrigatório declarar açúcares totais e adicionados separadamente, com valores por 100 g ou 100 ml — o que finalmente permite comparar dois produtos sem fazer regra de três entre porções de tamanhos diferentes. A regra também exige letras pretas em fundo branco, para acabar com a tabela camuflada no fundo da embalagem.

Vale saber o que a lupa não faz: ela marca o que é alto, não o que é aceitável. Um produto sem lupa pode ter 14 g de açúcar por 100 g — ou seja, ficou logo abaixo do limite. A lupa é um filtro grosso, útil para o supermercado; a tabela é para a decisão fina.

O Guia Alimentar tem um alerta específico sobre isso: "alimentos ultraprocessados direcionados para crianças devem ser evitados", justamente porque parte deles "são vistos como saudáveis". O exemplo que o guia usa é o queijo petit suisse sabor morango — vendido como fonte de cálcio para criança e classificado, na tabela do próprio guia, como ultraprocessado.

O mito que vale desfazer#

Quase toda família brasileira já disse a frase: "não dá doce que ele fica ligado".

A evidência não sustenta. A meta-análise de referência sobre o tema, publicada no JAMA em 1995, reuniu 23 estudos em que crianças recebiam quantidade conhecida de açúcar ou placebo com adoçante artificial, com participantes e pesquisadores cegos ao que estava sendo dado. Os intervalos de confiança de todas as 14 medidas incluíram zero. A conclusão dos autores: "o açúcar não afeta o comportamento nem o desempenho cognitivo das crianças".

Os próprios autores registram a ressalva: "um efeito pequeno, ou efeitos em subgrupos de crianças, não podem ser descartados". Ou seja, a porta não está fechada — mas o efeito grande e óbvio que os adultos juram ver não apareceu em estudo cego nenhum.

A explicação mais provável para o que se observa é o contexto. Açúcar em quantidade costuma aparecer em festa de aniversário, Natal, parque — lugares cheios de crianças, barulho, novidade e ausência de rotina. A agitação é da situação. O bolo é a testemunha, não o réu.

Isso não é licença para liberar. Cárie, ganho de peso e deslocamento de alimentos melhores do prato são motivos suficientes, e esses têm evidência. Só não vale usar um argumento falso para sustentar uma recomendação verdadeira — quando o argumento cai, a recomendação cai junto.

O que fazer na prática#

Nos 2 primeiros anos: nada de açúcar, nem mel, nem produtos que os contenham. Fruta, sim, à vontade.

Depois dos 2 anos, quatro trocas que mexem no consumo cotidiano — que é onde o limite estoura:

  1. Bebida. Água como padrão. Suco, mesmo natural, é ocasional e em copo pequeno. Refrigerante e suco de caixinha são a maior fonte isolada de açúcar livre na dieta infantil, e a lupa de líquidos dispara a partir de 7,5 g por 100 ml.
  2. Iogurte. Natural, com fruta amassada por cima, no lugar do de sabor. É a troca de melhor relação entre esforço e resultado.
  3. Lanche da escola. Fruta, pão com queijo, ovo cozido, batata-doce. O guia sugere, para crianças pequenas, variar a fruta com "raízes e tubérculos, como mandioca, batata-doce, inhame".
  4. Café da manhã. Cereal matinal e achocolatado costumam levar lupa. Pão, fruta e leite sem adição resolvem sem lupa nenhuma.

E uma que não é troca, é postura: não usar doce como recompensa. O Guia Alimentar desaconselha "oferecer recompensas e prêmios como presentes ou guloseimas" para convencer a criança a comer, e a Sociedade Brasileira de Pediatria orienta o mesmo. Premiar com doce ensina exatamente a hierarquia que se quer desfazer — que o brócolis é o preço e o sorvete é o prêmio.

O ponto de equilíbrio#

Depois dos dois anos, o objetivo não é uma infância sem bolo de aniversário. É que o bolo continue sendo bolo de aniversário — evento, e não terça-feira.

A conta que importa é a do consumo invisível: o achocolatado da manhã, o iogurte de sabor do lanche, a bolacha recheada da tarde, o suco de caixinha da mochila. Somados, esses quatro passam do limite da OMS antes do jantar, e nenhum deles é lembrado como "doce".

Para aprender a ler o que está na embalagem, veja como ler rótulos de alimentos. E para a fase em que o paladar se forma, introdução alimentar aos 6 meses.

Perguntas frequentes

Quanto açúcar uma criança pode comer por dia?

Depende da idade. Nos 2 primeiros anos, o Guia Alimentar do Ministério da Saúde recomenda não ofertar açúcar nem produtos que o contenham. Depois disso vale a diretriz da OMS: menos de 10% da ingestão energética diária vinda de açúcares livres, e menos de 5% traz benefício adicional. Para referência, a OMS calcula que 10% equivalem a cerca de 50 g — cerca de 12 colheres de chá — para um adulto que consome 2.000 calorias. Para uma criança, que come bem menos, o limite proporcional é bem menor.

Suco de fruta natural conta como açúcar?

Conta. A OMS define açúcares livres como os adicionados pelo fabricante, cozinheiro ou consumidor, mais "açúcares naturalmente presentes em mel, xaropes, sucos de fruta e concentrados de suco de fruta". Suco de laranja espremido na hora entra na conta; a laranja inteira, não. A diferença é a fibra e a estrutura da fruta, que mudam a velocidade de absorção e a saciedade.

Açúcar deixa criança agitada?

A evidência não sustenta. A meta-análise de referência sobre o tema, publicada no JAMA em 1995, reuniu 23 estudos com açúcar de quantidade conhecida contra placebo com adoçante, todos cegos, e concluiu que "o açúcar não afeta o comportamento nem o desempenho cognitivo das crianças". Os autores ressalvam que "um efeito pequeno, ou efeitos em subgrupos de crianças, não podem ser descartados". Há muitos motivos para limitar açúcar; agitação não é um deles.

Como saber se um produto tem açúcar demais?

Olhe a frente da embalagem. Desde outubro de 2022, produtos vendidos no Brasil trazem uma lupa com o aviso "ALTO EM AÇÚCAR ADICIONADO" quando têm 15 g ou mais de açúcares adicionados por 100 g, no caso de sólidos, ou 7,5 g ou mais por 100 ml, no caso de líquidos. A tabela nutricional também passou a informar açúcares totais e adicionados separadamente, e os valores por 100 g ou 100 ml.

Pode dar mel no lugar do açúcar?

Não antes dos 2 anos. O Guia Alimentar aponta dois motivos: o mel "contém os mesmos componentes do açúcar", e há risco de contaminação por uma bactéria associada ao botulismo, à qual a criança menor de 1 ano é menos resistente. A OMS também classifica o açúcar do mel como açúcar livre. Trocar açúcar por mel não reduz o açúcar.

Preciso proibir bolo de aniversário?

Abaixo dos 2 anos, a recomendação oficial é não oferecer açúcar — e isso inclui o bolo. Depois dessa idade, a conta que importa é a do dia a dia, não a da festa. O consumo que preocupa é o cotidiano e invisível: o iogurte de sabor do lanche, o achocolatado da manhã, o suco de caixinha da mochila. É ali que o limite da OMS costuma estourar, não no aniversário.

Fontes consultadas

  1. 1.Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 AnosMinistério da Saúde
  2. 2.Healthy diet — fact sheetOMS — Organização Mundial da Saúde
  3. 3.Rotulagem nutricionalAnvisa — Agência Nacional de Vigilância Sanitária
  4. 4.The effect of sugar on behavior or cognition in children. A meta-analysisJAMA, 1995 — via PubMed